Deap Vally - Sistrionix

Deap Vally
Sistrionix

Island

Lançamento: 28/06/13

Não faltam duplas no cenário musical de hoje em dia. Desde que Jack White e sua ex-esposa Meg resolveram mostrar ao mundo que não era preciso ter muita gente tocando pra fazer um som legal, bandas de duas pessoas pipocam por todos os lados, muitas vezes com bastante sucesso (vide os próprios White Stripes e os Black Keys, além de Matt & Kim, Death From Above 1979, enfim). É pra esse time que entra o Deap Vally, grupo formado pelas barulhentas Lindsey Troy e Julie Edwards.

Um dos maiores riscos que as duplas enfrentam é que sua exígua formação soe vazia e solitária. Desse risco o Deap Vally passa longe. As duas californianas exalam uma energia crua e selvagem que poucas bandas maiores conseguem igualar. O som delas poderia ser descrito como o Sleigh Bells tocando covers dos Black Keys, ou ainda como um blues feminista tocado numa guitarra ligada a um amplificador do tamanho de um prédio. Guitarrista e cantora, Troy é o centro do disco: ela acompanha seus próprios riffs com uma voz potente, capaz tanto de ser imperativa e intimidante quanto de ser delicada. Em faixas como “Baby I Call Hell” e “Lies”, ela parece ser a irmã mais nova e rebelde da Joss Stone, que matou metade das aulas de canto pra ficar tirando músicas do AC/DC na guitarra (mas mandou bem na metade das aulas em que foi): a melodia do refrão da segunda delas lembra bastante a de “Fell In Love With a Boy”, de Joss. Edwards, por sua vez, também não deixa barato: sua bateria tem um som adequadamente gigante, e não falta pegada em suas levadas.

Mais interessante, porém, é o resultado da soma das duas: canções curtinhas e rápidas que geralmente compensam uma certa rudeza e falta de polimento em sua construção com empolgação e entusiasmo. A “End of the World”, que abre o disco, parece querer ser um hino sobre paz e amor com seu clima grandioso – e consegue até certo ponto, mas, por ser um pouco mais longa do que deveria, quase deixa a peteca cair logo no começo do disco. Felizmente, ela é seguida por uma série de faixas mais breves e bombásticas que resgatam rapidinho a atenção do ouvinte. As ótimas paradinhas de “Gonna Make My Own Money” são alguns dos momentos em que a dupla consegue empregar sua energia imensa numa faixa de elaboração mais cuidadosa, e o resultado é estarrecedoramente bom. Algo semelhante acontece na seguinte, “Creeplife”, em cuja letra Troy alopra os tiozões safados que só querem pegar menininhas.

A segunda metade do álbum, cujas faixas são um pouquinho mais compridas, não é tão boa quanto a primeira: nas canções mais longas, dá tempo de enxergar através da névoa de excitação da dupla e ver que elas não são tão boas assim em concatenar partes diferentes das músicas de formas interessantes, ou em criar detalhes legais no meio das faixas. O que não impede que se aprecie o ótimo refrão e o groove devastador de bateria de “Women Of Intention”, ou os riffs excelentes de “Raw Material”, que tem uma bela letra sobre empoderamento feminino. Em geral, porém, a sonoridade se adequa melhor a doses pequenas e intensas.

Portanto, “Six Feet Under”, a faixa final, com nove minutos de duração, não deveria ser grande coisa. Mas é. Um blues arrastadão, de ritmo pesado e quase fúnebre (que lembra “Dazed and Confused”, do Led Zeppelin), ela chama a atenção por ser bem diferente de tudo que veio antes. Lá pelos seis minutos, a guitarra some e as duas moças ficam cantando juntas uma canção, com apenas uma pandeirola para acompanhá-las. Nada do que veio antes no álbum podia indicar um final desses, e mesmo que a musiquinha do final não seja a coisa mais legal do mundo, ela fecha o disco com uma ótima surpresa.

Seria muito legal ver, nos próximos discos, Troy e Edwards refinando suas técnicas de composição e conseguindo fazer faixas igualmente enérgicas, mas mais detalhadas e elaboradas. A empolgação das duas se beneficiaria bastante se fosse temperada com um pouco mais de ponderação. Felizmente, porém, essa falta de cuidado não atrapalha o brilho ofuscante que o som da dupla libera aqui. Sistrionix é um ótimo álbum de estreia, que impede que o Deap Vally se dilua no imenso oceano de duplas de rock que existe atualmente.

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  • 0nipresente do Weekend

    São belas sim!
    White Stripes genérico!!
    Não adianta: nenhuma dupla supera aquela do Jack e Magg!!!

  • Ejaculador

    Se vc for indie, vai achar White Stripes o máximo e essa banda muito genérica.

    Se vc for mais amplo, vai achar White Stripes um Led Zeppelin atrasado e lo-fi e essa banda muito mais encorpada.

    Essa banda aí está numa linha muito mais Black Keys do que White Stripes. Elas não se prestam a um som indie, mas rock clássico. Existe este limiar. Não confundam (falando não pro resenhista, mas pro comment acima). Há uma diferença entre querer ser modernete e retrô-zete.

    Quem vai escutá-las não é o pessoal do indie (que nem curte mulher com pouca roupa como elas). O apelo delas é pro pessoal do classic rock e metaleiros.

    Concordo com a resenha e qualificação. Dou nota 8 também e considero dos discos mais divertidos do ano. Não muda o cenário e nem avança a música, mas traz meninas gostosas pro rock e tira pelo menos 2 de tentarem ser Rihannas e Gagas da vida. O rock agradece. Existe um limbo nisso depois que o Riot Girl 90 acabou. Nem o Le Tigre está mais no cenário.

  • Pingback: Deap Vally – Sistrionix (2013) | O Sonzário()

  • 0nipresente do Weekend

    ….pensei que fosse um site democrático, pero ñ pedirei desculpas pela minha opinião!

  • Banda fudida essa.Eu acho,voltando a questão,que alguns riffs são dos White Stripes e outros do Black Keys,mas é a escola blues rock do mesmo jeito.E são gostosas e fazem questão de ser,isso eu acho muito foda.Tocam muito.Um dos discos do ano.