Dinosaur Jr. – I Bet On Sky

O caso de grande poder criativo, num momento pós-reunião da formação original de uma banda, é tão incomum, mas tão atípico mesmo, que não consigo pensar em outra situação que não a do Dinosaur Jr., apesar de acreditar que ela deva existir (ou de torcer pra que exista). Quando retornaram em 2007 com ótimo e surpreendente Beyond – dez anos após o último lançamento e a quase há vinte após o último álbum com a formação original – Mascis, Barlow e Murph declaravam que era possível o trio voltar mais revigorado do que o esperado, muito mais aliás, e soar exatamente como se nunca tivesse partido. Dois anos depois, Farm comprovava que o trabalho de retorno não tinha sido apenas um tiro de sorte. E agora, após três anos desse lançamento, I Bet On Sky não tem a função de provar nada, nem pro bem nem pro mal.

A impressão que fica é que, mesmo que o Dinosaur Jr. lançasse um disco realmente ruim, o que não foi o caso, isso não afetaria a banda. E talvez tenha sido nesse conforto todo que o novo LP tenha sido concebido, num clima de amigos que não brigam mais e que não tem mais nada a perder. Despretensiosas, as 10 faixas não decepcionam. Ok, também não impressionam tanto, mas se analisarmos que se trata do décimo disco de uma banda histórica e tão influente, com uma carreira de quase 30 anos… Sim. I Bet on Sky arrepia.

J. Mascis já assume a produção há muito tempo dos discos da banda e dessa vez não foi diferente, assim como produziu seu lançamento acústico solo Several Shades of Why, uma das coisas mais bonitas do ano passado. Esse mesmo é o disco, aliás, que Lou Barlow disse ter feito grande influência sobre o trio de Massachusetts nesse novo trabalho. E não acho que ele tenha dito isso só porque Mascis é o principal compositor da banda, mas sim porque, de certa forma, esse trabalho solo parece ter deixado as coisas mais suaves, até românticas talvez, no clima que cercou o momento de composição. Mas isso não quer dizer que temos em mão um disco apaixonado do Dinosaur Jr.. Talvez, apenas apaixonados pela deliciosa sensação da juventude que nunca parece acabar entre eles.

“Can I find it far from home / There’s a time to make you / All at once the time flew”, diz “Watch the Corners”, a segunda faixa e primeiro single (que ganhou um ótimo clipe, aliás). Mas o tempo não parece ter voado para esses que conseguem representar tão bem canções para adolescentes e que fale com eles, mesmo que já estejam alguns anos próximos de completar meio século. Além da ótima faixa citada, outras que se destacam no mesmo âmbito são as “atéondepossível” suingadas “Don’t Pretend You Didn’t Know”e “I Know It Oh So Well”, além da punk “Pierce the Morning Rain”.

As belas baladas “Stick a Toe In” e “See It On Your Side”, além de trazerem aquele clima que Mascis adorou explorar na década de noventa, abrem as portas para que ele comece a solar sem parar (sem parar mesmo, até a faixa acabar). E as tradicionais, desde o retorno, duas faixas de Lou Barlow por álbum são “Rode” (lembrando ótimos momentos do Sebadoh, que lançou um ótimo EP esse ano, e até R.E.M.) e “Recognition”. Barlow arrisca bem menos, e acerta em cheio.

Apesar de boas faixas, o disco não chega a realmente engrenar, não chega a empolgar exatamente por soar, em várias faixas, como uma repetição do que eles já fizeram ao longo da carreira. Em um momento ou outro, a bola chega até a cair, como num pequeno deslize e logo o trio trata de colocar ela no alto. Mas não tão alto assim, só o suficiente pra você alcançar e ter certeza de que aquela é dos bons e velhos rapazes de Massachusetts. Eles ainda são os donos da bola do que era (ou ainda é) chamado rock alternativo. E por ser apenas mais um disco do Dinosaur Jr., I Bet On Sky não deixa dívidas. Não deixa preocupações. Só te traz razões para aproveitar e, quem sabe, te despertar aquele sorriso de satisfação em saber que a banda se mantém intocável e não há tempo que passe, nem que voe, que faz parecer que isso vá se desfazer. Envelhecer não parece mais tão preocupante.