Coffee & TV: Mrs. Robinson, The Graduate e por que Mike Nichols fará falta

Semana passada, perdemos Mike Nichols, um dos diretores mais importantes do cinema americano contemporâneo. Ele foi um dos poucos a completar a quadra EGOT, ao ser premiado com Emmy, Grammy, Oscar e Tony, as maiores premiações da indústria do entretenimento dos Estados Unidos, e tem no currículo filmes importantes e incríveis como Closer, Quem Tem Medo de Virginia Woolf? e The Graduate (A Primeira Noite de um Homem). Este último é sua obra-prima, o filme que o fez famoso e seu trabalho mais querido pelo público – e é dele que vou falar hoje.

Nada mais lógico em um espaço que fala a respeito de música, filmes e música nos filmes celebrar um dos exemplos clássicos de aposta que deu certo. A trilha de The Graduate foi indicada ao Grammy, fez um sucesso estrondoso nas paradas da época e já é tão clássica quanto sua fala mais icônica: “Mrs. Robinson, you’re trying to seduce me… Aren’t you?”.

Em 1967, um então desconhecido Dustin Hoffman deu vida a Benjamin Braddock, um garoto de volta pra casa depois do fim da faculdade. Sua vida acadêmica foi um sucesso, sua família é rica e ele tem um futuro brilhante pela frente. No entanto, a mensagem que ele passa, com seus silêncios e conversas desajeitadas, é de melancolia e desencontro. A gente saca isso logo nos primeiros cinco minutos do filme, só porque ao fundo toca “The Sound Of Silence”. Ao longo de todo o filme, Simon e Garfunkel nos contam aquilo que os personagens não dizem. A dupla penetra nas entrelinhas da história e o que eles dizem, assim como o silêncio, cresce como câncer da primeira à última cena.

O que é mais incrível nisso tudo é que as músicas da dupla que fazem parte da trilha sonora do filme não foram feitas especialmente para ele, como era o mais comum na época e como boa parte dos filmes faz hoje também. Aliás, bem o contrário: a maior parte delas já tinha sido lançada por Paul Simon e Art Garfunkel alguns anos antes e a dupla só regravou algumas versões e adaptou a única ainda não lançada, “Mrs. Robinson”, para o álbum especial do filme. Essa combinação foi uma aposta do próprio Mike Nichols, que recebeu uma luz no fim do banho e percebeu que aquelas músicas eram perfeitas para o filme que ele estava fazendo. Sim, na época em que estava filmando The Graduate, o diretor ouvia Simon & Garfunkel todos os dias no chuveiro, e só mesmo um cara com sua sensibilidade para perceber que aquelas músicas eram absolutamente a cara do seu filme.

Muitas pessoas, quando pensam em The Graduate, o associam imediatamente a uma história de um garotão que teve um caso com uma mulher mais velha. O título brasileiro do filme, A Primeira Noite de um Homem, leva o espectador exatamente por esse lado. No entanto, ele é sobre muito mais, e nem estou me referindo à evolução da história – ou seja, garotão que tem um caso com uma mulher mais velha e depois se apaixona por sua filha e causa a maior confusão. O que importa aqui é o que está por trás daquilo que Benjamin faz, o que o leva a misturar as coisas e confundir seus sentimentos.

Acima de tudo, The Graduate é um filme sobre um garoto que, como muitos na idade dele em 1967, e hoje também, não faz a menor ideia do que fazer com sua vida. As referências que ele tinha até então, representadas pela figura de seus pais e seus amigos bem sucedidos, não lhe servem de inspiração alguma, indo ao extremo oposto de lhe causar rejeição. Benjamin é aquele cara que fez tudo certinho para então descobrir que talvez, apenas talvez, não é exatamente pelo certinho que ele vinha procurando o tempo inteiro. Sem a resposta para a pergunta de um milhão de dólares, o jeito é quebrar tudo, do jeito limpinho e covarde de Benjamin de quebrar tudo: se escondendo em quartos anônimos de hotel com Mrs. Robinson, esposa do sócio de seu pai, vivida pela espetacular Anne Bancroft.

É importante lembrar aqui que estamos em 1967. Filhos estão rompendo com os ideais de seus pais desde sempre, mas, por mais universal que seja essa história, é preciso pensar nessa época com carinho. A década de 60 foi uma época marcada pela transgressão de costumes, principalmente entre os jovens, e foi nesse finzinho de década, com auge em 68, que a contracultura pipocou pelo mundo. Nesse período, pequenas, porém importantes revoluções de costumes estavam em curso, e o que os hippies, as mulheres queimando sutiãs e os negros que ousavam sonhar tinham em comum era a vontade de acabar “com tudo isso que está aí”, dar uma banana pro mundo quadrado e atrasado construído pelas gerações anteriores e fazer algo novo. Nosso menino Benjamin, apático como só ele, não poderia ser menos ativista – mas o espírito da época tem tudo a ver com seu não pertencimento.

the_graduate_ending_shot_elaine_and_benjamin_on_bus-e1386510857956

Esse abismo entre gerações foi retratado também na trilha sonora, através do sensacional contraste entre as músicas de Simon & Garfunkel e o score original de Dave Gruisin. Enquanto, de um lado, temos folk com letras melancólicas, do outro temos jazz alegre, divertido, que flerta com o cha-cha-cha. Assim como entre os personagens, até nas músicas existe um conflito muito sério acontecendo.

Por captar o espírito dessa época de forma tão completa, num filme que é divertido, tocante e bem acessível, The Graduate é a obra mais importante que Mike Nichols nos trouxe. O filme já faz parte da cultura pop americana e chovem referências a ele por aí. Acredito que uma das mais populares seja o filme 500 Dias Com Ela, que levou muitas pessoas dessa nova geração (incluindo essa que vos escreve) a conhecer o romance torto cujo final levou Tom Hansen e Summer Finn àquela confusão. Já a música “Mrs. Robinson” também fala sozinha sobre o filme: em “Forrest Gump”, por exemplo, ela é usada justamente para ilustrar parte da década de 60. A música também ganhou inúmeras versões, indo do clássico Frank Sinatra ao rock alternativo dos Lemonheads – essa última versão, a mais famosa, também já esteve em um bocado de outras trilhas.

“Mrs. Robinson” é a música mais lembrada e quem não conhece o filme costuma pensar primeiro na personagem que ela inspira do que no protagonista da história. No entanto, é preciso sempre destacar o papel de “The Sound Of Silence” na construção de The Graduate e no caráter de Benjamin. Como o silêncio da dúvida, ela está sempre ali dando um gosto um tanto quanto amargo nas aventuras vividas pelo mocinho, e aquele final não teria a mesma ambiguidade apavorante não fosse por aquele “Hello darkness, my old friend”. Obrigada, Nichols.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *