Entrevista: “Antes de fazer qualquer coisa, eu faço isso para me manter viva”, Linn da Quebrada

Cada vez que Linn da Quebrada abre a boca, pode acreditar, dali vem um “tiro”! Para quem não está familiarizado com o termo, quer dizer que quando a artista fala, vem algo forte por aí!. Linn fala rápido, é difícil inclusive cortá-la para fazer uma nova pergunta, mas percebo logo no começo, que se não encontrar brechas, ela vai continuar falando e minhas perguntas vão para o buraco.

Encontrei Linn no começo do ano, em janeiro quando participava da Mostra Motumbá, no Sesc Belenzinho. Em seu camarim ainda longe de aparecer com a cabeleira vermelha em coque alto e vestido/macacão também vermelho e maquiagem poderosa no palco, ela me recebeu para este bate papo. Com um macacão jeans e tomando um cafezinho, ela estava pensando em como iria pintar o rosto naquela noite. Ela está a cada dia mais a vontade para dar entrevistas e como se estivesse no sofá de casa começou a falar. Era até fácil, já que estava no camarim rodeada das amigas e de pessoas que trabalham no show.

Acho que sempre que uma pessoa bem articulada começa a falar, a gente fica meio embasbacado e esta é a sensação que se tem ao entrevistar a Linn da Quebrada. É preciso estar “atento e forte” à pauta, senão você mesmo pode ser perder nas quantidade de palavras e assuntos que Linn vai soltando como uma rapper numa rinha de MCs. Ela pensa tão rápido que até as palavras a atropelam e no meio de uma frase e às vezes no meio de uma palavra, ela muda o jeito de falar.

Sensível e forte, informada e inconformada, Linn da Quebrada se revela mais uma grande artista que foi abraçada pela música, mas que não quer ficar parada! Ela quer causar! Quer mesmo é botar para fuder e mudar a expectativa da sociedade quanto a questão do gênero. Bate de frente sem medo no machismo. Grita aos quatro cantos que é bicha, que é preta, que é travesti, que é empoderada e que não vai se calar!

Antes, dá uma olhada na música nova, “Bixa Preta” que foi lançada no programa Amor & Sexo, da TV Globo e está disponível nas plataforma de streaming, como o Spotify. Linn também gravou o programa Showlivre e ao final desta entrevista você escutar o que virou um álbum ao vivo.

Dá uma olhada na entrevista:

Move That Jukebox: Vou começar com duas perguntas que não vi vocês respondendo. A primeira é: Seu nome é Linn da Quebrada e tem uma cacofonia aí, “Linda” e “Quebrada”. Você tinha pensando nisso e como escolheu este nome?

Linn da Quebrada: Uma coisa superinteressante da cultura drag é que na cultura drag você se autonomeia, né? As travestis também, o processo da transexualização, né? É um processo onde a gente se nomeia. É um segundo nascimento. Isso tem a ver também com uma coisa que eu acredito, que na nossa atuação. Eu procuro atuar sobre mim mesma. Então, é entender sobre todos ao papéis. Aí eu me vejo em mais uma etapa desse processo que é a música, eu me vejo em mais um nascimento. Em mais uma necessidade de me nomear e daí então, quem sou eu nessa história? Senão, a Linn da Quebrada [Dá ênfase ao falar], que é onde eu estou neste momento, onde eu volto neste momento para outra quebrada e me vejo entre quebradas. E percebendo o quanto a “quebrada” é importante e é “linda”. Onde é “linda a quebrada”. Onde eu me vejo “linda” e “quebrada”. Eu acho que isso também tem a ver com um jeito meu de reinventar significados para as palavras. De agir para ressignificar os espaços e os territórios e fazer com que eu mesma e com as pessoas a minha volta tenham outras possibilidades dentro das mesmas palavras, como “bicha”, como “viado”. Se tornarem essas palavras de empoderamento e de espaços a serem ocupados.

Move That Jukebox: Você saiu de casa aos 17 e foi a primeira vez que você se travestiu…

Linn da Quebrada: [Interrompe] Eu acho que foi aos 18.

Move Tht Jukebox: Mas você se travestiu a primeira vez aos 17…

Linn da Quebrada: Olha, eu acho que eu me travesti com 6 anos de idade, quando alguém me travestiu de menino e acho que assim como alguém se travestiu de mulher… A diferença é que entre alguém me travestir de alguma coisa. A primeira vez que EU me travesti, EU resolvi me vestir de alguma coisa, que não aquilo que era esperado foi no meu aniversário de 17 anos. Mas a travestilidade, o processo de travestir, é um processo que a gente passa a todo tempo.

Move That Jukebox: Claro.

Linn da Quebrada: Foi o que você fez hoje. Você se travestiu de mulher, ou você se travestiu de jornalista. Quando você está em casa você se traveste de mulher, de esposa, né? Mas a travestilidade nasceu para mim como possibilidade aos 17 anos.

Pensar alguns discursos que estão disfarçados de opinião e que o que é veiculado pelos veículos de massa, nos conduzem a um tipo de corpo e um tipo de pensamento, que exclui e mata.

Move That Jukebox: Mas não é essa a pergunta. O que quero saber é: Você acabou saindo de casa por conta disso?

Linn da Quebrada: Ah! Se foi por conta disso? Não! Teve um processo que foi mais difícil com a minha mãe devido ao contexto histórico e a cidade que nós vivemos. [A voz fica mais terna] A minha mãe que é essa mulher, que veio de Alagoas, com quase 60 anos na época, empregada doméstica, que tinha medo do que as pessoas iam fazer e de qual seria a resposta das pessoas em relação a mim. Porque vivendo no interior ainda, onde a violência é muito grande entre pessoas LGB. Mas que percebeu que poderia me acompanhar nisso. Não me abandonar. E ela me deu força para continuar nessa caminhada.

Move That Jukebox: Como que é a sua relação com a sua família hoje?

Linn da Quebrada: O meu pai sempre foi omisso. Ele nos abandonou quando eu tinha 7 anos e nós só reencontramos ele com a ajuda de uma advogada que a minha mãe trabalhava na casa aos 12. E desde então nós nos vimos em fórum, depois eu tive um pouco mais de proximidade com ele, mas nos afastamos de novo. Mas a minha mãe sempre foi pai e mãe. Sempre foi presente e sempre esteve ao meu lado, inclusive vai estar aqui hoje no show. Ela tem acompanhado a minha trajetória como pode. Ela entendeu como o tempo e abriu espaço para ter novas palavras, um novo vocabulário para entender como a gente poderia se tratar nessa relação. Eu saí de casa para estudar dança, comecei a fazer teatro e balé e vim para cá porque eu ganhei uma bolsa de estudos aqui em São Paulo para estudar teatro. Daí comecei mergulhando e mergulhando e fiz um curso se especialização de quatro anos.

Move That Jukebox: E daí como que a música… Quando foi que você disse: “Agora eu vou cantar”?

Linn da Quebrada: Na verdade eu não escolhi. Eu sempre tive falando o que eu estou falando, isso não é novidade para mim. Eu já falava disso com performance, eu já falava disso na minhas atuações políticas e criativas no meu dia a dia. Por um tempo eu morei com a Liniker, nós morávamos jutas em Santo André, então, eu pude perceber com ela o poder da música. E ver o acesso que a música potencializava nas pessoas. Numa brincadeira eu compus uma música e mostrei para as pessoas, como eu sempre fazia com as minhas coisas e as pessoas disseram que aquilo era muito interessante. Num jogo criativo eu compus mais oito músicas. Um dia me chamaram para fazer numa festa da escola. Daí, eu fiz um showzinho com bases improvisadas. Daí, as ouras pessoas viram e me chamaram para me apresentar no Periferia Trans, no Grajaú, em abril de 2016, que foi a primeira vez que eu mostrei para um público maior e a partir daí, as coisas foram apenas acontecendo. Fui compondo mais músicas, procurando parcerias, encontrando pessoas que pudessem me ajudar na produção dos vídeos… Justamente porque eu não tenho experiência com música. Eu não sei necessariamente o que eu estou fazendo… Eu sei que é música. Porque algo faz pensar: “o que é música?”. Mas a minha atuação dentro da música é uma outra coisa. Eu acho que essa é a coisa mais importante, pelo menos para mim. É entender qual que é a minha intenção em ocupar a música. Porque tem quem cante pela voz, tem quem cante pelo o que é dito, pela atuação… Então, tem várias formas de ocupar a música. Então, eu estou entendendo e me perguntando neste momento do porquê eu estou cantando, para quem eu estou cantando. Eu acho que a música ainda está nesse lugar da incerteza, da pesquisa.

Move That Jukebox: Eu sei que você começou fazendo algumas letras de rap, mas como que foi que o funk bateu para você?

Linn da Quebrada: Na verdade sempre foi a minha intenção fazer funk. Eu acho que eu faço um funk-rap, porque eu sou prolixa, eu falo de mais. Mas eu sempre achei o funk muito interessante, porque o funk além de ser uma das últimas manifestações de explosão cultural do nosso país, da cidade de São Paulo e das periferias. Porque é o funk e o rap são explosões de manifestação cultural. É a voz de uma classe, de um povo se dando o direito de falar sobre suas experiências, de construir suas experiências sexo-afetivas, de contar suas histórias, de um modo que até então não é dito. Então, somos nós por nós falando. Então, desde sempre eu quis ocupar o funk.

Move That Jukebox: E quais foram as suas inspirações? Além da Liniker, que você já citou.

Linn da Quebrada: Eu acho que as minhas inspirações vem de quem está próximo de mim, então minhas amigas, que estavam trabalhando e contribuindo comigo de alguma forma. Desde as travestis que estiveram junto comigo e que me ensinarem e me fizeram entender muitas coisas. Uma amiga de São José do Rio Preto, no seu processo de transexualização. A minha mãe. Essas pessoas me fizeram entender melhor a minha história. E musicalmente e artisticamente, acho que Dzi e Croquetes, Claudia Wonder Deize Tigrona, que é uma atualidade em que eu me inspiro extremamente. As pessoas próximas a mim como a LAY, que tem um discurso tremendo, as Bahias e a Cozinha Mineira, Tássia Reis, eu posso falar diversas pessoas. E eu passo por processos de inspirações constantes. Hoje por exemplo, eu tô me ligando muito no som do Rincon Sapiência, que é fantástico! E que me inspira muito e me leva para outros lugares. Acho que a minha inspiração ela me faz me abrir e me faz ouvir as vozes do mundo e nesse caminho, eu passei pelo teatro, pelo cinema, tô fazendo meu primeiro longa, que tá rodando agora na Holanda, que me fez entender cada vez mais as coisas, para cada vez mais atuar sobre meu próprio corpo e a mim mesma.

Move That Jukebox: Você passou então por várias linguagens para chegar até a…

Linn da Quebrada: Eu tenho passado e tenho presente. Porque eu continuo estudando, agora o vídeo, agora com a música e com o vídeo, porque o vídeo ele é também uma principal ferramenta, né?

Move That Jukebox: Qual você acha hoje, desculpa te cortar, que é a importância do audiovisual, de um bom videoclipe na vida de um artista?

Linn da Quebrada: Eu perguntaria: “Qual a importância hoje do audiovisual na nossa sociedade hoje e na comunicação”? [Nota da editora: PLAU!] Porque o que acontecia até então, se a gente pensar na história, era que os meios de comunicação e de informação ficavam restritos nas mãos de algumas pessoas e ainda estão. Os principais meios de comunicação. Mas com a internet a gente tem a possibilidade de tomar e invadir esses espaços e produzir essas informações por nós mesmos. E ir construindo acesso, para fazer com que outras pessoas tenham acesso ao nosso discurso. E daí eu acho que esse é o nosso principal meio, ou a nossa principal necessidade de usar esse veículo. O que digo o que eu faço é tráfico de informações. Não de produzir mentiras, mas verdades. Mostrar o quanto nós podemos ser produtoras e temos possibilidade de produzir as nossas próprias verdades. Então, o audiovisual dá um acesso às pessoas que não necessariamente estão no mesmo espaço e que podem comungar de mesmo ideais e que podem pensar diferente do que já se pensa. Pensar alguns discursos que estão disfarçados de opinião e que o que é veiculado pelos veículos de massa, nos conduzem a um tipo de corpo e um tipo de pensamento, que exclui e mata.

Ou podemos colocar um veneno que justamente mate o espírito opressor, uma atitude opressora. Podemos ser o veneno, ou podemos ser um antídoto na verdade, né? Eu coloco em cena tudo aquilo que algumas pessoas gostariam de matar. Mas meu corpo funciona como cura, antes de fazer qualquer coisa, eu faço isso para me manter viva.

Move That Jukebox: Porque que você acha que a gente está passando… Você citou alguns artistas e tem outros como Jaloo, Johnny Hooker…

Linn da Quebrada: [Interrompe] e muitos outros artistas que não estão sendo retratados pela mídia e não é a mídia que legitima ou não uma obra a ser artística ou não. Eu acho que eu não sou menos nem mais artista de quem tem menos ou mais visibilidade que eu. E tem muitas artistas que tem menos visibilidade que eu, que não tem o trabalho menos contundente que o meu. A diferença são os efeitos que isso gera. Mas eu te interrompi, qual era a sua pergunta?

Move That Jukebox: Vamos lá. O que eu ia te perguntar é por que você acha que agora esses artistas estão conseguindo chamar atenção?

Linn da Quebrada: Por que antes elas não conseguiam chamar atenção? Onde elas não existam? Onde estavam essas pessoas? Será que a diferença não é agora com a internet e talvez até com uma banalização da informação, nós temos conseguido falar? Ser vistas? Ser ouvidas? Nós temos conseguido traficar informação? Será que diferença agora não está em eu consegui com o celular fazer um vídeo e fazer com que outras pessoas saibam o que eu penso e o que eu faço? Talvez essa seja uma das diferenças.

Move That Jukebox: Você acha que um artista precisa de discurso?

Linn da Quebrada: Tudo o que fazemos não é discurso? O modo com que você se veste já não é de alguma forma um discurso? Já não diz alguma coisa? Já não induz? Porque… O que é relação, por exemplo? Relação é: eu relo em você, você rela em mim e isso é relação [Encosta o braço em mim]. A relação é quando você diz que você é mulher… Quando as pessoas dizem que você é mulher, é porque elas te tratam como mulher. Se uma pessoa é homem, as pessoas a tratam como homem. A maior diferença é como as pessoas nos tratam, né? Porque se você se veste de uma maneira um pouquinho mais masculina, as pessoas vão dizer: “você está parecendo menos mulher”. Então, elas já não sabem mais como te tratar. Então, ser homem ou ser mulher é mais ou menos a forma como as pessoas nos tratam. Até me perdi agora, qual foi de novo a pergunta?

Move That Jukebox: Perguntei se você acha importante um artista ter discurso?

Linn da Quebrada: Ah! [Retoma o pensamento] Qualquer coisa que fazemos já é discurso. Já induz a forma como as pessoas nos tratam, já induz a qual o olhar. A nossa imagem gera efeitos. Isso numa pessoa que não é artista. Ou o que é ser artista? Para mim é criar sobre a sua própria existência. Então, eu acho que um artista ou uma artista, linguagem, que a gente sempre universaliza o masculino, por exemplo, a gente pode falar das artistas. Das pessoas enquanto artista e tirar o masculino como este ser universal, isso já é uma mudança e uma interferência na linguagem. Isso já é discurso. Você se posicionando de forma neutra você já está posicionando a favor de um masculino. Você já está se posicionando e já está colocando um discurso, querendo ou não, ofensivamente ou não, violentamente ou não, heteronormativo. Sempre estamos produzindo discurso. Eu já acho que não é possível fazer uma coisa sem posicionamento sobre isso.


Move That Jukebox: Como é que você criou sua própria imagem? [Nota: a pergunta foi mal reformulada na hora, mas queria perguntar sobre figurino, mas Linn mata e pau e dar uma ótima resposta!]

Linn da Quebrada: Tenho criado. Ela ainda não terminou. Eu tenho experimentado meu corpo, meu cabelo, os efeitos de se ser quem se é. E daí os efeitos de eu ser assim [aponta para a roupa], são uns, de ser de cabelo curto são outros, de ser afeminada são uns. Todas nós temos e produzimos efeito. Somos um veneno. Depende que veneno você que colocar nessas veias sociais. A gente pode pensar que somos veneno, mas estamos querendo matar quem? Ou podemos tentar matar um instinto homicida social, porque quem tem morrido com os efeitos de quem somos são as pessoas pretas, periféricas, são as pessoas dissidentes sexuais, são as pessoas que fogem de um a padrão. Esse é o veneno que temos colocados nas veias da sociedade. Ou podemos colocar um veneno que justamente mate o espírito opressor, uma atitude opressora. Podemos ser o veneno, ou podemos ser um antídoto na verdade, né? Eu coloco em cena tudo aquilo que algumas pessoas gostariam de matar. Mas meu corpo funciona como cura, antes de fazer qualquer coisa, eu faço isso para me manter viva.

Move That Jukebox: Você consegue imaginar a sua vida sem a música?

Linn da Quebrada: Consigo. Consigo [Olha para cima e reflete].

Move That Jukebox: Consegue? Quando você tiver velhinha você vai fazer o que?

Linn da Quebrada: Nem precisa ir tão longe. Eu consigo imaginar justamente… É muito mais fácil imaginar o trânsito. Imaginar que amanhã eu posso estar fazendo outra coisa, estar sendo outra pessoa, estar vivendo e descobrindo outras possibilidades em mim.

Move That Jukebox: Você é uma pessoa que não tem medo da transformação, né? Da mudança?

Linn da Quebrada: Do trânsito. Eu acho que se fixar, às vezes, faz com que a gente deixe algumas coisas velhas e caducas na gente e vá arrastado essas coisas, quando essas coisas estão mortas e necrosadas. O nosso corpo, essa é também uma coisas que eu sempre falo, mas eu nunca sei se é verdade [Fala com um sorriso na boca]

Move That Jukebox: [Risos]

Linn da Quebrada: Eu falo, se não for, é uma verdade que eu inventei. Dizem que o nosso corpo, todas as nossas células se regeneram a cada sete anos. Todas as células do seu corpo. Então, o que tem de você de sete anos atrás se tudo mudou? Eu acho que tem algumas coisas de pensamento que a gente mantém vivas e esses pensamentos e células, são células mortas que a gente continua carregando, como terceiras pernas que nos mantém fixas no conforto, mas nos mantém presas no mesmo lugar.
[Nota: Quase Linn! Na verdade, dependendo das células elas podem ser renovadas em até dez anos. E as células cerebrais não passam por este processo. Morreu, morreu e já era. O que explica algumas doenças, como Parkisson].