Disclosure - Settle

Disclosure
Settle

Island

Lançamento: 31/05/13

Em tempos em que o provável maior nome da música eletrônica dos últimos anos resgata o lado orgânico da dance music com Random Access Memories, o Disclosure aparece escancarando batidas urbanas e influências de estilos mais, digamos, underground, como o UK garage, produzindo um pop sintetizado delicioso e cheio de ganchos, daqueles capazes de balançar até quem nunca se imaginou dançando. Sozinho. No meio da firma. Com o som no talo vazando dos fones.

É curioso notar a coragem adquirida por uma dupla de irmãos-moleques ingleses, de apenas 19 e 22 anos, que descartaram sem medo músicas manjadas e de estruturas convenciais; pelo contrário: recrutaram alguns parceiros e os reuniram em uma coleção de temas que atinge uma hora de duração, com faixas bem produzidas e que ultrapassam os seis minutos de execução.

Sendo bem jovens na “cena”, os garotos optaram por trabalhar com artistas na mesma situação. Com isso, os convidados não são estrelas – ainda. Nada de Noel Gallagher fazendo uma “Setting Sun” da vida. Nem Nile Rodgers com suas guitarradas mergulhadas no groove. E não é nem que a dupla precisasse de tais parcerias. Em Settle, brilham nomes que ainda estão galgando suas posições nos charts e iTunes mundo afora. Jessie Ware, AlunaGeorge, London Grammar e Sam Smith são exemplos marcantes que você encontrará no meio do caminho.

O disco, o primeiro da promissora carreiras dos brothers Guy e Howard Lawrence, pode ser dividido em três etapas. A primeira já chega, com o perdão do trocadilho, botando fogo na casa, com o batidão “When A Fire Starts To Burn”. O que se segue são pequenas gemas pop de fácil assimilação e recheadas de ótimas parcerias, com destaque para “White Noise”, que tem a voz sexy de Aluna Francis como fio condutor. Percebe-se então como é eficiente a subida no volume de alguns vocais agudos, fazendo um contraponto interessante com as batidas secas e com os graves (como em “Latch”). Também é notável que uma das características adotadas pelo Disclosure é envolver o ouvinte nos versos, com um certo de clima de mistério e pequenas pontes que funcionam como “pré-explosão” de refrões grudentos e dançáveis.

O miolo de Settle é o espaço onde o duo inglês se permite viajar um pouco em suas influências eletrônicas. Texturas e batidas são repetidas quase à exaustão, deixando o alvo em uma espécie de semitranse – do qual é acordado com o espetacular início do fase final do álbum, com o hit instantâneo “You & Me”, que conta com a inglesa Eliza Doolittle cantando a plenos pulmões sobre uma instável história de amor.

Daí pra frente, o Disclosure mantém o ritmo e o alto nível até o final. “Confess To Me”, por exemplo, parceria entre o duo e Jessie Ware, é dessas canções que podem catapultar qualquer iniciante direto para o topo das paradas e das pistas – que, aliás, é o habitat natural de Settle. O disco, repleto de synths pegajosos e sons “das ruas”, é a cara de 2013, um ano que tinha tudo para ser marcado principalmente por um certo revival da disco music setentista. Não que uma coisa exclua a outra, mas há quem prefira o dancefloor moderno armado pelo Disclosure.

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  • Publiquei o seguinte no meu blog:

    Dance Music For The Masses

    Não é propriamente uma revolução. Acontece que, de tempos em tempos, aparece alguém com um balão de oxigênio pra entubar na fuça de um gênero que anda apanhando mais que mulher de malandro: a dance music. Maltratada de todas as formas ultimamente e elevada à palhaçada EDM, a pior música de pista que se houve hoje em dia é a que está mais perto de você. No rádio, na TV, nos números acima de seis dígitos do Youtube, no festival patrocinado pela cerveja, na boate com ingressos à preço de derrubar todo o primeiro escalão do Ministério da Fazenda.

    Calhou desse Messias vir como uma dupla: dois moleques ingleses que tem a palavra TALENTO estampada em caixa alta nas camisetas… e eles tem a manha. Tão novos e já sabem como o jogo é jogado: um single número dois e um álbum de estreia no topo da parada britânica não vão ser suficientes pra estragar esses guris. Porque eles tem a exata noção de que não há revolução (ou qualquer coisa que o valha) dando zero no Ibope. O que faz a diferença é que com Settle, o Disclosure entra pro seleto clube de artistas que sabem a hora certa de arriscar, de não deixar o impulso tentador de procurar as soluções mais corriqueiras pra tentar fazer sua música subir mais alto tomar conta dos dedos na hora de girar os botões da mesa de som, como no single “White Noise”: os vocais infantilóides de Aluna Francis (do duo AlunaGeorge) aparecem mantidos à rédea curta pela base de ruído melódico criada pelos irmãos Lawrence.

    Settle tem dois lados bem distintos. Um, é ótimo. O outro, espetacular. São muitas ideias boas fluindo em 14 faixas (e a edição de luxo tem mais quatro extras), como a que transforma uma palestra motivacional do ex-jogador de futebol americano Eric Thomas em vocais para a house matadora “When A Fire Starts To Burn” ou a que chama a cantora pop Eliza Doolittle pra quebradeira do future garage na sensacional “You & Me”. O Disclosure experimenta e se dá bem com a deep house em “Boiling”, sustentando os vocais carregados de reverb de Sinead Harnett com uma linha de baixo emborrachada e sintetizadores ambient, explora com dedicação cada batida no espetáculo percussivo de “Tenderly”, atualiza o soul para as pistas 2013 com a voz incrível de Sam Smith em “Latch” e transforma o hi-hat no elemento mais importante da bateria em “Defeated No More”, “Voices” e “Help Me Lose My Mind” (essa com os vocais sentimentais de Hannah Reid, do London Grammar – outra banda que vale ficar de olho).

    Foi por pouco, mas felizmente – pra quem acha que um debut irretocável pode fazer a soberba ou a preguiça aparecer – esse não é um álbum perfeito. O que elimina a possibilidade do dez são apenas duas escorregadas: a fraca “Stimulation”, com samples da cantora folk Lianne La Havas sendo jogados por cima de um instrumental abaixo do padrão do resto do álbum e a repetitiva e ligeiramente irritante “Grab Her!”. No final das contas, o saldo é altamente positivo. Tanto que eu acho muito, muito difícil alguém aparecer este ano com algo tão divertido, esperto e dançante quanto a música que o Disclosure oferece em Settle. E espero que São James Brown não deixe esses garotos caírem na tentação que o mainstream (que se abriu como uma flor para a dupla) oferece.