Dorgas - Dorgas

Dorgas
Dorgas

Independente

Lançamento: 05/13

Já faz um tempo que tento entender o Dorgas e sua música. Há um sentimento, uma ironia, uma piada, uma coisa toda que eu não consigo explicar ou sequer entender se faz parte de uma cena ou se são só criações da cabeça dos quatro rapazes da banda carioca. Não se trata apenas de música, mas desse experimento onde se comprova que não existem equívocos quando nem sabemos exatamente o objetivo e nem compreendemos a proposta. Se eles entendem e estão certos do que estão fazendo, parece então que só deixam a gente de fora dessa “piada interna”. Ao menos eu estou de fora. E, de fora, ouço e as sensações não são as melhores – só que ao mesmo tempo tenho uma noção de que poderia ser.

Com algumas músicas já conhecidas, o Dorgas lança seu primeiro álbum após EPs e singles que fizeram seu nome crescer no cenário da música alternativa brasileira. Não se trata de música experimental no seu todo, apesar dos momentos bem experimentais do disco. Tudo no álbum segue uma linha bem lógica para o pop – pop no sentido da fácil absorção de sonoridade de uma forma geral. A não ser quando o assunto são os vocais. Aí se gera um conflito que talvez também faça parte desse experimento “dorgas”.

Enquanto, em sua maioria, as faixas soam melodicamente e nos arranjos que trazem uma espécie de Marcos Valle aventurando-se no chillwave, os vocais parecem fazer uma piada com o ouvinte. Não exagerando, quando Cassius é quem canta, sua voz mais aveludada soa, ainda que de forma estranha, bem para a proposta. Já Gabriel Guerra aposta em um falsete incompreensível que só parece querer jogar com a paciência do ouvinte. Soa desencaixado e parece uma péssima escolha – mas, como disse, é até difícil dizer que se trata de um equívoco, não sabendo o que a banda quer despertar no ouvinte.

Se ignoro esse incômodo anti-pop, consigo enxergar uma banda de sonoridade bem resolvida. Com muito suingue e personalidade, o baixo destacado e de linha criativa sempre interessante casa otimamente bem com a bateria que sugere ritmos que brincam com a influência do jazz fusion. As guitarras e sintetizadores sempre auxiliam na criação de climas mais inebriantes, que sugerem uma nostalgia e um resgate de uma época que, certamente, nenhum integrante do Dorgas viveu. Mas isso, realmente, não faz a menor diferença. Eles conseguem mesmo assim. São competentes e esforçados  apesar de inconsequentes.

Com as últimas 4 faixas brilhando mais que as outras, Dorgas, o álbum, é a estreia de Dorgas, a banda, e exibe em “Hortência”, “Vander”, “Patricinha Ingrata” (apesar dos sussurros e suspiros vocais) e “Viratouro” a articulação perfeita para atingir esse público que visualizamos na tamanha exaltação e elogios que surgem principalmente na internet. Sem saber se isso também se trata de uma piada que só eu não estou entendendo ou participando, não pretendo sorrir só para participar, mas ao mesmo tempo encaro a esquisitice com um certo apreço – o álbum possui o seu valor na coragem atrevida e descarada, e gera uma sequência de sentimentos, não deixando a banda passar em branco.

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  • Joana Pinto

    esse vocal sussurrante é de mulé, é???

  • Algo me diz que eles não gostam de você.Mas não leve a mal,eles são legais,principalmente o Gabriel.