Ele se inspirou no cinema para o novo álbum e conversou com o Move sobre um violão em Mi

Rafa Brreto. Foto: José de Holanda/Divulgação

O nome do terceiro disco do Rafa Barreto é bem sugestivo, Sessões Perdidas. Digo isso, porque o foi no cimena que ele buscou inspiração. Comb 12 faixas, o álbum tem 11 delas inspiradas em 11 longas metragem diferentes: Pina, de Wim Wenders, Cães Errantes, de Tsai Ming Liang, Tony Manero, de Pablo Larrain, Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, Oxalá Cresçam Pitangas, de Ondjaki e Kiluanje, Oldboy, de Park Chan-wook, Boneca Inflável, de Hirokazu Koreeda, Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard, A Caça, de Thomas Vinterberg, Birdman, de Alejandro G. Iñárritu e Tatuagem, de Hilton Lacerda. A faixa que fecha o disco é a única que não teve sua gênese na ficção: “Isto Não É Cinema” traz uma visão totalmente voltada ao mundo real, lembrando tragédias com feridas ainda recentes. Na banda – e também na produção ao lado de Rafa – temos Marcelo Cabral (baixo e synth), Thomas Harres (bateria) e Maria Beraldo (clarone e clarinete) fazendo uma mistura de MPB com eletrônico, rock e black music.

Claramente o artista é um fã da sétima arte, que ele mesmo entrega. Conversamos com o Rafa por e-mail e ele nos contou um pouco mais sobre este novo trabalho. Afinal da entrevista você encontra o link para ouvir.

Move That Jukebox: Rafa, como começou este seu contato com o cinema? Você escolheu filmes diversos para inspirarem as músicas, é um cinéfilo?
Rafa Barreto: Confesso que não me lembro quando e nem onde essa paixão pelo cinema começa, mas sei que permanece enraizada em mim. Coleciono filmes digitais, catalógo todos em pastas organizadas por país, diretor e ano de lançamento. Sou daqueles que caçam filmes pela internet, que trocam papos e e-mails com outros cúmplices a respeito do tema. Costumo trocar segredos de onde encontrar um filme para baixar ou assistir online, e todo esse tipo de coisa. Já frequentei mais as salas de cinema da cidade, mas atualmente tenho preferido o “cinema” caseiro. Bons filmes sempre me servem como metáfora da vida…E por aí vai. Ah, sim, sou cinéfilo.

Move That Jukebox: Como você escolheu estes filmes para fazer canções? Como e por que eles te tocaram?
Rafa Barreto: Notei que o que mais me comovia, o que mais me arrebatava, em um dado momento, era o cinema e em específico o cinema de baixo orçamento. Não sei se essa categoria existe, mas costumo chamar dessa maneira. A partir desse momento tive o “estalo”, a ideia de fazer canções inspiradas por esses filmes arrebatadores.Tudo começou com uma vontade de investigar o que havia de arrebatador, de subversivo dentro deles. Queria tentar encontrar o porquê me arrebatavam. Também achei curioso o fato de que todos os filmes que julgava incríveis, que tinham relevância para mim eram de baixo orçamento. Decidi que este seria o ponto de partida para a escolha dos filmes que figurariam no Sessões Perdidas. Primeiro limitei uma época, só filmes feitos nos anos 2000 até 2016 entrariam, isto apenas para facilitar meu trabalho e para deixar mais contemporâneo. Não repetiria país e nem diretor. E foi o que fiz, 11 filmes de 11 países e de 11 diretores diferentes inspiraram as canções.

Move That Jukebox: Fiquei curiosa com uma coisa e pergunta aqui como leiga, como é essa coisa de ter uma corda de vioão em Mi e não Ré. O que isso traz de diferente para o seu som? E por que fazer isso?
Rafa Barreto: Na verdade é o contrário, usei uma corda afinada em Ré e não Mi. Essa questão da afinação surgiu da analogia que queria fazer com o baixo orçamento ou pouco recurso detectado nos filmes. Coloquei isso como limite, como se fosse o meu pouco recurso, meu baixo orçamento, então abaixei a afinação. Eu, até aquele momento, nunca havia criado canções usando tal afinação. Escolhi a guitarra ou fui escolhido por ela, não sei bem, e decidi usar os dedos e não a palheta. Aproveitando a ideia, me limitei no uso dos dedos da mão direita, o comum seria tocar usando quatro, como fazem os bons violonistas. Utilizei um, dois ou no máximo três. A pretenção era criar músicas partindo de um lugar ainda não explorado por mim. Não saberia dizer o que a mudança de afinação traz de diferente no som em si, mas posso afirmar que isso me levou a um lugar desconhecido.

Move That Jukebox: Este o seu terceiro disco solo, mas você tem tabalhado bastante com a Elza Soares e agora também faz parte da banda da Alessandra Leão e da Luísa Maita. Como que é se desdobrar entre esses três projetos? É necessário para se bancar como um artista na música?
Rafa Barreto: Mais do que bancar o artista, tocar com outros banca a sanidade e renova as ideias artísticas. Acredito muito em outras lógicas para duvidar das minhas próprias ou até mesmo reafirmá-las. É fundamental se colocar em situações diferentes das habituais. Acompanhando e tocando com outros artistas tenho que tentar ser outro, ser o melhor representante e articulador da ideia artística de outro. Muitas vezes tenho que me encaixar em outra estética e ainda conseguir trazer algo de pessoal para o som, o que julgo ser importante para o amadurecimento como instrumentista e como artista. Para o segundo semestre tenho programada a gravação de um disco com o escritor Marcelino Freire, o ator e também escritor Lourenço Mutarelli; e se o ano tiver mais do que 365 dias, gravo o disco do Punhal de Prata, duo com Alessandra Leão só com releituras de músicas do Alceu Valença dos anos 70, e mais um disco autoral, só que desta vez instrumental. Enfim, muitos desdobramentos ainda por vir, assim espero.

Confira o disco n Apple Music: