Como foi o Benicàssim, festival espanhol que reuniu nomes como Killers, QOTSA e Arctic Monkeys

FIB 1

Cobertura feita em parceria com a Revista Noize.

Fotos: Mahê Ferreira

O calor sufocante e a brisa meio abafada do Mediterrâneo quase roubam a cena do FIB, o Festival Internacional Benicàssim, um dos eventos musicais mais tradicionais do verão europeu. Apesar de sua área ser pequena (a distância entre palcos é mínima) e sua estrutura não ter grandes atrativos visuais, o line-up sempre chama a atenção. Em 2013, os headliners foram Queens of the Stone Age, Primal Scream, Beady Eye, Arctic Monkeys e The Killers.

Durante quatro dias, a arena montada a alguns minutos da praia da pequena Benicàssim se torna refúgio para férias e bebedeira INTENSA de ingleses, principalmente. Em meio a boatos de cancelamento e crises financeiras dos organizadores, o festival começou animado, com um público razoável, ótimos shows e som equalizado de maneiro cirúrgica, não deixando decibéis vazarem de um palco para o outro.

Entre as apresentações que se destacaram na abertura do FIB, tivemos o Temples, bandinha nova inglesa que despeja rock chapado sem dó, com pinceladas psicodélicas e um talentoso vocalista e guitarrista. Já o La Roux teve bons momentos no palco principal, mas seu som se mostrou enjoativo e agudo demais ao longo do set. Em seguida, o Beach House celebrou uma missa indie-minimalista perfeita, com iluminação deslumbrante e seus integrantes sendo impecáveis em cada nota tocada. Logo depois, veio o todo poderoso Queens of the Stone Age. E aí, não teve erro. Com graves de tremer a jugular, Josh Homme enfileirou porrada atrás de porrada, parando para respirar somente na linda e nova “The Vampyre of Sound and Memory”. Misturando praticamente todos os hits com as novidades de 2013, o QOTSA provou porque é candidato sério ao posto de melhor banda de rock ao vivo do mundo, hoje.

QOTSA

Entre os quatro dias de festival, o segundo provavelmente foi o mais “fraco”. Mas ainda assim, deu pra pegar alguns bons shows, e o público começou a se empolgar quando Dizzee Rascal entrou em cena com sua academia ao ar livre, com doses energéticas de hip hop e pancadão “poperô”. Logo depois, em um palco perto dali, o Swim Deep tentou manter o hype em cima de seu nome. E não é que tenha fracassado, mas a banda dos meninos de Birmingham ainda precisa de muita estrada. Se sustentando em cima de um excelente single, “Honey”, o grupo não conseguiu segurar uma apresentação inteira, oscilando entre um The Kooks com menos ganchos e um Happy Mondays sóbrio.

O caminhão de bandas inglesas da noite foi alongado com a trinca formada por Beady Eye, Johnny Marr e Primal Scream. A primeira, visivelmente mais à vontade do que em sua passagem pelo Brasil, fez um bom show de rock com suas músicas autorais – mas viu o FIB inteiro ir abaixo com uma dupla matadora de canções do Oasis. “Rock n’ Roll Star”e “Morning Glory” catalizaram lembranças de tempos roqueiros inesquecíveis, principalmente para a grande massa inglesa presente em Benicàssim. A noite já estava ganha.

Beady Eye (3)

A energia corporal restante foi usada para celebrar The Smiths com Johnny Marr e entrar na onda chapada do Primal Scream, que misturou clássicos da era Screamadelica com novidades de seu novo disco, com destaque para o belo jogo de iluminação no palco.

O dia três do festival espanhol começou com boas apostas. Os ingleses do Childhood e do China Rats apresentaram músicas assoviáveis e boa presença de palco. Vale ficar de olho neles.

Miles Kane (4)

Já Miles Kane, queridinho da imprensa e do público britânico, continua achando que é “o cara”. Com pompa de rockstar, o músico conduz sua banda com técnica impecável, mas falta algo ali. Talvez menos pose – ou apenas músicas melhores e menos manjadas. Ninguém reclamou, no entanto – até porque a próxima atração valia qualquer esforço.

O Arctic Monkeys entrou em cena e reuniu provavelmente a maior plateia do Benicàssim 2013. Alex Turner e sua trupe não decepcionaram e entregaram um showzaço, com setlist balanceado, hits e novidades na medida certa, momento semi-acústico contemplativo (com “Cornerstone” e “Mardy Bum”) e um final arrebatador, com “When The Sun Goes Down” e “505” – essa, com participação de Miles Kane na guitarra. Uma apresentação que diz muito sobre a evolução em todos os sentidos dos uma vez tímidos moleques de Sheffield.

Arctic Monkeys (5)

Os joelhos e os pés já pediam arrego quando o Kaiser Chiefs subiu ao palco para enfileirar doses de indie hits dos anos 2000. Ainda deu tempo de pegar também uma fatia da apresentação bombada do Bastille, que reuniu, às 2 da manhã, uma multidão em um dos palcos alternativos do festival.

O resto do pique do fim de semana foi usado em meio a uma meia dúzia de ótimos shows. O último dia do Festival Internacional Benicàssim concentrou a maior quantidade de apresentações imperdíveis, entre velhos conhecidos e nomes dos quais todo mundo ainda irá ouvir falar bastante.

Deap Vally (7)

As pequenas grandes garotas californianas do Deap Vally começaram os trabalhos no palco principal enquanto o sol ainda torrava sem dó a careca e a pele do público. Barulheira de garagem movida a guitarra, bateria e vocais estridentes. Logo depois, o rock juvenil inglês do Palma Violets entrou em cena e provou que, pelo menos ao vivo, o grupo sobrevive ao hype. Assim como o queridinho folk do momento, Jake Bugg – que, com apenas 19 anos, segurou uma hora de apresentação com carisma e boas músicas, além de técnica refinada nos solos de guitarra e nos dedilhados de violão. No chão, a plateia cantava faixas como “Seen It All” e “Two Fingers” de braços abertos, entre goladas de cerveja.

Pausa para respirar. Ou espirrar, na verdade. No palco ao lado, o famoso Holi Festival se materializou em formato mini, deixando algumas centenas de pessoas coloridas por conta de pós que eram jogados para cima – e pro lado, pra frente, pra trás e pra baixo, também.

Holi

Num canto alternativo da arena, quem se destacava era Woodkid, que mostrou seus 50 tons de dramaticidade e composições épicas, em um palco tomado por nada menos que oito músicos de apoio. Quem não conhecia, gostou, e saiu curioso para procurar o disco de estreia do músico. Em seguida, a dupla inglesa AlunaGeorge tocou no lugar de Azealia Banks, que alegou uma dor de garganta como motivo para não subir ao palco. E cá entre nós, não fez falta, já que o duo londrino mandou bem. Com um esperado álbum de estreia prestes a ser lançado, Aluna Francis e George Reid encaixaram seus hits dançantes entre faixas fresquinhas do disco, deixando a performance redondinha e perfeita para quem ainda tinha energia para pular.

Não muito longe dali, o Black Rebel Motorcycle Club descarregava paredes de guitarras distorcidas e vocais chapados. O trio lavou a alma do main stage com riffs certeiros e cavalares, sincronizados com uma iluminação de palco de cair o queixo. Aquecimento mais que ideal para o rock de arena que o The Killers mostrou logo depois, em show semelhante ao visto no Lollapalooza brasileiro deste ano. Brandon Flowers levou a plateia na mão e provocou coros de arrepiar com os clássicos de sua banda.

Fibers (2)

E assim, chegou ao fim mais uma edição do festival espanhol. Apesar de ter estrutura pra lá de básica (por exemplo, não é nada prático nem rápido chegar ao local dos shows), o evento segurou a onda com apresentações pontuais e sons impecáveis em todos os palcos. Resta agora saber se teremos o FIB 2014. Os boatos sobre o futuro do festival não são nada otimistas, de acordo com a imprensa inglesa e espanhola. Uma pena. Torçamos para que esta não tenha sido uma despedida.

  • A Exigente

    performances, please!