Darkside - Psychic

Darkside
Psychic

Matador

Lançamento: 04/10/13

O Darkside é a colaboração entre o compositor de música eletrônica Nicolas Jaar e o multi-instrumentista Dave Harrington. Psychic é o primeiro álbum completo da dupla, que já havia lançado um EP em 2011, e é formado por oito faixas interessantes, digressivas, originais e difíceis de descrever com precisão: são uma espécie de krautrock visto através do prisma da eletrônica. Nele, há uma sensação de improviso e de espontaneidade que não se esperaria de um disco de música eletrônica, embora o cuidado com a produção e com a escolha de sons seja adequado a esse gênero de música. O fato de que a dupla não consegue consolidar essa sonoridade em faixas mais contundentes e emocionantes é uma falha do álbum, que, por outro lado, não deixa de ser uma audição bastante original e inusitada.

O disco começa com “Golden Arrow”, uma bela viagem de onze minutos que cria o clima de exploração sonora e economia de meios que permanece por todo o disco. Seus cinco primeiros minutos são uma meditação quase ambient com sintetizadores tocando notas longas por cima de uma batida subaquática, que finalmente ganha mais proeminência após esse período. Aos sete minutos, entra uma voz aguda e estranhamente processada, e o arranjo continua a crescer (embora nunca se torne grande demais) até o fim, de uma forma orgânica que denota, em Jaar, uma sensibilidade nem sempre encontrada em compositores de música eletrônica.

Mesmo as faixas mais concisas retém a sensação de crescimento, exploração e digressão das mais longas. “Heart” é a que mais se assemelha a uma canção pop no disco, mas mesmo nela é difícil perceber com clareza as mudanças de uma seção para outras, ou destacar alguma parte como sendo o “refrão”. Talvez o maior ponto focal da música seja o ótimo riff da guitarra de Harrington, cujo som limpo aparece diversas vezes no disco, sempre com ótimos resultados. Às vezes ele faz lembrar o Mark Knopfler, do Dire Straits, com linhas bem próximas do blues: um desses momentos é “Paper Trail”, uma curiosa faixa com vocais estranhamente graves e um ritmo meio reggae, que é elevada a um outro nível graças às intervenções precisas e suingadas de suas seis cordas. Em outros momentos, ele remete aos guitarristas icônicos do krautrock, como Michael Karoli (do Can) e Manuel Gottsching – especialmente durante a levada funkeada e psicodélica na metade da “The Only Shrine I’ve Seen”, uma jam de sete minutos que também é a faixa mais dançante do disco.

Como se não bastassem todos os estilos diferentes de música que a dupla aciona ao longo do álbum, algumas faixas da segunda metade também têm um clima de trip-hop do começo dos anos 1990. Os sintetizadores pulsantes da “Freak, Go Home” lembram algumas produções do Massive Attack, e a faixa que encerra o disco, a bela “Metatron”, com seu andamento lento e batida minimalista, traz à mente “Exchange”, do antológico album Mezzanine, desse mesmo grupo – mas conta também com ótimas melodias da guitarra de Harrington, que parece ter entrado em modo David Gilmour para gravar essa faixa. Não é de todo descabido ver um pouco de influência do trip-hop também na melancólica e curtinha “Greek Light”, cuja sonoridade lembra as faixas mais silenciosas do último disco do Telefon Tel Aviv.

Dialogando com essa montanha de ótimas referências, a dupla consegue fazer um álbum absolutamente autêntico e sui generis. Apesar disso, é difícil pinçar dele uma faixa específica que agrupe as principais qualidades do grupo de forma impactante: o disco segue em frente sem grandes problemas, ou destaques, e essa é a sua principal fraqueza. É muito mais pela sonoridade original da dupla que por ter boas faixas que o disco se torna legal de ouvir, e é melhor percebê-lo como uma longa viagem de 45 minutos do que como um conjunto de oito faixas. A forma como as músicas estão sequenciadas, com cada uma ligando na próxima sem interrupções, formando duas metades de duração quase igual, parece indicar que essa era, de fato, a intenção de Jaar e de Harrington ao compor Psychic. Se no próximo disco o Darkside conseguir manter essa sonoridade original e sintetizar suas forças em faixas mais surpreendentes, será uma delícia de ouvir.

Leia também