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Coffee & TV: os encontros e desencontros e a ficção quase real de “Ela”

No último domingo (02), o filme Ela recebeu o prêmio de Melhor Roteiro Original no Oscar, grande prêmio da Academia. Foi Spike Jonze que escreveu e dirigiu essa história que, a princípio, pode parecer uma viagem da ficção científica, mas que está mais próxima de nós do que parece.

O filme se passa num futuro meio indeterminado, onde Theodore, o personagem de Joaquin Phoenix, se apaixona por Samantha, seu sistema operacional. Esse programa é um misto de Windows com um Siri desenvolvido ao ponto de poder se expandir em infinitas possibilidades e também de conseguir estabelecer vínculos com os humanos. Esse vínculo, tão palpável quanto só a voz da Scarlett Johanson poderia conseguir, é o bastante para que esse homem traumatizado pelo divórcio embarque num relacionamento amoroso com essa inteligência artificial, que ele carrega para todo canto consigo em um plug no ouvido.

E não é só ele que faz isso: aos poucos, todas as pessoas passam a criar laços com seu sistema, seja de amor ou amizade.

Foi um dos filmes que mais me marcou nessa temporada de premiações, por mostrar uma realidade que parece roteiro de distopia, mas que é absurdamente próxima da nossa realidade. Ela é um filme que fala sobre todos nós e o nosso medo do amor, do fracasso e da entrega. É um filme sobre solidão que me faz pensar se não estamos muito ferrados, já que a tecnologia nos ajuda a construir esse forte impenetrável onde é possível traçar relações superficiais, que não fazem bagunça alguma, perfeitamente adequadas a essa vidinha insípida, inodora e virtual que parece tão acolhedora. Ao mesmo tempo, é engraçado reparar que um dos personagens mais humanos e vulneráveis do filme é justamente Samantha, a inteligência artificial, e não dá pra não acreditar, nem que seja um pouquinho, na história vivida por ela e Theodore. Como é comum aos filmes do Spike Jonze, realizador de histórias bem pouco ortodoxas (recomendo muito Quero Ser John Malkovich), Ela é um trabalho pra ser visto, revisto e intensamente discutido.

Mas como eu não sou antropóloga, socióloga e muito menos psicóloga, vamos falar de música! Além de trabalhar com cinema, Jonze é famoso por dirigir videoclipes. O portfólio do cara é imenso e traz clientes como Sonic Youth, Foo Fighters, Björk, Arcade Fire, Weezer e Kanye West. Só por conta disso, é possível inferir que ele manja do assunto e tem uma sensibilidade especial na hora de casar o som com a imagem. Ele escolheu como responsáveis pela trilha William Butler, do Arcade Fire, e Owen Pallett, do Final Fantasy (mas que também toca com a banda canadense). Assim, como é de se esperar, a trilha conta com várias músicas executadas pelo próprio Arcade Fire. A maioria delas é instrumental, mas “Supersymmetry”, por exemplo, foi escrita especialmente pro filme, mas também foi lançada dentro de Reflektor, ótimo último álbum do grupo.

A canção principal é “The Moon Song”, que, no filme, é interpretada pela própria Scarlett (vocês estão lembrados que a moça tem disco lançado, né?) com ajuda do Phoenix. É uma música super singela, que os dois cantarolam como dois passarinhos apaixonados numa das sequências mais ternas do filme todo. No dia da premiação, a música foi interpretada por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs (que tem clipe dirigo pelo Jonze e que já contribui para trilha de um outro filme seu, Onde Vivem Os Monstros), com Ezra Koening, do Vampire Weekend, tocando violão e fazendo a segunda voz. O dueto funcionou muito bem, mas eu ainda prefiro a versão com filme, com Scarlett e Joaquin. Infelizmente, a música acabou perdendo pra grande favorita da noite “Let It Go”, da animação da Disney Frozen.

Além dos pianinhos delicados do Arcade Fire, outro destaque bem delícia da trilha é “Off You”, do The Breeders, banda da deusa Kim Deal, ex-Pixies. O Breeders também já trabalhou com Spike Jonze em outros carnavais. Se eu não me engano, é uma das primeiras músicas que tocam no filme e tem super a ver com o clima delicado e melancólico da história.

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E como melancolia pouca é bobagem, Ela chamou bastante atenção não apenas pela quantidade de prêmios pelo qual foi indicado, mas por ser uma suposta resposta do diretor à sua ex-mulher Sofia Coppola. Os dois foram casados por um bom tempo, e a fofoca dos bastidores é que Coppolinha fez Encontros e Desencontros para mostrar como se sentia no relacionamento dos dois.

O filme gira em torno de Charlotte, interpretada pela Scarlett Johanson (!!!), que vai para Tóquio acompanhar seu marido que está trabalhando fotografando uma banda. Ela passa boa parte do filme vagando sozinha e perdida na cidade, até que conhece o ator Bob Harris, interpretado pelo gênio Bill Murray, igualmente perdido e sozinho na cidade que está visitando a trabalho. O relacionamento dos dois é uma das coisas mais sensíveis e enigmáticas do cinema recente, principalmente por causa da cena final, que fica martelando na cabeça das pessoas por muito tempo.

Eu precisaria de bastante tempo e espaço para fazer todos os paralelos necessários (são muitos e obviamente a internet já fez isso melhor que eu, aqui e aqui), mas gostaria de destacar os cenários, com grandes metrópoles cheias de prédios altos, os planos bem abertos, a temática da solidão e o momento em particular em que Theodore diz para sua ex-mulher (Rooney Mara, caracterizada estrategicamente para ficar a cara da Coppolinha) que tudo que ela escreve o faz chorar. Além disso, as trilhas sonoras meio que se relacionam, ao menos na minha cabeça.

Ambos os filmes têm trilhas substancialmente instrumentais, as duas bem delicadas, que entregam aos longas atmosferas bem etéreas. Em Encontros e Desencontros, como é de praxe, Sofia Coppola trabalha com o Air, que tem tudo a ver com a proposta do filme, com Phoenix (lembremos que hoje ela é casada com o vocalista da banda, porque é uma moça que escolhe muito bem os seus maridos), e com o ponto alto que, para mim, é Jesus and Mary Chain, com a clássica “Just Like Honey”, que não podia ser mais perfeita para a cena final. Assim como na trilha de Ela, só música de chorar no cantinho e passar horas olhando melancolicamente para a janela.

No fim das contas, são dois filmes incríveis e complementares, feitos por dois artistas muito sensíveis (ironias do destino: Sofia e Jonze levaram o Oscar de Roteiro Original por esses trabalhos) que merecem ser vistos e celebrados. A única coisa que o filme da Coppolinha tem que Spike Jonze ficou devendo foi uma cena no karaokê: Scarlett Johanson e sua peruca cor-de-rosa interpretam “Brass In Pocket”, do Pretenders, e Bill Murray dá uma canja com “More Than This”. Além de acompanhar Samantha bem baixinho em “The Moon Song”, Joaquin Phoenix, para nossa tristeza, nem chega perto de um karaokê, porque prefere jogos de videogame mal-criados. É uma pena.

  • Paulo Alves

    Ótima Matéria!

  • Lucas

    Ótimo texto!
    Entrei aqui já procurando a coluna na intenção de que fosse sobre o “Ela”…