Dirty Projectors - Dirty Projectors

Dirty Projectors
Dirty Projectors

Domino Records

Lançamento: 21/02/2017

Ao ouvir o álbum auto-intitulado do Dirty Projectors, você logo de cara percebe duas coisas. A primeira é que ele não tem muito a ver com os outros discos da banda. De fato, antes dele ser lançado, praticamente todo mundo “saiu” da banda, deixando apenas o guitarrista, cantor e principal compositor, David Longstreth. Dentre os membros que saíram estavam Amber Coffman, que era namorada de Longstreth, o que nos leva ao segundo ponto imediatamente perceptível: os dois terminaram o namoro. E a julgar pelo nível de inconformidade que Longstreth demonstra no disco (o álbum todo fala sobre o término), ele levou um violento pé na bunda. Isso cria uma situação de lavação pública de roupa suja que seria suficiente para acabar com o disco, não fosse o fato de que Longstreth de fato mostra um som eletrônico interessante aqui.

No geral, a sonoridade do disco fica próxima daquilo que ficou conhecido como “R’n’B alternativo”: música pop com forte ênfase nos vocais mas também focada na exploração de sonoridades e estruturas de canção incomuns. FKA Twigs é talvez a principal expoente do estilo, mas o som que Longstreth mostra nesse álbum é bem menos ameaçador e lembra um pouco as explorações eletrônicas de Bon Iver em seu último álbum. Sua voz, quando muito, aparece levemente distorcida: a abertura tristonha e estranha de “Keep Your Name” é o melhor exemplo. Infelizmente, o cantor também pega de Bon Iver o triste hábito de abusar do autotune – de forma desnecessária – na própria voz, algo que incomoda em quase todas as faixas do disco. Mas é no começo da sétima faixa, “Ascend Through Clouds”, que ele se torna quase insuportável.

Essa faixa, aliás, é a pior do disco. Com quase sete minutos, ela forma (junto com os quase cinco minutos da anterior, “Winner Take Nothing”) um trecho do álbum que traz à mente do ouvinte pensamentos da ordem do “que porra é essa?”, e representam uma longa firulação que não leva a lugar nenhum. É curioso, então, que com apenas uma organização melhor desses elementos Longstreth consiga criar canções muito mais atraentes. “Death Spiral”, por exemplo, se assemelha a “Ascend Through Clouds” em ambição e estranheza, mas conta com uma batida envolvente, um refrão melódico e uma estrutura mais direta que fazem dela uma canção muito mais divertida, palatável e até meio grudenta. Outra faixa igualmente positiva é “Cool Your Heart”, a penúltima, que é a única a trazer outra voz além da de Longstreth (graças a uma ótima participação de Dawn Richard). As experimentações eletrônicas, os sons pouco convencionais e o foco nas vozes estão todos aqui também, mas numa faixa suave, divertida e grudenta.

São elas os dois pontos mais acessíveis do álbum. Mas no geral, as pirações do cantor são um pouco mais crípticas e impenetráveis. O caso mais marcante disso é “Work Together”, cheia de vocais recortados e um ritmo meio frenético. Mesmo com um refrão bem marcado, há tanta incerteza e ansiedade em seu arranjo que não faz sentido chamá-la de pop. O encerramento “I See You” também, mesmo com sons suaves, tem um arranjo tão irregular que fica difícil apreciá-lo totalmente numa audição mais superficial. E é interessante notar que essas duas faixas se mantém intrigantes mesmo assim. “Up In Hudson”, por outro lado, apesar dos eus sete minutos, é uma das mais tranquilas do disco. É também uma das mais diretas, praticamente narrando o relacionamento de Longstreth e Coffman praticamente inteiro, com detalhes meio desnecessários.

Isso é outro aspecto marcante do álbum – e não de um jeito positivo. Uma coisa é usar um fim de relacionamento como inspiração para um disco; outra coisa é fazer o que o cantor faz aqui, que é transpor diretamente seu fim de namoro para o álbum. Esse processo mal dá o valor de arte às emoções de Longstreth, além de ser potencialmente vexaminoso para sua ex-parceira. Em alguns momentos – especialmente em “Up In Hudson” – ter que aguentar o cantor expor com riqueza de detalhes uma visão claramente unilateral e enviesada sobre o seu término chega quase a dar vergonha alheia.

Com tudo isso, portanto, Dirty Projectors é uma obra bastante irregular, com méritos e deméritos igualmente marcantes. A decisão de Longstreth de expor a si mesmo (e a sua ex-companheira) de maneira tão direta é bem negativa. Também é lamentável o fato de que ele, mesmo sendo um violonista incrível e um cantor competente, sequer pegue no violão nesse álbum e encha sua voz de autotune. Mas isso não significa, por outro lado, que o disco seja de todo ruim. Há, sem dúvida, ideias interessantes aqui, bem como uma vontade genuína de buscar sons e soluções diferentes para a canção. Caberá ao ouvinte decidir se a parte boa do disco vale aguentar os seus defeitos.