Dean Blunt - The Redeemer

Dean Blunt
The Redeemer

Lançamento:

“As pessoas se perguntam por que nada é interessante: é porque elas tentam encontrar uma resposta para isso, para tudo. Existem coisas que você não consegue articular. Há esta “coisa” no mundo – a música tem isso, todo tipo de arte tem isso. E as pessoas falando sobre isso podem destruí-la.”.

Dean Blunt em entrevista para o Guardian, 2011

The Redeemer, o segundo álbum de Dean Blunt (uma metade do extinto Hype Williams) pode ser definido em três palavras: ressaca, alienação e êxtase. Críticos se referem a este trabalho como sendo um álbum conceitual sobre fim de um relacionamento. Eu já o vejo como o pós-término: a separação já foi feita, há uma distância de tempo e espaço significante entre o passado (começo e término do affair) e o presente; mas, ainda assim, as lembranças persistem. Na faixa “Papi”, o tempo transcorre bem na nossa frente, através de uma gravação da contagem para o ano novo seguida do “GONG GONG GONG” do Big Ben na faixa “MMIX”.

Dean Blunt utiliza a psicodelia para desorientar em vez de atingir o êxtase, assim como o dream pop degenerado do A.R. Kane. Na faixa-título, com a participação de Inga Copland (outra parte do Hype Williams), Dean fala da exaustação de morar na cidade e a necessidade de exílio. Os últimos segundos na música indicam que a fuga foi bem sucedida e tudo que se ouve são as ondas do mar gentilmente quebrando na costa. A presença e a falta de contexto se deve ao uso de colagens de “found sounds”: como correio de voz, estilhaços de vidro, sirenes e alarme de carros. Na segunda parte do disco, a melancolia toma conta. Estão presentes sons mais suaves que poderiam ser classificados como easy listening, ou aquela seção de exotica na FNAC que ninguém frequenta: ouvimos as ondas quebrando, gaivotas na praia, som de chuva na janela.

Não é um trabalho rico em termos de poesia ou prosa. Afinal, a característica marcante da melancolia é a dificuldade do sujeito em dizer o que está acontecendo internamente. A abundância de melodias é a poesia por si só. O discurso do abandono de Dean é permeado de clichês, mas não tira o peso de que a dor que ele está sentindo é genuína (“The Pedigree”, “Demon”, “Make It Official”, “Need 2 Let U Go”, “Brutal”). Uma das composições mais bonitas que já ouvi, “Imperial Gold” ecoa a fragilidade pseudo-infantil do Beat Happening – a voz de Dean é muito similar com a de Calvin Johnson. Trata-se da procura de um lar e da promessa que bons tempos talvez venham.

Dean não diz o que está acontecendo com ele exatamente, mas da forma que o disco é constituído, a escolha de sons e instrumentos nos ajuda a tentar entender no que ele está pensando. Eu até diria que o simbolismo está contido na falta de um. Na mistura de Die Tödliche Doris e Arthur Russell que é “Need 2 Let U Go”, Dean demonstra-se confuso, vulnerável, tudo sem “razão” aparente.

Em tempos pós-modernos, estamos empanturrados de significado. Signos, significantes, sinais. Mídia overload. Consumismo desenfreado e depressão hedonista. Temos #YOLO #SWAG. A morte do Romance, a morte do Autor e até a morte da autenticidade já foi declarada. Ainda assim a procura de significado em tudo é constante.  “The Redeemer” é um triunfo da forma sobre conteúdo.  Traz redenção para aqueles que se veem obrigados a continuar fingindo que está tudo bem, quando não está. É mandar o “Keep Calm and Carry On” para as cucuias.

“Era tudo lindo e nada doía” – Kurt Vonnegut

Leia também