Racionais MC's - Cores & Valores

Racionais MC's
Cores & Valores

Cosa Nostra

Lançamento: 25/11/14

A idealização é capaz de modificar um produto. Cores & Valores, o mais recente e aguardado álbum dos Racionais MC’s, é prova disso. Passados doze anos desde o último registro de estúdio, uma (quase) revolta popular (que por falta de hino melhor acabou encontrando brado de inconformidade numa frase de Marcelo Falcão para uma peça publicitária), uma revolução no rap nacional (despontando diversos nomes em pleno processo de evolução) e, principalmente, mudanças nos pontos de vista e no apuro artístico dos próprios integrantes do grupo preencheram o hiato que separa a repaginada na própria imagem que o grupo  paulistano cria para si mesma de Nada como um Dia após o Outro Dia (2002).

Desde “Mil Faces de Um Homem Leal (Marighella)”, competente single que sinalizava um retorno às atividades dos Racionais, criou-se uma bolha de expectativa que dificilmente seria sanada pelas criações do grupo. Do ponto de vista mais óbvio de quem enxerga os paulistanos como uma voz que une por um único canal os pensamentos de uma classe por muitas décadas invisível, Cores & Valores há de decepcionar. Saem os longos sermões e relatos de Mano Brown sobre todos e ninguém em particular nas periferias do país e entra o tema central, que costura o disco todo como parte de uma única faixa de pouco mais de 30 minutos a intervalos constantes, com a voz de Brown avisando que não importa suas impressões ou o que possa ter mudado durante o distanciamento dos MCs – eles são o que são.

Apanhado de muitas ideias, com traço mais discernível de colaboração entre seus integrantes, o registro atual interliga faixas mais longas e de temas claros com vinhetas que estruturam o disco. O registro é uma espécie de mixtape, com impressões específicas de cada um de seus integrantes sobre temas como a avaliação do grupo sobre a ascensão do funk ostentação e a forma como o dinheiro chegou à favela sem necessariamente trazer com ele o reconhecimento da camada mais privilegiada da população (“Eu Compro”), a observação da mídia sobre o grupo (“A Praça”) e até sobre uma celebração do tempo de carreira na bela “O Mau e o Bem”, além de algumas observações sobre os abismos sociais e preconceito racial passados dez anos. Estes são o centro de discussão em 2014.

Com produção competente e musicalidade mais diversa que suas produções conduziram até o momento, é possível que os Racionais projetem seu nome também entre os apreciadores de um rap com mais movimento – influenciado pelo hip hop de artistas norte-americanos, mas também pelo balanço de nomes como Jorge Ben e até sonoridades mais calmas que poderiam levar ao centro da pista para dançar uma canção romântica. Quanto ao discurso, é impossível negar que se esperava maior aprofundamento em vários dos temas que tocam superficialmente, como a entrada da classe C no crédito e reconhecimento do pobre como alvo publicitário ao passo em que continua invisível como cidadão, ou até novos relatos de truculência policial em ações dentro da periferia.

É preciso se forçar à reflexão sobre a validade que teria um álbum longo onde versassem por horas sobre temas já cobertos quase que em totalidade, muito provavelmente não com a mesma assertividade – mas ainda assim – por nomes como Criolo e Emicida, levantando apenas os nomes mais evidentes nos últimos anos. O retorno dos Racionais, como sempre pareceu evidente, mesmo quando a possibilidade se via remota, não tem a ver com a reapresentação de um grupo que é linha de frente em crônicas sociais ou que aponta evidenciando o tratamento dado aos sem oportunidades como no clássico Sobrevivendo no Inferno (1997). Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay percebem que não são mais o único canal a projetar a voz do marginalizado aos trancos e barrancos para o resto do país, já que o rap atualmente já é tema recorrente em rádios e o funk já virou até abertura de novela.

Talvez entendam que o espaço do rap na cultura nacional, abraçado e reconhecido como gênero central da expressividade, não seja mais reduzido como na época em que surgiram forçando espaço na produção de periferia e invariavelmente tendo seu som vazado ao mainstream – e até ironicamente celebrado entre pessoas de classes mais abastadas no país. Forçar o Racionais a uma imagem pré-concebida de contraversão e de crônica do obscuro na certa não é a melhor maneira de esperar ser surpreendido por suas faixas; e assim, ao se negar em entregar o que o povo tanto anseia deles, atingem o objetivo de minar tais expectativas, aprontando novas intenções com um álbum mais dançante e ponte evidente com o flow dos anos 70.  Cores & Valores serve, então, como uma retomada à engrenagem que nunca morreu de fato. Pelo menos do ponto de vista dos fãs e dos inúmeros rappers que influenciaram como grupo ao longo de sua história, a criação de um álbum mais simples e leve que qualquer um de seus antecessores é forma de dizer que outros pontos de interesse serão parte da discussão daqui em diante para o grupo, além de abrir mais espaço para promoção de projetos individuais de cada um deles. Que a retomada à acidez e observação de temas das comunidades encontre mais espaço e profundidade em lançamentos futuros também.