Com saldo positivo, sétima edição do Planeta Terra se destaca com shows incríveis de Blur e Beck

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Fotos: Mahê Ferreira

“Woo hoo!”, “Yeah, yeah!” e “Oh, yeah!” foram escolhas acertadas para finalizar mais um Planeta Terra Festival. Os famosos gritos ensandecidos de Damon Albarn em “Song 2” deram o tom geral da sétima edição do evento, que rolou no Campo de Marte no último sábado, em São Paulo. O lugar, aliás, se mostrou apto a receber futuros festivais, com a facilidade de acesso ao metrô jogando a favor – mas, a organização, nos próximos anos, bem que poderia investir em estruturas com tendas para quem não quiser se esturricar no sol senegalês da primavera brasileira. Também houve reclamações sobre filas internas e externas. Essas últimas causadas por falhas no sistema pra quem teve que retirar suas entradas no local.

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Com dois palcos, o festival contou com poucos conflitos de horários, sendo o embate entre Lana Del Rey e Beck o mais relevante. Apesar do fanatismo quase religioso demonstrado pelos fãs da cantora, que se esgoelavam e quase ofuscavam a voz molenga de Lana, quem optou pelo loser californiano não se arrependeu. Não que a boneca de coroa de flores na cabeça tenha mandado mal. Com uma banda competente e que se esforçava ao máximo para extrair ao vivo os sons de estúdio, Lana gerou catarses para além do gargarejo, sendo possível observar choros de emoção de fãs que assistiam ao show de longe. Mas, para quem não se abalou com Born To Die, a conversão não aconteceria ali. Os fãs curtiram – e isso já era previsível.

No palco ao lado, no entanto, quem não era fã, provavelmente está ouvindo OdelayGuero neste momento. Beck Hansen conseguiu, em pouco mais de uma hora, a proeza de fazer milhares de pessoas se esquecerem que a noite ainda teria o Blur. O setlist foi certeiro, passeou por seus maiores e estilos diversos, entregou execuções emocionantes de faixas do disco Sea Change e contou até com “Billie Jean”. Dançando de forma esquisita, como se ninguém estivesse olhando, Beck carregou o público na palma da mão, e sua banda conduziu com precisão um show inesquecível, que começou com “Devil’s Haircut” e terminou com “Where It’s At”. De perdedor, ali, não tinha ninguém.

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Antes disso, Clarice Falcão cumpriu tabela com musiquinhas insossas. Em seguida, BNegão aumentou o nível e o volume, jogando groove propício pra dançar com uma cerveja gelada na mão. Cerveja esta que era comprada com lágrimas nos olhos, já que pagar sete reais em pouco mais do que um copo americano do líquido não estava nos planos de muita gente, imagino eu. Teve também os ingleses do Palma Violets, que empolgaram e se esforçaram com as músicas de seu único disco, o interessante 180. Apesar de ter sido pouco memorável, a tentativa foi válida, já que o line-up carecia de novidades inéditas por aqui. E “Best of Friends” é uma baita música!

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Pra quem queria um tempinho para descansar e curtir um show agradável sem precisar se mexer muito, viu no Travis a escolha perfeita. Os escoceses estavam claramente empolgados de fazerem parte do festival e não escondiam sorrisos largos no rosto. O repertório povoado por hits e algumas músicas novas agradou e recarregou as energias para o baile de hip hop, funk, soul e rock que viria a seguir, com os incríveis The Roots.

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Nem momentos “farofas”, como a citação a “Sweet Child O’ Mine”, abaixaram a temperatura do show do grupo liderado pelo baterista Questlove e pelo vocalista Black Thought. Fazendo uma apresentação praticamente sem pausas entre as faixas, os músicos passearam por inúmeras influências, além de terem demonstrado técnica e precisão absurdas. Uma grande banda que provavelmente saiu do palco com o título de show surpreendente do dia – além do troféu de melhor piadinha: o tocador de sousafone, um instrumento enorme, da família dos metais e que se aparece com uma tuba, foi carinhosamente apelidado de Tuba Gooding Jr.

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A pontualidade precisa do Terra também foi mais um fator a favor. Com isso, às 21h30 subia ao palco o quarteto britânico Blur, que não tocava no país desde 1999. E o retorno não poderia ter sido melhor. Formando uma banda afiadíssima e com total controle sobre o público, Damon Albarn, Alex James, Graham Coxon e Dave Rowntree entregaram um dos melhores shows internacionais que o Brasil viu e verá em 2013. A segurança com seu repertório possibilitou um setlist recheado de hinos e que permitiu “gastar”, logo em sua primeira metade, faixas obrigatórias do britpop, como “Girls And Boys”, “Coffee & TV” e “Tender”. Nessa hora, inclusive, o coro de “Oh, my baby/ Oh, my baby/ Oh, why/ Oh, my” fez daquele um desses momentos que arrepiam cada milímetro do corpo, desses momentos raros que entram na seleta coletânea de memórias sobre as quais nossos filhos e netos ouvirão muito a respeito. O bis, que teve “Under The Westway” e bolas à la Arcade Fire no Coachella, não fica pra trás. A bateria de “Song 2” iniciou os dois minutos finais do Planeta Terra Festival 2013. Minutos que ainda ecoam na cabeça de quem estava por lá.

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No fim, o line-up e o Campo de Marte agradaram. Estar no metrô minutos após o berro derradeiro de Albarn foi reconfortante. Que o Terra 2014 seja gentil, com banheiros tão bons quanto os desse ano, com mais sombras, menos filas e mais instalações inusitadas e inesperadas – afinal, em edições passadas, elas formavam o diferencial do evento, dando forma e ajudando a moldar o “ar charmoso” e a “cara” do festival.

E que Beck e Blur não demorem tanto para voltar.