David Bowie – Toy

“O buzz não dura muito hoje em dia. Se Bowie tivesse começado alguns anos atrás, já teríamos parado de falar dele”, disse a NME em um review recente de outra banda. Mas o fato é que, quase cinquenta anos após ele começar sua carreira e sete após ele sumir dos olhos da mídia, continuamos falando de David Bowie. E muito. Só neste começo de 2011, Bowie já foi tema de música dos Flaming Lips com o Neon Indian, já teve suas músicas remixadas para um projeto com o filme 2001: Uma Odisséia No Espaço, já foi vítima de um anúncio falso de disco ao vivo e já foi alvo de rumores de que teria escrito com um filme com Mick Jagger. Isso sem falar no vazamento de Toy, álbum que foi gravado e engavetado em 2001. Mesmo escondido, a música ainda o procura, e continuamos falando de David Bowie.

Toy, uma coleção de regravações de faixas dos primeiros anos de Bowie (juntadas com quatro novas) é uma surpresa por dois motivos. O primeiro é que Bowie nunca viveu de passado. Alguém que fez pelo menos sete álbuns clássicos só na década de 1970 poderia passar tranquilamente o resto da vida só fazendo turnês de megahits, mas Bowie manteve-se gravando até 2003, e sempre tocando muito material novo nos shows. O segundo é que, de tudo que Bowie poderia regravar, a fase que ele escolheu é a que ele mesmo e 99% dos críticos consideram como seu período mais fraco e dispensável.

Então é isso aí: Bowie deu um tapa na cara de todo mundo resgatando um passado que ele mesmo já tinha enterrado décadas atrás. Foi uma atitude bastante ousada que, devido ao arquivamento do álbum por problemas com a gravadora, acabou passando meio batida.

A cereja no bolo é que o disco é bom, muito bom. Bowie não teve a menor parcimônia em alterar completamente os arranjos e melodias de músicas que, no passado, já eram muito boas. E deu certo.

“Liza Jane”, o primeiríssimo single de Bowie, que no original era um sensacional doo-wop fortemente inspirado pelos Beatles (dá até para pensar que era o John Lennon cantando) e que o próprio Bowie uma vez classificou como “absolutamente horroroso”, ganhou uma roupagem soul, com gaitinha no fundo, baixo de jazz e uma guitarra no pedal wah-wah marcando presença.

“I Dig Everything”, um r&b com flauta e solo de bongôs, virou um rock de arena que flerta com o power pop, com direito a coro feminino e riff pesado de guitarra. “Baby Loves That Way”, outra música que pegava bastante da primeira fase dos Beatles e que tinha um refrão grudento, ficou bem mais lenta e ganhou um riffzinho de piano que fica martelando durante a música. Fica com jeitão de música de Natal.


“Let Me Sleep Beside You”, originalmente um folk com uma pegada meia dylanesca e com um riff de baixo marcante, agora ganha mais pegada, esconde o baixo debaixo de guitarras e fica parecida com alguma faixa recente de Paul McCartney. “You Got a Habit of Leaving” antes era um rockinho que bebia diretamente na fonte dos Kinks, e na nova versão, é um rock noventista que termina com dois minutos de instrumental crescendo até a explosão final.

Deu para sacar? Bowie subverte as próprias músicas: acelera onde era lento, deixa agudo o que era grave, troca os instrumentos em destaque. Nem todas as músicas são inversões das antigas, mas todas são transformações que mostram um domínio completo de Bowie sobre seu trabalho. Sem tropeços, ele conseguiu fazer duas versões ótimas das mesmas músicas com quarenta anos de diferença. Enquanto isso, muita gente por aí tenta desesperadamente acertar a mão em um singlezinho que seja.

Para completar, há o fato de que as quatro inéditas que completam o álbum são incrivelmente boas. Todas são herdeiras do estilo mais classic rock que Bowie assumiu em Heathen, aclamado álbum de 2002. Enquanto “Uncle Floyd” e “Toy (Your Turn To Drive)” são baladas com forte apelo instrumental, “Hole In The Ground” traz um clima oitentista e “Afraid” é uma pedrada que traz o camaleão no topo de sua forma. Bowie canta devagar sobre um instrumental rápido, ilustrando à sua forma a letra que fala sobre o medo da velhice. Não tivesse já sido aproveitada em Heathen, concorreria fácil ao posto de música do ano.

É curioso notar como Toy, um álbum de 2001 com músicas da década de 60, soe tão bem em 2011. É a prova de que, embora não se façam mais gênios como antigamente, os gênios de então ainda se garantem, muito obrigado. Continuamos falando de Bowie porque ele continua relevante e porque nos dá mais sobre o que falar do que nossos contemporâneos. Continuamos falando de Bowie porque ainda precisamos dele.

  • Renata Barros

    Quem não tem o que dizer.. reclama…básico!!
    Básico mesmo é o som deste artista completissimo ser sempre excelente.. isso deve matar a concorrência de inveja… eu morro de rir.. e morro de curtir!!! Amo DB!!!