Entrevista: Apanhador Só

Quando chegar dezembro e as famigeradas listas de melhores discos do ano começarem a brotar, um nome já possui presença garantida entre os lançamentos nacionais: o Apanhador Só. Lançado há pouco mais de um mês, o debut homônimo dos gaúchos correspondeu muito bem à expectativa criada pelos dois ótimos EPs lançados previamente. Melodias marcantes, letras muitíssimo bem sacadas e ritmos e influências diversificadas são as tônicas do disco. Sofisticado sem deixar de ser pop, rock sem deixar de soar autenticamente brasileiro – e com um projeto gráfico sensacional.

Em turnê de lançamento do disco, o Apanhador Só parou para conversar com o Move That Jukebox durante a passagem por São Paulo. E num clima bem paulista, saboreando um PF numa esquina da Teodoro Sampaio, numa tarde de sábado, Alexandre Kumpinski (vocal e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra) e Martin Estevez (bateria) falaram sobre a surpresa com a repercussão do disco, sobre ser uma banda independente e sobre o que eles andam escutando de bom, entre outras coisas. Confira a íntegra abaixo, dividida em duas partes (“O disco e a turnê” e “A banda e a música”). (Ah, e se você ainda não baixou o disco, vá já para o site da banda e faça o download gratuito. Não acredite em produtor que diz que “download gratuito é pra música ruim”.)

O disco e a turnê

Como foram os shows da turnê aqui em São Paulo?

Felipe Zancanaro – Foram todos muito fantásticos. E surpreendentes também. No CCSP [Centro Cultural São Paulo], por exemplo, a gente achava que a galera talvez não fosse comparecer por ser em um horário complicado. Mas muito pelo contrário, na quinta-feira, que o show foi às 6h da tarde, muita gente colou pra assistir e no dia seguinte, que a gente tocou ao meio-dia, muita gente foi de novo porque tinha visto no dia anterior e gostado. Isso foi muito legal, a aceitação, a galera cantando as músicas junto…

Vocês tinham idéia de qual era o público do Apanhador Só fora do Rio Grande do Sul?

Felipe – Tínhamos em parte. Eu fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que sabiam as músicas, que estavam ali pela banda mesmo. E também as pessoas que não conheciam, viram o show e gostaram. Em Presidente Prudente, por exemplo, vi até mãe e filha juntas curtindo e comprando o CD, as duas igualmente interessadas na banda. Isso me surpreendeu muito. Quanto a esse público, de pessoas mais velhas ou mais novas, eu não tinha noção. Achava que o som atingia muito mais uma galera de faculdade, por causa das letras mais sofisticadas e tal.

Esse primeiro disco do Apanhador Só possui várias músicas que vocês já haviam lançado anteriormente nos EPs ou em gravações caseiras. Por que vocês decidiram regravar essas músicas?

Alexandre Kumpinski – É que o disco foi lançado pelo Fumproarte [Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre], e para participar desse edital, a gente precisava entregar uma demo. E a demo que a gente usou foi do Embrulho pra Levar [primeiro EP da banda]. Daí, como a comissão julgadora decidiu nos dar o financiamento por causa das músicas do Embrulho, teoricamente todas aquelas músicas tinham que estar no disco. A gente entrou com um recurso pra poder mudar algumas faixas, mas eles permitiram poucas mudanças.

A vontade da banda era fazer um disco só com músicas inéditas?

Alexandre – A gente queria manter pelo menos “Maria Augusta” e “Pouco Importa”. A banda era meio dividida quanto a isso, na verdade. Por um lado, a gente não queria ficar repetindo material, mas por outro, tinha muita gente que não conhecia a banda ainda. Então, se nós tínhamos músicas boas, valia a pena regravar e incluí-las no primeiro álbum, onde elas teriam mais visibilidade.

Felipe – E elas ganharam muito com a regravação, cresceram muito dentro da banda e musicalmente também.

Alexandre – Se a gente não estivesse “preso” ao edital, provavelmente o disco teria um repertório diferente, mas talvez tenha sido até bom ser obrigado a regravar as músicas. No nosso afã de querer gravar coisas novas, talvez não tivéssemos feito um disco tão bom.

Por que esse disco demorou tanto pra sair?

Alexandre – Primeiro, porque a gente tentou o edital três vezes. Só ganhamos na terceira. Daí já foi um ano e meio de atraso que a gente não esperava. A gente, no otimismo e na ingenuidade de quem está começando, achava que ia conseguir gravar logo. Nesse meio tempo, alguns membros da banda saíram, outros entraram, passamos por uma reestruturação. Aí, depois foi o tempo de gravar mesmo, que demorou também. Enfrentamos alguns obstáculos. O produtor [Marcelo Fruet] teve uma tendinite forte na mão e não podia trabalhar, nós também tínhamos outros compromissos… coisas que fizeram a gravação parar por alguns meses.

Felipe – Mas eu tenho a sensação de que o disco acabou saindo num momento muito bom. A gente parece estar mais preparado pra responder pelo disco. Talvez pelo processo ter sido demorado, nossa cabeça foi se acostumando com a idéia do disco enquanto ele estava sendo concebido. Agora, eu me sinto mais preparado pra responder pelo disco em todos os sentidos, em cima do palco, fora do palco…

“Prédio” ao vivo no SESC Santana em 27 de maio – imagens por Wagner Franco

Antes do lançamento, vocês tinham alguma expectativa de qual seria a repercussão do disco?

Alexandre – Alguma expectativa certamente a gente tinha, senão a gente nem teria gravado. Mas não imaginávamos que o disco teria essa repercussão que está tendo.

Felipe – É verdade, esse número de downloads… já está chegando a 4500, em menos de um mês de lançamento. São números muito maiores do que a gente imaginava. E isso nos faz sentir muito gratos pelas pessoas que estão baixando, gostando e mostrando para os amigos.

Alexandre – É difícil ter uma banda, tem que se esforçar muito, trabalhar pra caramba. Então quando você vê sua música se espalhando, correndo sozinha, dá uma sensação muito boa, um orgulho, e esperança de que a gente possa viver só disso.

Desde o início das gravações vocês já pensavam em disponibilizar o disco pra download gratuito?

Alexandre – Sim, isso nunca foi uma dúvida pra banda.

Felipe – O nosso interesse atual é que o maior número possível de pessoas conheça e escute nossas músicas, que as pessoas possam estar no show acompanhando e cantando as músicas junto.

Alexandre – E as pessoas compram o disco mesmo assim.

Felipe – É verdade. Isso também é um incentivo para esse lance que estava se perdendo de pensar na parte gráfica do álbum. Isso é uma característica do nosso disco, com os cards e a arte feita pelo Rafa Rocha [diretor da Revista NOIZE], e tem uma grande importância. É o que faz com que as pessoas comprem o disco.

Quem idealizou o projeto gráfico do álbum?

Alexandre – Foi o Rafa Rocha mesmo. Basicamente, a gente disse pra ele fazer o que ele quisesse, desde que fosse algo diferente. As ilustrações dos cards são do Fabiano Gummo, que é um ilustrador lá de Porto Alegre, amigo nosso.

Que música do disco vocês mais gostam?

Felipe – Eu tenho um carinho grande por “Balão-de-Vira-Mundo”. Tem uma jogada com tango ali no meio, que é uma coisa que eu queria muito fazer.

Martin Estevez – Eu gosto de “Um Rei e o Zé”.

Alexandre – É, essa é muito boa, acho que é minha preferida também.

Martin – Também gosto de “Peixeiro”, “E Se Não Der” – apesar de ser meio clichê, ela sempre tem uma energia boa nos shows –, “Prédio” e “Balão-de-Vira-Mundo”. Essas são as preferidas.

Alexandre – As minhas são essas também, tirando “E Se Não Der”.

A banda e a música

Quando o Apanhador Só foi formado, vocês tinham em mente o tipo de som que queriam fazer, o jeito que queriam soar?

Felipe – Não, e até hoje não temos isso. Como as referências e os momentos musicais de cada um são muito diversos, quando a gente se junta pra fazer uma música, cada um traz algo diferente. Talvez um dia a gente não soe mais tão rock, ou não soe mais tão MPB, não sei. Mas esse é o grande barato, é o que me motiva a pegar uma música nova e trabalhar, justamente porque a gente não sabe no que vai dar e não tem nada que nos obrigue a seguir um padrão de composição ou de arranjo.

Martin – Não temos um padrão pré-estabelecido e a banda nem busca isso. Simplesmente tocamos e o que acaba ocorrendo é a fusão das influências de cada um. E isso acaba conferindo, e vai conferir cada vez mais, originalidade para o que a gente faz.

O som da banda mudou muito com a mudança nas formações?

Alexandre – Acho que o som ficou um pouco mais pesado. A saída da percussão acabou abrindo mais espaço para as guitarras.

Felipe – Tem uma questão técnica também. A microfonação dos instrumentos de percussão nos shows era sempre muito difícil, então a gente tinha que aprender a tocar mais baixo pra valorizar a percussão. Com as mudanças, a batera pode aparecer mais, as guitarras começam a aumentar, e isso vai dando um ar mais rock ‘n’ roll. Mas é o momento , não quer dizer que isso não vá mudar algum dia.

Quem inventou aquela bicicleta-percussão que vocês usam no disco e nos shows? Ela tem um nome?

Alexandre – Foi uma criação meio conjunta. De fato, quem inventou a bicicleta fui eu, porque fui eu que montei o objeto, mas foi a Carina [Levitan, ex-integrante da banda] que desenvolveu a forma de experimentar a coisa.  Aquela era a bicicletinha do meu irmão, quando ele era criança. Daí passou para o meu outro irmão, depois passou pra mim. Lá em casa a bicicletinha se chamava Fofita. Mas aquela ali não é mais a Fofita.

Qual o significado do nome da banda?

Alexandre – O Marcelo Souto [ex-integrante da banda] que inventou esse nome, mas ele nunca nos disse de fato o porquê do nome. Aí a gente inventa um monte de respostas…

Martin – A mais clássica é a do Apanhador no Campo de Centeio misturado com “Marinheiro Só”, do Caetano Veloso.

O que vocês pensam sobre as gravadoras? Hoje em dia é mais fácil ser uma banda independente?

Felipe – Não sei, porque nunca fui de uma gravadora. O que eu sei é que eu gosto da forma como a gente se vira, como a gente escolhe as músicas pra fazer clipe, pra tocar na rádio, como a gente lida com as entrevistas, como a gente se sente a vontade com a gente mesmo, porque isso tudo é verdadeiro.

Alexandre – E tem outra, é muito mais legal botar o disco pra download gratuito no site, ver a galera baixando, curtindo e passando, saber que esse movimento vai por si só, do que se a gente lançasse disco por uma gravadora. Aí o disco vai pra loja e ninguém vai ter o disco. Quem é que vai na loja comprar o CD, pagar R$ 25? É melhor que role no boca a boca, num movimento espontâneo, do que saber que tem uma gravadora por trás, pagando pra tu aparecer, pra tocar na rádio. Jabá é a morte da cultura. Imposição de mercadoria cultural é um absurdo.

“Balão-de-vira-mundo” nos estúdios da Oi Novo Som em 20 de maio

O que vocês andam escutando?

Alexandre – Eu ando escutando Rafael Castro e Jorge Drexler.

Vocês escutam mais música brasileira ou música gringa?

Martin – Eu escuto meio a meio.

Felipe – Eu oscilo bastante também. Meu grande problema com música é abrir a pasta de mp3 e decidir o que escutar. Agora eu estou escutando Sondre Lerche, acho muito bom como ele faz as músicas dele. Outra coisa que eu descobri esses dias é Tahiti 80, que é muito interessante também.

E lá do Rio Grande do Sul, que bandas vocês destacam?

Felipe – O Cartolas é uma das bandas que eu mais admiro do Rio Grande do Sul. Acho o som deles muito bom. Eles têm um baita frontman que é o [Luciano] Preza, tem ótimos arranjos de guitarra e as harmonias misturam bastante coisa de música brasileira.

Vocês ainda escutam muitas comparações entre o Apanhador Só e o Los Hermanos?

Alexandre – Estão comparando cada vez menos. E agora, quando rola a comparação, é uma comparação mais consciente, mais responsável, estão contextualizando melhor. Mas não nos incomoda falar do Los Hermanos, porque é uma referência da banda mesmo, sempre escutamos. Quando o Bloco do Eu Sozinho foi lançado, a gente tinha 15 anos. É inegável que tenha alguma influência na nossa formação musical. O que incomoda é quando reduzem o Apanhador a uma banda que parece Los Hermanos, quando não somos só isso. Nem nos interessa ser só isso.

O rock gaúcho costuma ter um som bastante característico, muito ligado à região? Isso se manifesta no Apanhador Só de alguma forma?

Felipe – Acho que isso é uma coisa que está sumindo. Veja pelas bandas que estão surgindo agora, os rótulos estaduais estão indo pra banha com essa coisa da internet. Talvez a gente tenha mais contato com coisas do sul, então talvez isso apareça um pouco mais no nosso som, mas eu não vejo muita influência. Mas não que a gente não goste de ser gaúcho.

Alexandre – Tem aquela frase do Tom Zé que diz “Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”. A gente não segue nenhuma tradição. Essa nossa vontade de experimentar tem a ver com o “não ter medo”. E isso nos afasta um pouco da tradição do rock gaúcho.

Entrevista feita pelo talentosíssimo Eduardo Hiraoka, membro do extinto Untuned Blog e o mais novo integrante do Move That Jukebox.

  • Fellipe

    Nunca tinha ouvido falar, baixei e adorei!
    É bom ver que no brasil ainda tem banda boa!
    Não achei tão parecida com Los Hermanos assim não. A semelhança fica mais na mistura do mpb com o rock, mas acho que a banda se diferencia um pouco no ritmo.

  • Pingback: Apanhador Só concede entrevista ao Move That Jukebox! | Agência Alavanca()

  • Debora

    Conheci o som deles em 2008, quando eles tocaram em Curitiba, e virei admiradora da banda. É tão gostoso de ouvir, passar o dia cantarolando essas músicas… Maria Augusta é a minha favorita desde a primeira vez que ouvi, sem nem saber “quem” era a banda.

  • De fato, “talentosíssimo Eduardo Hiraoka”!

    Melhor transcrição de entrevista feita no testa-à-testa com a Apanhador até hoje. Obrigado por manter o texto fiel ao que foi dito, sem buracos lógicos ou colagens bizarras.

    Abração!

  • T

    Curti bastante! Quando vem ao Rio?

  • Poxa, baita entrevistão.
    Conheço o Apanhador desde 2006, e cheguei a pensar que a banda tinha terminado, quando fiquei sabendo do show no CCSP. Apareci lá com a namorada e me surpreendi com o disco novo. Fiquei muito feliz de saber que não acabou.
    Me arrependi demais de não ter ido no SESC Santana tbm…
    Sucesso aos meninos! Além de fazerem um som muito bom de se ouvir, são gente fina demais.
    Próxima parada em São Paulo estarei presente de novo, e com amigos pra apresentar à banda!

  • Cara! Conheci a banda no dia do show no sesc Santana, e não me arrependo. Letras inteligentes e criativas, melodia contagiosa… enfim, criatividade pulsante em cima do palco.
    Até uma participação especial de um aro de bicicleta rolou

    Banda 10!

  • Que prazer é encontrar uma banda com tantas qualidades sonoras.
    Confesso, ainda não consegui assimilar tudo, é tanto colorido musical que a vontade é de escutar sem parar, brincando de reconhecer timbres… Se fosse só isso já bastaria mais a poesia das letras é um outro universo a se explorar tão rico quanto o da melodia. Não vejo a hora de assistir ao show!

    E quanto a estratégia do “Donwload Gratuito” funciona perfeitamente com quem gosta de música de verdade, não só eu mas todas as pessoas a quem apresentei o Apanhador Só comprariam o Albúm físico.