Entrevista: A contribuição dourada de Boss in Drama para a música pop brasileira

Você consegue entender o tamanho do Boss in Drama? O jovem Péricles Martins, produtor por trás de todo o projeto, precisa ser reconhecido pelo mérito de ter criado um disco divertido, conciso e, com o perdão do trocadilho, realmente precioso na história da música brasileira. Pioneiro nacional numa sonoridade que vem conquistando clubes no mundo inteiro, Boss in Drama lança o seu álbum de estreia posicionando o Brasil na rota produtiva de nu-disco, electro-funky, electro-pop ou algo que vague nesse universo – e soe como uma autêntica lembrança de Daft Punk, Chromeo ou Breakbot em poucos segundos. Pode parecer que estamos a frente de mais uma trilha praquela festa ensolarada na piscina, mas foi por acreditar que “Pure Gold” é muito maior que o Move bateu um segundo papo sério (lembra do primeiro?) com o cara. Acompanhe.

Move That Jukebox: Disco lançado, Boss! Receba os nossos parabéns! Como você se sente agora? Pure Gold é um produto fiel ao Boss in Drama? Ficou tudo do jeito que você planejou?

Boss in Drama: Quando comecei a escrever Pure Gold, não quis fazer só mais um disco de festa – mas sim um trabalho homogêneo, animado e pop, que contasse uma história e fizesse sentido no conjunto da obra “Boss in Drama”. Acho que isso faz toda a diferença, pois hoje em dia tem tanta música, estilos e artistas diferentes que você tem que abraçar sua originalidade e tentar fazer um trabalho mais honesto e verdadeiro possível.

MTJ: Quem esteve com você no processo de produção?

BnD: A Christel Escosa participou do processo criativo, co-escrevendo e cantando em algumas faixas no disco. Teve featuring da Laura Taylor, do Bonde do Role, na faixa “Let Me Be”, a mixagem foi feita por mim e pelo Rafael Ramos e a produção musical e direção artística foi toda minha. Durante o processo de produção, vários amigos ouviram e deram palpites. Isso é importante porque, quando se trabalha sozinho, você precisa de uma voz guia ou alguém pra falar “Chega, isso já esta bom”. Hahahaha!

Boss in Drama no estúdio

MTJ: Uma das faixas que mais nos chamou a atenção em Pure Gold é “Disco Karma”. A voz da Christel é incrível! Ela tem algum projeto solo?

BnD: A Christel já teve projeto de música, mas que nunca foi oficialmente lancado. O Pure Gold foi o primeiro trabalho oficial em que ela participou, e eu fiquei muito orgulhoso do resultado. Ela é uma das pessoas mais talentosas com quem já trabalhei.

MTJ: Como é trabalhar com o selo Vigilante e a Deckdisc? A experiência tem sido proveitosa pra você?

BnD: É muito bom trabalhar com pessoas que confiam no seu gosto e acreditam no que você faz. Eu sempre tive total direção criativa trabalhando junto com eles, e isso é o mais importante – ter pessoas do seu lado que acreditam na sua visão e estão dispostas a crescer junto com você.

MTJ: Durante o Jukebox Festival, você fez o seu primeiro show com banda. Como frontman, qual a diferença em se apresentar assim e no seu live solo? Em que caso o público reage melhor?

BnD: O live solo eu fazia no começo do Boss in Drama, e chegou um momento em que precisava evoluir. Não fazia mais sentido fazer aquilo. O live com banda é muito mais interessante, pois tem toda uma estrutura e profissionalismo por trás – não sou só eu cantando com um microfone sobre uma base pré-programada.

Boss in Drama no Jukebox Festival

MTJ: Você curte disco music e gravou um disco repleto de referências desse universo. Vemos essa sonoridade contagiando o trabalho de uma série de outros artistas hoje, principalmente lá fora. Você acha que essa definitivamente é a era do nu-disco?

BnD: Sei que existe essa tendência, mas acho que chamar de “era nu-disco” é um exagero. Sempre têm hits e músicas ótimas que aparecem e que têm influências da disco, tanto no pop quanto no eletrônico. Não creio que existe um grande movimento da “volta da disco music”, mas sim as influências que sempre estiveram ali – só esperando alguém se inspirar e fazer um trabalho legal, inspirado no groove e no funk!

MTJ: Existe mais gente nova compondo disco/funky music de forma autoral no Brasil?

BnD: Não diria compondo disco ou funky no sentido duro da palavra, mas tem bastante gente que coloca essas influências no próprio trabalho pra criar algo novo! Twelves e Database tão fazendo um ótimo trabalho ultimamente, inspirado nos grooves.

MTJ: Essa ode ao universo estético da década de 70 e 80 é clara no seu disco e compõe uma tendência mais abrangente, que é a valorização do universo retrô. Quando tudo já tiver sido reciclado, o que você acha que os artistas começarão a fazer? Essa paranóia de tentar se antecipar e pensar no próximo passo sempre é uma constante no seu trabalho?

BnD: Acredito que quase tudo na música já foi criado e reciclado. Os artistas do nosso tempo estão mixando cada vez mais referências, e isso vai continuar acontecendo – a não ser que algo completamente novo e revolucionário apareça, como quando o punk ou a música eletrônica surgiram. Não creio que possa acontecer algo tão revolucionário pra história da música nos próximos anos, mas se rolar, espero estar vivo para acompanhar! Hahaha!

Péricles fazendo uma boquinha com o Hercules & Love Affair

MTJ: O clipe de “I Don’t Want Money Tonight” foi lançado recentemente. Você toca com uma banda composta integralmente por garotas no vídeo. Era essa a sua ideia inicial para a formação da banda?

BnD: Sim, mas é raro encontrar meninas estilosas, que toquem bem e curtam esse som. Por isso escolhi uma banda fake de modelos pro clipe.

MTJ: Eu mostraria fácil o seu disco para a minha mãe e não me surpreenderia se ela curtisse muito. Acho que pra essa geração que viveu os tempos de discoteca, paetê e globo espelhado o Pure Gold pode soar bastante familiar. Isso é interessante porque, de certa forma, torna a sua música mais acessível. Você tinha essa intenção? Seus pais, seus tios ou pessoas mais velhas já tiveram alguma reação parecida?

BnD: Eu misturo muitas referências dos anos 70, 80 e 90 que acabam soando familiar pra quem viveu a época. É essa a graça de tudo – trazer o groove para a nova geração, não de uma forma retrô e antiga, mas sim de uma forma nova, fresca e cheia de referências.

MTJ: As suas músicas, as suas fotos e a forma como você se promove têm um aspecto gringo muito caprichado. Mas alguns detalhes estéticos evidenciam que Boss in Drama é de fato um artista brasileiro. Um exemplo é a suave levada bossa de “I Don’t Want Money Tonight”. Essa preocupação da identidade nacional, da sonoridade levemente “abrasileirada”, realmente existe para você?

BnD: O groove da bossa nova e os metais do Tim Maia foram grandes influências pro disco. Com o Pure Gold eu tentei misturar influências que não estão muito presentes na música eletrônica atual – algo que soe familiar mas ao mesmo tempo super fresh aos ouvidos!

MTJ: Quem seria o featuring ideal para alguma faixa do seu disco?

BnD: Prince, Ru Paul ou Janet Jackson!

MTJ: Quais seus próximos planos para promover Pure Gold? Algum novo single ou videoclipe no forno?

BnD: O próximo single será Disco Karma!


Tenda eletrônica do Rock in Rio no momento do live do Boss in Drama

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Ainda não ouviu Pure Gold? Corrija esse erro agora e escute o disco na íntegra:

  • Para mim, o melhor artista nacional atualmente.

    O mundo inteiro tinha que escutar esse disco, faria todo mundo mais feliz.

  • comprarei! 🙂