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Coffee & TV: “Trapaça” e a trilha que salva vidas

Verdade seja dita: eu não tenho uma grande boa vontade para com os filmes do David O. Russell. Me incomoda um bocado o fato de que ele sempre colha louros um tanto quanto exagerados por seus filmes, que não são ruins, mas não são lá aquela coisa. Pelo menos eu nunca vejo nada demais, e mesmo sabendo dos critérios (ou da falta deles) das premiações, ainda sou dessas que torce, sofre e fica muito triste quando um filme muito legal recebe menos atenção do que aqueles que num mundo justo seriam um filme divertido pra uma tarde de domingo e só.

Resumo da ópera: achei Trapaça um ótimo clipe com inspiração setentista. A história em si dá uma preguiça, o ritmo não ajuda e o filme é bem grande. Mas se não levarmos o roteiro em consideração – e não pensarmos muito no fato de que ele já levou prêmio pelo roteiro e deve levar mais alguns – é possível se divertir. A história gira em torno de um casal de pilantras, Christian Bale e Amy Adams, que “topam” colaborar com o FBI em uma operação de maior porte para pegar bandidos de colarinho branco.

Histórias de golpes e mutretas, com direito a disfarces, roteiro e armações mil são sempre divertidas de acompanhar – principalmente se são inspiradas em casos reais, como acontece aqui -, mas o filme não vai muito além disso. Todos os personagens brincam com a dicotomia entre verdadeiro e falso e essa sacada é bem legal e rende pérolas como uma cena de abertura com Bale arrumando a peruca, um Bradley Cooper de bobes no cabelo, e Jennifer Lawrence sendo histérica e aparentemente bêbada em tempo integral para minutos depois ir chorar no banheiro.

Esse conjunto, no entanto, não mexeu muito comigo. O que me fez achar que Trapaça valha a pena a ponto de indicar aqui pra vocês é o trabalho bacana da produção na hora de ambientar a história nos anos 70. O figurino, direto do acervo vintage da Gucci, é impecável, com muito brilho, lamê, dourado, camisas de seda e correntes de ouro. Amarrando tudo isso, uma trilha sonora escolhida a dedo, que só impõe respeito. Um exemplo: Duke Ellington, que tem esse nome por ser considerado o duque do jazz americano, é uma referência constante no filme. “Jeep’s Blues” aparece na sequência inicial do longa e o casal principal se apaixona justamente por causa dele. Enquanto Sydney (Amy Adams) usa uma pulseira de berloques com uma foto do músico pendurada, Irving (Christian Bale) observa o detalhe de longe e diz que o duque salvou sua vida. Os dois dançam juntos e o resto é o filme inteiro.

O grupo America, bem popular na época, marca presença com sua música mais icônica, “A Horse With No Name”. Outro cartada muito bem utilizada é o Wings, banda de Paul McCartney na era pós-Beatles, logo com “Live And Let Die”, uma de suas melhores músicas. A sequência em que ela aparece – Rosalyn (J. Law) tresloucada, limpando a casa e berrando a letra – não comoveu o coração dos críticos, mas eu meio que gosto da proposta. A referência à discoteca fica por conta de Donna Summer com “I Feel Love”, e Bee Gees aparece com “How Can You Mend a Broken Heart?”, e “The Jean Genie”, do Bowie, toca quando chega a vez de Ritchie (Bradley Cooper) viver seu momento de histeria maior. Quem fecha o filme é a Electric Light Orchestra com sua linda “10538 Overture”.

Ou seja, mesmo se a história não te agradar, sempre existe a possibilidade de fechar um pouquinho os olhos e olhos e curtir os arranjos e harmonias gostosos típicos da música da década. E eu que quase morri de tédio, agora posso dizer que Duke Ellington também salvou minha vida.

  • Joana Pinto

    Algumas películas só valem à pena pela soundtrack mesmo!(…)