David Bowie - The Next Day

David Bowie
The Next Day

Columbia

Lançamento: 08/03/13

Por Victor Bianchin

Envelhecer é uma merda. E não é só por causa das rugas, da falta de memória, das pelancas, do cabelo rarefeito, dos remédios, da dor nas costas, da dentadura, da bengala, das aulas de terapia ocupacional e de tudo mais que circunda o universo dos velhos. Isso faz parte da vida. A pior parte de envelhecer é se tornar irrelevante.

Hoje em dia, culturalmente, ser velho é ter opiniões e conceitos ultrapassados e desimportantes, motivo pelo qual os velhos não são o centro de nada. A geração atual, que possui uma necessidade crônica de ser vista e ouvida o tempo todo com seus Instagrams e Twitters da vida, irá sofrer especialmente com essa condição daqui a alguns anos.

E por que isso? Veja bem, lá no final dos anos 50, quando a indústria do entretenimento começava a se moldar no que teríamos hoje, os publicitários perceberam que procurar mercados mais jovens rendia mais dinheiro: além de menos exigentes, os jovens também poderiam ser fidelizados e continuarem comprando os produtos por décadas a fio. Isso virou uma tendência não só para a indústria e os serviços, mas para a arte também. E, de repente, em questão de anos, maturidade e experiência já não eram qualidades apreciadas ou necessárias. E os nossos velhos se tornaram irrelevantes.

No mundo da música pop, que se formou em volta dessa cultura, a velhice sempre foi uma fase difícil de encarar. Há os que a negam desesperadamente (Madonna) e os que a assumem com bom humor (Leonard Cohen), mas não há ninguém que se refestele nela. Afinal, quem possui o desejo de ficar velho e se tornar desimportante?

Tudo isso tem muito a ver com o David Bowie de The Next Day. Bowie foi uma pessoa que soube enxergar o passar das eras como ninguém: foi mod, hippie, glam, alien, boêmio, new romantic e tudo mais. Sempre um passo à frente do seu tempo. Nos anos 90, falhou de forma notável pela primeira vez: lançou Earthling, um disco de drum and bass, acreditando que esse era o futuro da música eletrônica. Enquanto isso, os Chemical Brothers lançavam Dig Your Own Hole e o Prodigy, The Fat Of The Land, dois álbuns revolucionários para o gênero. Havia demorado quase três décadas, mas Bowie finalmente havia sido ultrapassado.

Depois disso, Bowie se reinventou como… velho. Seus discos posteriores, Hours… (1999), Heathen (2002) e Reality (2003) são mais leves e acessíveis, muito mais próximos do horrível rótulo de “dad rock”. Em uma entrevista para promover Heathen, Bowie disse: “Tem uma certa idade que você atinge em que você não aparecerá mais. O jovem tem que matar o velho. (…) É assim que a vida funciona”.  E foi isso: as novas gerações se encantavam com os Backstreet Boys, o Westlife e os Jonas Brothers, e Bowie havia virado só mais um músico velho para elas. Uma camiseta bonita para pagar de hipster nas baladas.

Quando The Next Day foi anunciado após um afastamento de dez anos, porém, a mídia e o público receberam a notícia como se fosse a segunda vinda de Cristo. “Bowie está voltando! O produtor é o mesmo de Heroes! Parece que tem uma música que podia estar em Ziggy Stardust!” Foi tanto confete que parecia que existia um vácuo enorme no mundo da música, uma carência patológica por um ídolo de calibre. Mas não havia. Ídolos não faltam nos dias hoje.

Mas falta boa música. Será que era isso então? Ajoelhamos perante Bowie porque precisávamos ouvir algo decente, pra variar? Mentira: a “falta” é só na grande mídia. Os guetos internéticos estão cheio de boas bandas por aí. Questão de procurar. E quem não procura, é porque não sente falta, então não deveria reclamar.

Então por que, afinal, Bowie não saiu das manchetes? É simples: nosso vício no culto fácil. Paul McCartney, por exemplo, vive lançando álbuns e fazendo turnê, é um velho difícil de acompanhar. Mas Bowie tinha nos feito o favor de sumir e nos deixar com o mistério. Nós adoramos o mistério e a chance de poder idolatrar alguém que representa algo especial, inacessível. É verdade que Bowie tem aí quase 50 anos de carreira nas costas, mas sua reclusão voluntária foi meio que um passe livre para ignorá-la: ele não liga mais pra sua música, nós não precisamos ligar também. Só precisamos colocar nossas camisetas do rosto com o raio e dançar “Rebel Rebel” na balada e pronto, já somos bowiezistas desde criancinhas.

Ao parar de jogar o jogo da mídia, Bowie esvaziou sua própria importância. Talvez tenha sido de propósito, ou talvez ele realmente só quisesse descansar, mas o fato é que, nesse tempo, seu legado foi remoído, remodelado e picotado até ficar ao gosto das massas. Assim como Che Guevara passou de revolucionário comunista a uma criatura reproduzida em massa em camisetas de R$ 19,90, Bowie passou de ícone da música a apenas ícone. Seu legado agora é sua figura no imaginário popular. Seu legado agora cabe em 140 caracteres.

O resultado é que, agora que The Next Day saiu, fala-se muito menos do álbum. E assim será, progressivamente. Podem ter certeza: o disco estará em todas as listas dos melhores do ano de 2013, mas vai dar para contar nos dedos seus conhecidos que ouviram todas as 14 faixas mais de uma vez. Não importa o álbum, importa o fenômeno.

E é uma pena, porque The Next Day é fantástico. Soa, de verdade, como uma continuação dos últimos álbuns do cantor, então não vai mudar o estado da música e nem nada, mas esse, é claro, nunca foi o ponto para nenhum dos envolvidos. (Aliás, se quiser um bom drinking game, junte todos os reviews do disco e beba toda vez que alguém disser que “o álbum não é tão bom quanto Ziggy Stardust ou Heroes, mas seria um absurdo esperar isso”).

A primeira faixa divulgada, “Where Are We Now?”, é morosa e depressiva – chatinha, até. O resto do álbum é mais agitado: a melódica “Valentine’s Day” é um pop meio oitentista, estilo Pretenders, talvez a faixa mais simpática do disco. “The Stars (Are Out Tonight)”, o segundo single, é um cruzamento entre o Cure e Morrissey, mas com os riffs de guitarra que Bowie tem inserido com carinho nos seus últimos trabalhos.

“The Next Day”, em termos de melodia, poderia ter saído da mente de Damon Albarn nos primeiros álbuns do Blur. Mas a letra é puro Bowie: “Here I am, not quite dying, my body left to rot in a hollow tree”, ele repete, sem rancor, mas com uma mordacidade escancarada. O tema da morte volta em “You Feel So Lonely You Could Die”, mas desta vez Bowie está se dirigindo a outra pessoa. Com crueldade, ele joga na cara dela seus defeitos e anuncia: “Oblivion shall own you, death alone shall love you, I hope you feel so lonely you could die”.

“I’d Rather Be High”, uma faixa com um discurso antiguerra, envolve o ouvinte com um riff psicodélico que espirala e abraça a voz anasalada de Bowie até que tudo transcende a música e vira uma vibração corporal, um transe. Você vai preferir estar alto também.

“(You Will) Set The World On Fire” é a melhor surpresa do álbum. Os versos são puro Jack White, com apenas bateria e riffs trovejantes de guitarra acompanhando a voz. Aí chegam os refrões, que lembram Franz Ferdinand. Se fosse lançada por uma banda indie jovenzinha, já estaria escalando posições nas paradas.

“Dancing Out In Space” começa com uma bateria animadinha e parece que vai virar uma música da Generation X ou similares, mas vira um doo-wop cheio de camadas. Há a voz de Bowie por cima, um baixo encorpado por trás, um piano, um sintetizador, backing vocals e o riff de gaita no fundo. No fade out, os backings ficam mais fantasmagóricos, surgem violinos e o piano fica mais dramático. É uma mistura meio cósmica que funciona bem. Faz um bom par com “How Does The Grass Grow?”, outra faixa viajante pontuada pela bateria.

Há momentos menos interessantes, como o jazz cansativo de “Dirty Boys” ou a experimentação eletrônica inócua de “If You Can See Me”. O encerramento do álbum é com uma daquelas baladas reflexivas que Bowie tanto gosta, “Heat”, mas que adiciona pouco ao que veio antes.

Bowie está velho, e nada que ele faça ou lance irá mudar o fato de que, hoje, a juventude-que-pode-mudar-o-mundo prefere ouvir One Direction a “Rock ‘n’ Roll Suicide”. E os errados somos nós, você e eu, que desejamos tanto que seja diferente. Que queremos que o disco estoure de vender, que todo mundo descubra como Bowie é genial e que a MTV cancele seus reality shows para passar os clipes dele.

Isso não vai acontecer. Quem tem que mudar o mundo é a nossa geração e as próximas, não David Bowie. Envelhecer pode ser uma merda, mas o fato é que Bowie é um velho que sabe lidar com isso. Sorte de quem está envelhecendo com (e como) ele.

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  • Alex

    Melhor texto que leio aqui em meses!

  • El Sena

    Muito pertinente.

  • véia ranzinza

    se algum jovem curti The Doors, ficamos enciumados!
    se amam The Killers, pensamos: “pena desse povo que perdeu as melhores bandas da vida!”
    como lidar???

  • Monique

    Porra, como eu tambem estou ficando velha nem lembro qto tempo faz que não leio a resenha de um disco, porque não tem mesmo valido a pena.
    Mas isso aqui ficou demais, adorei, já queria esses disco em vinil, agora tenho certeza!