27 fev 2011

David Byrne e a questão da beleza

Por  @15:26

O texto a seguir relata o contato de David Byrne com o artista/designer Stefan Sagmeister, em Berlim, durante  um jantar com Matthias Arndt, um galerista local. Em um certo momento, surge uma conversa pra lá de maluca (e construtiva), que, mesmo não tendo muito a ver com ciclismo, é uma das passagens mais interessantes do livro Diários De Bicicleta – em que o talking head David Byrne compartilha conosco suas visões e interpretações do mundo, enquanto passeia de bicicleta por diversas cidades do planeta.

Espero que gostem tanto quanto eu:

O problema da beleza

Matthias menciona um jovem pintor formado em Leipzig que agora está fazendo muito sucesso – um artista que ele preferiu não agenciar alguns anos atrás. Na época, ele achou que as pinturas era “bonitas demais”. Ele me explica que tem alguns problemas com a beleza – e sabe que esse preconceito nem sempre age em seu favor. Stefan cita o falecido Tibor Kalman – o designer para quem trabalhava e que também já trabalhou comigo muitas vezes – que costumava dizer: “Não tenho nada contra a beleza, mas ela não é muito interessante”.
Matthias diz que a beleza, por ser efêmera, frágil e inconstante, nos lembra a morte. Eu nunca teria feito esse tipo de conexão – isso me parece romântico demais, como os poemas de Rilke, mas entendo o que ele quer dizer. A morbidez da beleza. Hum. Acho que tratando-se de pessoas – um homem ou uma mulher de incrível beleza – isso me parece verdadeiro, já que essa beleza tende inevitavelmente a se exaurir até algum dia desaparecer por completo. Então, por esse prisma, folhear uma revista de moda é em essência, uma experiência trágica e melancólica. Bom, e pode ser mesmo, mas por outros motivos. Mas e as pessoas que envelhencem com dignidade – que com o passar dos anos ficam mais interessantes ou mais bonitas de um jeito menos tradicional? Para Matthias, uma visita ao Louvre seria deprimente. Muitas vezes, penso na beleza de uma música (algo que desaparece assim que você acaba de ouvir), da imagem efêmera de uma paisagem que irá se renovar (esperamos nós) ou de alguns tipos de objetos que às vezes ficam ainda mais bonitos conforme envelhecem e começam a mostrar sinais de uso e desgaste. Minha amiga C diz que o mesmo acontece com as pessoas – algumas delas demonstram o crescimento em suas feições, tendo um rosto muito infantil quando jovens, por exemplo, sem serem muito interessantes, mas que se firmam melhor como si mesmas assim que começam a mostrar mais idade. Elas não são muito bonitas quando jovens, não profundamente, pelo menos.
Algumas pessoas acham difícil definir a beleza – muitas vezes, as coisas que a princípio achamos feias ou estranhas acabam nos conquistando e descobrimos uma dimensão e uma beleza que podem ser muito mais profundas do que um mero encanto. A definição de beleza é complexa, incostante e muda conforme o tempo. Ela não é absoluta, não pode ser determinada. Se isso for verdade, ninguém pode olhar para alguma coisa ou pessoa e dizer inequivocamente: “É belo”.
Em uma tentativa de defender a noção de um tipo absoluto de beleza, eu li que existem motivos evolucionários e biológicos que explicam nossos critérios para definir a beleza física das pessoas. Nascemos com preferências visuais inatas que tanto as pessoas como os animais usam para julgar a atratividade e a boa forma. Estudos indicam que a simetria, por exemplo, é evidência de um bom desenvolvimento fisiológico – ou seja, que feições faciais simétricas sinalizam uma maior chance de genes mais saudáveis e vigorosos. A implicação inerente nessa teoria é  que nós podemos estar biologicamente programados para identificar certas coisas – bem como pessoas – bonitas. A outra implicação é que nós achamos essas pessoas bonitas na verdade por elas serem adequadas e desejáveis como parceiro reprodutivos. Nós a vemos como bonitas, mas estamos pensando em outra coisa.
Suspeito que se essa teoria for verdadeira, isso poderia se estender também a outras áreas estéticas – paisagens e decorações, por exemplo. Por que não? Afinal, algumas paisagens, com seu ambiente tão particular e único, não teriam motivado algum tipo de critério atemporal que serviu de indício para os nossos ancestrais de que ali seria um bom lugar para se viver, caçar, cultivar alimentos e conhecer um parceiro?
O rumo da conversa desvia em certo sentido para o antônimo da beleza – (…)

A partir daqui fica por conta de vocês. No mais, leiam Diários De Bicicleta, de David Byrne.

Existem 2 comentários sobre este post.

Comentários

Marcos Azambuja 28 fev 2011

Li esse livro na edição anterior, ano passado – talvez até a editora fosse outra. Ótimo!

Sobre a beleza, acho que esse ponto de vista explica muita coisa: porque gostamos de pedais de distorção (eu gosto, mas será que é “belo”?), porque os filmes e livros de terror atraem tanta gente (antes dos filmes foi a literatura romântica do séc XIX), porque nos comovemos/interessamos diante de fotos bem tiradas de mendigos, gente suja e esfarrapada… “É triste, mas é bonito….” Como assim, triste e bonito? E como seria o total oposto alegre e feio?

Aaaah…

Milla Pupo 28 fev 2011

hum, beleza é puro de ponto de vista e o meu quase nunca bate com os mais comuns ahaha

acho que ser belo limita, acho pouco.

adorei o texto e continuo com vontade de ler o livro ;)

beijo!