Criolo - Convoque seu Buda

Criolo
Convoque seu Buda

Oloko Records

Lançamento: 03/11/14

 “A alma flutua, leite a criança quer beber
 Lázaro, alguém nos ajude a entender.”

A entrevista dada ao ator Lázaro Ramos poderia ter aprisionado Criolo no campo das citações indecifráveis. Em época de Twitter e Buzzfeed, o tempo até transformar-se em meme foi curto, quase instantâneo. Seria compreensível pensar que o receio em se tornar refém das próprias palavras, versando incompreensível a ninguém em particular, tenha passado pela cabeça do paulistano – ledo engano, ao que tudo indica. No espaço de um verso, transforma o gracejo em material de trabalho, e estabelecendo contexto, fala de enriquecimento “fácil” em tempos de internet, ironiza a elite festeira do país e arremata tudo com refrão em que bota em base de comparação um garoto num sinal qualquer de SP, com Tulipa Ruiz cantando a situação alegremente. Este é o retorno de Criolo, um artista que anunciou aposentadoria antes de ter chance de se ver ouvido por um público vasto. Pouco acaso e muito talento, entretanto, o trazem de volta aos ouvidos atentos de crítica e público. Em Convoque seu Buda, ele não desperdiça a chance de um pós-vida com gosto de recomeço.

Como já é de se imaginar, a retórica de Criolo não chega facilmente aos ouvidos: mistura histórias, cita escritores, cria crônicas de poucas linhas para em seguida estabelecer outro ponto de vista. No terceiro álbum da carreira, e segundo desde que abandonou a alcunha “Doido”, a criatividade ainda é parte do modo pouco linear com que o cantor se expressa. As misturas de referências e a rapidez com que despeja assuntos que se interligam por finos fios de um assunto sempre mais amplo são provável fruto das rinhas entre MCs que ajudou a estabelecer quase duas décadas atrás. O caldo de improbabilidades tem efeitos também nas sonoridades de Convoque seu Buda. Novamente, o rap vira base de criação para o flerte com outros gêneros: MPB, reggae, pop, samba e baião surgem ao longo do registro, novamente com produção de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Abre a faixa-título, dando dica de convocar quaisquer que sejam suas crenças na resolução de uma manifestação hipotética ou não. Conhecendo a São Paulo onde foi criado, expansão do Grajaú que ganhou proporção à medida que cresceu e tomou conhecimento dos muitos mundos que a cidade configura, e objeto de onde retirou a inspiração para a canção que lhe deu projeção nacional, não se admira quem encontra referências à cidade, ainda que não anunciadas ao longo do disco. É a partir delas que encontra temas comuns ao resto do país e é por meio de outras sonoridades que gera identificação com ouvintes de outras realidades. Assim, não estranha quem reconhece nos versos do samba “Fermento Pra Massa” as greves dos metrôs e ônibus de SP e uma correlação com o sistema de transporte público nacional, ou escuta a bela e melancólica “Casa de Papelão” sem enxergar o retrato sem rosto discernível dos habitantes da cracolândia que rumam sem destino de um ponto a outro da cidade, sendo sucessivamente expulsos de imóveis que fomentam a expansão imobiliária no centro.

A versatilidade na voz que pode explodir em rapidez de rimas para depois entoar monocórdio e afinado no refrão de “Esquiva da Esgrima” ainda gera surpresa e incentiva, sim, o adjetivo cantor. Particularmente na faixa, segue atulhando opiniões como os excessos de uma população consumista, ou a análise do reforço de uma crescente ideia da juventude pouco interessada por discursos sérios. Fecham as participações especiais do álbum o rapper Neto, do projeto Síntese, em “Plano de Voo”, e Juçara Marçal, dona do refrão de “Fio de Prumo (Padê Onã)”. Na primeira, Criolo não entrega um tema central, mas resvala em assuntos gerais, deixando gosto de existencialismo e ajudando a tornar mais claras as escolhas temáticas que mereceriam a atenção do rapper: basicamente tudo onde enxergue uma mínima incongruência, como entoa logo no início da faixa (E por mais que eu tente explicar, não consigo/De tornar concreto abstrato que só eu sinto/É como se eu ficasse aqui nesse cantinho/Vendo o mundo girar no erro abusivo); a segunda, provável melhor produção sonora do álbum, é conjunção de detalhes puxados da africanidade inerente aos projetos em que Juçara se vê envolvida. Convoque Seu Buda, aliás, é bem mais livre e expressivo na instrumentação que serve de base à voz de Criolo que seu anterior. Mais que usar a música de rua como via onde transite com tranquilidade, o paulistano escolhe tudo em seu lugar, mas, acima disso, sonoridades estritamente brasileiras: violinos, percussões, além da guitarra da figura repetida em vários dos mais interessantes álbuns nacionais de 2014, Kiko Dinucci.

Como a piada que deu origem ao furacão em que se viu envolvido, em seu disco novo, Criolo fala muito e de forma nada linear de muitas coisas. Não há presunção em suas analogias a Nietzsche, Sartre, Sabotage e tantos outros – até por que mistura o fino do que o brasileiro “intelectualizado” chamaria de cultura com referências tão pop quanto os ninjas do desenho Naruto. Entre os interesses de Criolo, tudo merece atenção, gera assunto e, portanto, pode virar música. A anarquia que compõem seu repertório não é falta de foco, mas importância ao todo. Dos segundos de uma flauta aos solos de guitarra, passando por seu discurso instável, ele só quer que você também preste atenção.

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