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Coffee & TV: Se enlouquecer, não se apaixone

Se Enlouquecer Não Se Apaixone é um daqueles filmes que provam que você sempre deve dar uma terceira chance aos filmes que te parecem cafonas pelo título brasileiro e também pela sinopse. Cansada de tanto ver ele na lista das recomendações da Netflix, fui ler o resumo, que não me pareceu muito convincente: um adolescente deprimido é internado em um hospital psiquiátrico por conta de suas tendências suicidas e acaba na ala dos adultos. Somando essa informação ao título, concluí que obviamente ele iria conhecer alguma garota incrível, provavelmente internada ali por conta de um engano parecido com o dele, e eles viveriam uma história de amor e eletrochoques e descobririam o sentido da vida com personagens caricatos de um hospício.

Que bom que eu estava errada e que bom que um amigo um dia veio me dizer que esse filme era realmente bom e eu deveria ver. No fundo, eu não estava muito errada nas minhas previsões: Craig está deprimido porque se sente pressionado com relação ao futuro e também porque gosta da namorada do seu melhor amigo. Ou seja, ele está tendo dificuldades para lidar com as circunstâncias básicas da adolescência e da vida no geral. Ele sente vontade de se matar, como muita gente já sentiu uma vez na vida após um dia ruim, mas é um pouquinho mais intenso em relação a isso. Craig trava na hora H ao se lembrar de sua família e por isso procura um hospital psiquiátrico. Ele só queria uma consulta, mas é tão contundente ao reafirmar sua vontade de morrer que a médica responsável não vê outra alternativa senão em admiti-lo. O problema é que a ala infanto-juvenil da clínica está em reforma e ele deve passar seu período de observação junto de outros adultos.

do you like music

Então ele fica amigo de Bobby, que o ensina a melhor forma de sobreviver ali dentro e o insere neste novo universo, cheio de personagens peculiares e novas regras de convivência. Interpretado por Zach Galifianakis, famoso pelo papel em Se Beber Não Case, Bobby é um personagem cômico, mas também bastante trágico. Seu humor pesa para o lado negro e sua história de vida é genuinamente triste. A maior parte dos personagens do filme foge dos clichês histriônicos e fáceis que imaginamos em uma história passada em um hospital psiquiátrico e foi isso que me ganhou no filme. Até o romance de Craig, que obviamente acontece com a misteriosa Noelle, interpretada por Emma Roberts, foge daquilo pelo que a gente espera. Eu via toda uma situação manic pixie dream girl acontecendo, mas na verdade a história oferece um caso bem bonitinho e delicado sobre dois jovens meio desajustados na vida, mas que vão ficar bem no fim das contas.

Acredito que o fator pé no chão no filme se deva ao fato do roteiro ser baseado no livro It’s Kind Of A Funny Story, ainda não lançado no Brasil, que conta a experiência do autor, Ned Vizzini, que também passou um tempo internado na adolescência por conta de uma depressão. Ainda não tive a chance de lê-lo, falha que pretendo corrigir em breve, mas o romance foi muito bem recebido pela crítica e está na lista dos 100 melhores livros para jovens adultos da American Library Association.

Resolvi escrever sobre o filme por conta de uma cena específica, que entrou para minha lista de momentos musicais favoritos de filmes que não são musicais: quando Craig e seus colegas de hospital fazem uma performance de “Under pressure” que é realmente incrível. A cena começa com ele desajeitado junto ao microfone e todos os pacientes tocando de forma meio descoordenada, mas logo o cenário se altera para o de um verdadeiro clipe de rock, com direito a iluminação apropriada, figurinos glam-rock e playback com Freddie Mercury e David Bowie para dar uma forcinha. Mais ou menos o que acontece na nossa cabeça sempre que aquela música incrível começa a tocar quando estamos no banho e a gente jura que está no palco de um puta festival liderando uma massa de pessoas ensandecida pelo nosso som.

Outra música interessante usada na trilha sonora é uma versão instrumental de “Where Is My Mind?”, com foco principalmente no piano. É uma versão calma e minimalista que tem tudo a ver com a vibe do filme. Diferentemente, por exemplo, do explosivo e arrebatador Clube da Luta, em que ela também compõe a trilha, mas em sua versão original, com o Pixies. Outra música que embora não esteja presente no filme eu considero muito emblemática para a situação é “Oh My God”, da cantora de punk rock norueguesa Ida Maria. A música aparece apenas no trailer do filme, o que é uma pena, pois sua letra, cheia de gritos de socorro e pedidos de ajuda, é a cara do longa.  Achei no Youtube um clipe feito com recortes do filme usando esta música como plano de fundo e o resultado não poderia ser melhor. É uma versão de três minutos e, mesmo que você ainda não tenha visto, não é como se ele fosse cheio de plot twists que te impeçam de ver o vídeo antes.

Por fim, o último destaque fica para a banda Broken Social Scene, que trabalhou junto com a produção na criação de canções originais que ajudaram a dar corpo ao trabalho. Três músicas entraram na lista oficial: “Not At My Best”, “Sweet Number One” e a que eu mais gosto, “Major Label Debut (Fast)”.

  • Natália

    Anna, leia o livro! É tao incrivel quanto o filme. Eu chorei horroresle do. Gostei do filme também, mas como sempre, o livro traz muito mais coisas. É mais denso também, vale a pena.

  • Jéssica Fernandes

    Anna, sua resenha foi tão bem feita, já estou correndo para o Netflix, procurando esse filminho.
    Abraço.

  • Juarez

    Como sempre, essa coluna se diferencia do restante do conteúdo do blog pelo apreço à qualidade da escrita e do conteúdo abordado. Os demais contribuidores deveriam tomar como exemplo. Parabéns.