SAFETY NOT GUARANTEED

Coffee & TV: Trilhas sonoras roubadas

Nesse fim de semana, estava assistindo a um filme (Safety Not Guaranteed. Bem bacana, por sinal) quando fui surpreendida por uma sequência que tinha como trilha sonora a música “Brick By Brick”, do Arctic Monkeys. Torci o nariz na hora. Veja bem, caro leitor, eu realmente gosto da música e nas últimas semanas tenho gostado de Arctic Monkeys mais do que já gostei em toda a minha vida. Paradoxalmente, foi por causa disso que a cena da Aubrey Plaza dando tiros em garrafas ao som da terceira faixa do Suck It And See me pareceu tão errada.

Sempre que escrevo aqui sobre trilhas sonoras, um discurso que se repete é que através de filmes e seriados eu sempre descubro coisas novas, sejam elas músicas ou bandas. O bacana disso, para além do fator óbvio de expandir o repertório – e eu sou a pessoa que tem a maior preguiça do mundo no que diz respeito a ouvir por livre e espontânea vontade aquele CD do qual está todo mundo comentando – é que a música é apresentada a você em um contexto todo próprio e especial. Não por acaso, minhas trilhas sonoras preferidas, se não são originais, trazem repertórios pouco conhecidos de artistas que já são familiares, porque é difícil demais levar a sério uma cena com aquela música que toca no rádio todos os dias, já foi tema importante de algum filme ou seriado marcante ou que faz parte da sua vida, a ponto de você não conseguir desconectá-la de você para emprestar ao personagem.

Eu sei, é uma luta inglória. Evitar usar “Someone Like You”, da Adele, em toda e qualquer cena onde uma mocinha de comédia romântica pensa no mocinho enquanto vê a chuva cair com o rosto encostado na janela é um passo fácil de ser dado; fazer uma curadoria musical para uma trilha sonora que fuja das apostas mais fáceis dá um certo trabalho, mas não é impossível; evitar reciclar músicas de outros filmes não é pedir muito. No entanto, fugir das lembranças de todos os espectadores em potencial é realmente impossível. Eu sei, ok? Mas isso não impede que, sempre que eu escuto na telona (ou na telinha) alguma música que eu conheça bastante ou que seja parte da minha vida no sentido mais brega e sentimental da coisa, eu sinta que de um jeito bem estranho algo não está ornando, como diria a minha avó.

“Portions For Foxes”, do Rilo Kiley, toca em diversos episódios de Grey’s Anatomy. É uma das minhas músicas favoritas da vida e eu acho um erro enorme que ela toque na série, porque em todas as cenas ela me parece simplesmente desconectada. Sabe quando, em uma receita de doce, é recomendado que a gente vá misturando um ingrediente ao outro de forma gradual, lenta, sempre misturando bastante, para que a massa incorpore o novo item? Pois é, ouvir uma música que eu conheça e goste demais em algum filme ou programa de TV me passa a mesma sensação de uma massa de bolo empelotada. Não incorporou. Amo a Dra. Meredith Grey do fundo do meu coração, mas não admito que ela roube minha música. “Portions For Foxes”, Mer querida, é minha e nem você tasca.

O incômodo que eu sinto é tão enorme que, não sei se vocês repararam, quando selecionei momentos musicais interessantes de Friends, deixei de fora “Yellow Ledbetter”, do Pearl Jam, que toca no último episódio. Foi um gesto frio e calculista da minha pessoa, apenas porque considero essa música muito mais minha do que ela jamais será de Ross e Rachel. Dá licença? Eles que se divirtam com “With Or Without You”!

Ok, isso foi eu sendo louca, mas agora falo sério: trilhas sonoras repetidas realmente me incomodam. Em Tudo Acontece em Elizabethtown, por exemplo, há uma sequência em que toca “Come Pick Me Up”, do Ryan Adams. Depois de ver Claire e Drew conversarem um com o outro a noite toda ao som dessa música incrível, fica difícil imaginar ela em algum outro contexto que não esse. Há uma cena linda da primeira geração de Skins, por exemplo, em que Sid e Cassie se desencontram viajando de trem para lugares opostos onde a mesma música serve de pano de fundo. Se não fosse por Elizabethtown ter chegado antes, eu tenho certeza que seria uma cena bonita com ambientação musical perfeita, mas não rolou. Quem assistiu aos dois na ordem inversa pode ter tido a mesma impressão. “Come Pick Me Up” virou tema para o desencontro de Sid e Cassie e não para o encontro (olha só que coisa) de Drew e Claire.

E aí que em um dos episódios mais sensacionais de Skins, Cassie vive um puta momento ao som de “Hometown Glory”, da Adele, e a partir de então eu nunca mais consegui ouvir essa música da mesma forma – e olha que ela chega a tocar em Grey’s Anatomy (sempre essa danada). Quando isso aconteceu, não consegui desvencilhar a música do sofrimento de uma personagem tão querida, a um oceano de distância do Seattle Grace. E pra não dizer que Grey’s vive de roubar trilhas sonoras alheias, é preciso ser justa e dizer que “Keep Me Warm”, da Ida Maria, sempre vai ser o tema do início da felicidade de Derek e Meredith, por mais que Skins tenha tentado usá-la também. Outro caso bem marcante é o de “Chasing Cars”, do Snow Patrol, que toca em um milhão de filmes ruins (graças a Deus não vi nenhum), mas que jamais chegará aos pés daquele segundo season finale (o desastre do episódio musical, com a música cantada pelo elenco, eu vou fingir que nunca vi, ok?) que tanto nos fez sofrer. Lembra como era incrível a época em que amávamos a Izzie?

spider man

Por fim, o que acredito que salva muitos momentos musicais de coincidências infelizes é o bom uso dos covers. “Champagne Supernova”, trilha do beijo de Homem Aranha de Seth e Summer em The O.C, funcionou tão bem por causa da versão que a banda Matt Pond Pa fez especialmente pra série – o que foi ótimo, porque a considero minha o bastante para me recusar a emprestar até mesmo para Seth Cohen. Em outro episódio, a versão original de “Wonderwall” é substituída por um cover do Ryan Adams. Ainda em The O.C. há o cover maravilhoso da Jem para “Maybe I’m Amazed”, do Paul McCartney – que marcou tanto que é comum achar por aí versões da música com o áudio do episódio no meio –, e o meu favorito de todos, aquele que o Nada Surf fez para “If You Leave”. A música original, da banda de new wave Orchestral Manoeuvres In The Dark, toca ao final do filme (FANTÁSTICO) Pretty in Pink, e foi composta especialmente pra ele. Aliás, nesse episódio de O.C. em que rola a versão do Nada Surf, a intenção era justamente homenagear o filme, tanto que o contexto no qual ela toca é bem parecido – só o final que muda um pouquinho.

Não é à toa que essa é minha série favorita.

E aí, vocês já sentiram que suas trilhas sonoras – seja a da sua própria vida ou a de algum filme querido – foi roubada ou é tudo maluquice da minha cabeça? Se for, fica aí a dica: Safety Not Guaranteed é um filme independente legal demais, lançado ano passado, sobre a estagiária de uma revista que responde o anúncio de um cara que procura um parceiro para viajar no tempo com o propósito de escrever uma matéria sobre ele. É incrível, tem a Aubrey Plaza, o Mark Duplass e ainda por cima toca Arctic Monkeys!

  • Joana Pinto

    Detesto ouvir “minhas músicas” em novelas da Globo! Te entendo!!

  • lucas

    Sou fã dessa sua coluna!

  • Jéssica

    Tive essa sensação quando assisti Mato sem cachorro, com uma trilha sonora que ia de The underdog do Spoon a Creep do Radiohead. Faltou criatividade e deixou a desejar, nesse ponto. Sugiro(se que é que você já não conheça)assistir a série do Multishow DO AMOR, tem uma trilha sonora linda de bonita (:
    Abraço, Anna.

  • Alejandra Álvarez

    A nova série Togetherness com Mark Duplass conta a história de dois casais que têm de viver na mesma casa
    para fugir da rotina da vida e suas aventuras para conseguir é que o elenco vai
    enfrentar situações engraçadas que não são irrealistas.