Dirty Projectors – Swing Lo Magellan

Em 2009, uma certeza nascia: Dave Longstreth é um gênio. E havia uma grande possibilidade de eu, você e seus amigos, mesmo os mais ligados em novas músicas, não fazerem ideia de quem era esse sujeito. Mas não foi necessário correr atrás para conhecê-lo. A cabeça genial e experimental de Dave colocou o Dirty Projectors e o seu Bitte Orca no topo de quase todas as listas relevantes de melhores do ano, ao lado de Animal Collective e Grizzly Bear. Aliás, três bandas do Brooklyn. O que tem na água desse lugar, afinal?

Bitte Orca sucedia Rise Above, um disco de releituras do álbum Damaged, do Black Flag. Releitura de Dave após 15 anos sem ouvir o disco. Mas não era só por isso (quando digo “isso”, quero dizer “aventura experimental sem lógica e sem sentido”) que o álbum de 2009 foi tão bem recebido. A mistura psicodélica que envolvia folk, rock, r&b, afro e sabe-se lá mais o que, resultava numa sonoridade tão “pop”, dentro dos limites possíveis, e tão bonita que impressionava até mesmo os desatentos. Ter ficado tanto tempo sem dar atenção especial à banda e a esse sujeito que compôs e produziu um álbum de maneira esplêndida pareceu um desperdício. E quando ele voltou pra dizer que seu próximo álbum, Swing Lo Magellan, seria um álbum de canções, e canções no sentido de boas e doces melodias, eu tive que dar atenção pra não deixar escapar dessa vez. O que eu não esperava era que o disco surgiria como o melhor do ano, até então, para mim, e quem não escaparia seria eu.

Acho admirável quando um artista consegue se equilibrar em uma espécie de corda-bamba que o separa do pop, simplesmente pop, do não casual. Grandes discos surgem quando um compositor se coloca nessa posição e aceita esse desafio. Talvez, ao compor esse álbum em seu violão, Dave Longstreth não enxergava motivos para tornar complexas aquelas melodias tão fáceis e belas, mas também não queria apresentá-las da forma mais crua e previsível. E, sim, o seu coletivo Dirty Projectors estava pronto para trazer a melhor resolução pra aquelas composições.

Ao abrir o álbum com “Offspring Are Blank”, faixa que se desenvolve por vozes e simples batidas, e explode em guitarras distorcidas, que podem lembrar Radiohead em “The Bends”, num refrão rock, a proposta fica clara: esse disco não passará esse ano apenas como mais um lançamento “comum” da banda. Realmente, eles estão dispostos a atingir você da maneira mais familiar possível, e ainda assim te impressionar. Com temas que flutuam pela cabeça do compositor, as canções tomam diferentes formas e arranjos, porém se encaixam num perfeito padrão para esse álbum de “canções” proposto.  “About to Die” parece bailar sobre suas batidas não convencionais como se realmente aquilo fosse fácil, e te carrega para o primeiro single do disco, que já quase funciona como um hit, “Gun Has No Trigger”.

Se a terceira faixa te mantém na tensão baixo e bateria, e dispara aos seus ouvidos mais uma linda sessão vocal, mesmo sem aparentemente ter um gatilho, as três próximas músicas fluem de forma suave. A sequência quase folk-pop (com apenas pequenas quebras de andamento, mas nada que assustariam os ouvidos pós-Bitter Orca) é quebrada por ” Maybe That Was It”, um grande momento de estúdio que soa sombrio, principalmente quando é chegada a faixa 8. “Impregnable Question” lembra Paul McCartney, lembra Bee Gees e lembra que ainda é possível falar de amor da maneira mais brega e soar da forma mais brilhante.

Não deixando a empolgação baixar, o disco ainda segue por mais quatro faixas dignas. ” See What She Seeing” soa adoravelmente estranha, com vocais de apoio que nos fazem questionar o porquê de nem todos compositores conseguirem encontrar as notas perfeitas para construir suas melodias. ” The Socialites” é tão pop que tocaria em rádios FM, se essas fossem democráticas. “Unto Caesar” soa como uma session entre os amigos mais bacanas que você poderia ter, ainda que pareça a mais despreparada do LP. E fechando o álbum com respeito, “Irresponsible Tune”  soa tão familiar que dá vontade de começar tudo de novo, com aquele sorriso no canto do rosto, imaginando por que não surgem discos assim todos os dias, por que a gente se adapta para aceitar as imperfeições dos artistas que já escolhemos gostar, por que não acontece com todo compositor aquilo que leva Dave a nos trazer um álbum como esse.

E é só após ouvir o álbum várias vezes que paro pra pensar na dificuldade de se construir clássicos hoje em dia. Digo pela velocidade de informação e pela facilidade de se buscar novas coisas, sem nem ainda termos absorvido aquelas que já temos. Então, tento calcular quanto tempo realmente irá durar esse deslumbre pela obra chamada Swing Lo Magellan. Difícil imaginar. Mas que já me atingiu e marcou bem mais do que o Bitte Orca, está claro e, talvez daqui há alguns anos, eu ainda o ouça (ou volte a ouvi-lo) e lembre de tudo que escrevi aqui. Afinal , sou um apreciador de boas canções. E, ainda mais a partir de agora, um admirador do trabalho de Dave Longstreth.

  • Felipe Reznor

    Excelente Crítica.

    Confesso que lá em 2009, quando ouvi o Bitte Orca, mesmo gostando de músicas mais alternativas (no sentido mais experimental/não-convencional) o disco não desceu. Não sei, o disco não me cativou. Esse ano dei mais uma chance e procurei por esse novo trabalho, e realmente é um disco sensacional. Uma bela surpresa =)