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Coffee & TV: The Bling Ring – Sofia Coppola dançando o rap da era dos excessos

The Bling Ring é um filme para ser visto no volume máximo. Primeiro porque a cena de abertura do filme já manda a viciante e barulhenta (na melhor concepção possível do adjetivo) “Crown On The ground”, do duo Sleigh Bells, que vai dar o tom de todo o filme; e segundo porque ele é um filme que fala, sobretudo, de um mundo de excessos, de modo que não faria o menor sentido se a trilha de fundo respeitasse o volume permitido na vizinhança depois das dez da noite.

Mais uma vez interessada no universo curioso e pitoresco das pessoas ricas, em seu trabalho mais recente – um dos filmes mais aguardados do ano por mim – Sofia Coppola conta a história real de uma gangue de adolescentes de classe média alta dos Estados Unidos que tinha como passatempo favorito invadir as mansões dos famosos da região e roubar roupas, sapatos, jóias e qualquer coisa interessante e de valor que encontrassem naqueles closets abarrotados. Tudo começou quando Marc Hall e Rebecca Ahn, personagens inspirados nas figuras reais de Nick Prugo e Rachel Lee, resolveram invadir a casa de um conhecido de Marc que estava fora da cidade. Entrar na casa foi tão fácil e eles encontraram tantas coisas de valor por lá que os assaltos noturnos foram ficando cada vez mais ambiciosos.

Paris Hilton abriu as portas de casa para que Coppola filmasse em um dos cenários onde os crimes realmente aconteceram. A casa de Paris é exatamente o que se imagina quando se pensa a respeito da mansão da socialite do jeito mais caricato possível: fotos dela estampadas nas almofadas, capas de revista emolduradas nas paredes, um quarto só para sapatos, outro para roupas e uma quantidade absurda de jóias. A sala-boate com posters com o rosto de Paris pregado nas paredes é a cereja do bolo do santuário absurdo de uma pessoa que é famosa por ser famosa. Emma Watson faz graça no poste de pole dance e eles usam drogas e bebem no local como se estivessem mesmo em uma festa qualquer.

A personagem de Emma é inspirada na sub-celebridade americana e estrela de um dos reality shows campeões no quesito angústia existencial e vergonha alheia que já se teve notícia (e olha que esse é um nicho de programas que eu domino): Pretty Wild. O caso foi descoberto quando o reality que contaria a vida de Alexis Neiers e sua irmã bastada Tess Taylor, que no filme é interpretada por Taissa Farmiga (de American Horror Story), estava sendo produzido, e os produtores aproveitaram a oportunidade para fazer da atração uma versão por trás dos bastidores do caso, com cenas filmadas nos tribunais e muitos depoimentos lacrimosos das protagonistas sobre o caso. O cinismo e a dissimulação de Nicki, personagem de Emma no filme, parece absurdo e caricato, mas basta assistir a um episódio da série e ver que não existe exagero nenhum.

O resumo da ópera é basicamente esse: eles roubam, eles frequentam festas, eles tiram dezenas de fotos de si mesmos, postam no Facebook, e contam vantagem sobre seus feitos nas festas da escola. A Bling Ring invadiu, além da casa de Paris Hilton, as mansões de Rachel Bilson, Audrina Patridge, Orlando Bloom e Lindsay Lohan, a maior conquista deles. Como pano de fundo para as travessuras, muito rap contemporâneo, batidas eletrônicas marcantes e letras que falam sobre dinheiro, marcas, e o lifestyle of the rich & famous. Não é um estilo que eu domine ou do qual eu seja particularmente fã, mas acho que, pra variar, Sofia Coppola acertou muito: a trilha ajuda a passar a mensagem que ela deseja. Senti falta de uma coisa mais raiz e old school, como “Money, Money, Money”, do ABBA, e outras pérolas (saudades, Gwen Stefani), mas entendo a opção de escolher coisas atuais pra compor uma história altamente contemporânea a respeito de um caso que provavelmente não existiria numa época sem celulares com câmera e celebridades instantâneas.

Por isso, a escolha de M.I.A cantando sobre garotas malvadas, as duas faixas de Kanye West, o artista mais narcisista da atualidade, e odes sobre bolsas de marca como em “Gucci bag”, de Reema Major, casam tão bem com todo o clima da história. A música é muito alta e os personagens falam pouco e não dá pra cair no engano de achar que falta desenvolvimento na história. É porque, no fundo, eles têm pouca coisa mesmo pra dizer. A música dos créditos é de Frank Ocean, a super emblemática “Super Rick Kids”, com linhas que dizem respeito a garotos com muitas empregadas e pais ausentes e falsos amigos procurando por amor.

Coppolinha mostra os fatos e apesar do tom satírico de várias cenas, ela julga pouco a história que está contando, mas as conclusões estão todas ali para que a gente pense o que quiser a respeito. É um bom filme, só espero com todas as minhas forças que daqui a alguns anos não seja visto como o retrato de uma geração, que por um acaso é a minha geração. Por favor, somos melhores que isso. Não somos?

  • Leocádia Garibaldi

    Ainda ñ vi, mas tenho vontade de assistir esse besteirol americano.