Death Grips - Bottomless Pit

Death Grips
Bottomless Pit

Third Worlds, Harvest

Lançamento: 06/05/2016

Lançar um disco menos de um ano depois de a banda “acabar”, é pouco perto de outras doideras que o Death Grips já fez (que incluem lançar um single via número de telefone e marcar shows e não aparecer). Logo de cara, porém, Bottomless Pit já mostra que eles mudaram muito pouco sua postura agressivamente experimental e ruidosa. As batidas violentas de Zach Hill, os barulhos estranhos do produtor Andy Doran e o rap gritado exasperante de MC Ride continuam tão hostis e empolgantes quanto antes. E por mais que falte a esse novo trabalho o mesmo nível de experimentação formal que marcou seus antecessores, ele ainda mostra o trio em sua melhor forma.

O começo de Bottomless Pit está entre os momentos mais inescrupulosamente pesados da discografia da banda. “Giving Bad People Good Ideas” é pouco mais que um blastbeat de Zach Hill enquanto MC Ride grita por cima de guitarras de uma fina linha melódica de sintetizador. “Hot Head” começa ainda mais agressiva, com Ride gritando baboseiras e uma batida que traz à mente o som que resultaria caso uma bateria fosse jogada num liquidificador. Algum tempo depois, no entanto, ela entra nos eixos e mostra até mesmo uma espécie de refrão grudento. Vencida essa barreira sônica das primeiras duas músicas, o álbum se torna mais acessível.

A lista de músicas já sugere que esse é um trabalho mais simples do Death Grips – são treze faixas com duações entre 2 e 5 minutos – e isso fica evidente ao longo do disco. Faixas como as excelentes “Ring a Bell”, “Spikes” e “Eh” trazem a mesma agressividade pela qual o trio se fez famoso, mas formatada em composições diretas, com refrões claros e melodias memoráveis de uma maneira que a banda não fazia desde faixas como “Hustle Bones” e “I’ve Seen Footage” de seu álbum de estreia. Há também, como não poderia deixar de ser, as composições mais indiretas e mais focadas em experimentações sonoras, cujo sucesso varia. “Warping”, com seus graves lamacentos e andamento lento, consegue transmitir uma sensação de torpor e peso extremamente impactante. “Houdini”, por outro lado, apesar de sua batida matadora, passa toda sua duração sem sair muito do lugar.

“BB Poison”, embora fique numa situação semelhante, reforça dois pontos bastante positivos do álbum. Um deles é a presença da guitarra. Seja como textura, seja como melodia, um som distorcido de guitarra (ou um som sintético muito parecido) aparece com frequência no disco, mais ainda que em outros trabalhos do grupo. “BB Poison” e “Ring a Bell” a utilizam como gancho melódico, enquanto que a primeira faixa do álbum e a faixa-título, que fecha o disco, usam como uma textura: uma espécie de chuva de facas ruidosa que serve de base para as canções. O outro ponto positivo é um trabalho sensacional nas batidas, mesmo para os elevados padrões do trio. Ela, “Three Bedrooms In a Good Neighbourhood” e “80808” tem alguns dos beats mais nervosos da discografia da banda.

Bottomless Pit tem em sua forma mais tradicional e direta sua principal característica, mas também sua principal decepção. Todas as faixas tem durações meio parecidas, nenhuma delas aponta para direção muito diferente do que a banda já fez, e o álbum também parece muito menos preocupado em unir suas composições, seja musicalmente, seja em torno de um tema comum. Inegável, por outro lado, é que Bottomless Pit contém diversas composições excelentes, e não fica devendo nada aos outros trabalhos do Death Grips.

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