Entrevista: Câmera

O início da Câmera não é muito diferente de outras bandas por aí. Alguns conhecidos tocavam em bandas diferentes e no final das contas acabam tentando alguma coisa juntos. O grupo, no final das contas, é a soma de parte de Colorido Artificialmente, Moldest, Verona, Seu Garcia, Monno e Minimideia.
Se, por um lado, a origem não foge do comum, o resultado da nova banda não é nada ordinário. Com dois EPs no bolso — Invisible Houses e Not Tourist —, a banda já alcança um reconhecimento no cenário alternativo. O EP Invisible Houses, por exemplo, rendeu um ótimo 67º lugar entre os melhores álbuns nacionais na lista do Rockinpress. Se a posição já é de chamar atenção, que dirá o segundo lugar alcançado com a faixa “Isles”, que ficou atrás apenas de “Não Existe Amor em SP”, do Criolo, na lista de melhores músicas do ano.
Em entrevista ao Move, André Travassos falou sobre o início, as gravações e sobre como sobreviver de música no cenário alternativo brasileiro. O Câmera ainda é composto por Bruno Faleiro, Matheus Fleming, Gustavo Simoni e Henrique Cunha.
A banda começou com você e o Bruno Faleiro na época em que você morava em Paris e o Faleiro estava em Belo Horizonte. Vocês já se conheciam antes ou foi alguma coisa que rolou pela internet?
Eu e o Faleiro dividíamos o mesmo estúdio na casa do Ícaro, que até então era baterista do Moldest, banda em que eu tocava, e guitarrista do Verona, banda em que o Faleiro era baixista, guitarrista, vocalista e entertainer. Ensaiávamos no sábado: primeiro Moldest e depois Verona. Muitas jams sessions rolavam e acho que foi a partir dessas experiências que surgiu a vontade de termos uma banda juntos.
A banda chegou a começar de forma prática, com músicas, trocas de ideias formais com os 9 mil km entre os dois ou ficou mais no campo das ideias mesmo?
Quando eu cheguei em Paris, já estava sentido muita falta de tocar. O Moldest havia acabado seis meses antes e eu estava sem ensaiar/compor desde então. Foi um tempo para reciclar mesmo, absorver novas influências, entender o tipo de música que eu estava disposto a fazer e, principalmente, com quem eu estava a fim de montar um novo projeto. O Faleiro foi uma das pessoas com que eu mais me comuniquei nessa temporada na França. Nossas conversas eram sempre sobre discos, os shows aos quais eu tinha ido, discos e artistas que estávamos descobrindo, etc. E logo surgiu a ideia de montarmos uma banda tão logo eu voltasse. Foi o que eu precisava para começar a compor coisas novas. A partir de então fui mandando essas ideias, gravadas em um laptop com microfone de bate papo, para ele. Uma semana depois que voltei estávamos no apartamento dele desenvolvendo as ideias.
Primeiramente, queríamos um nome que fosse de fácil entendimento em qualquer língua. Depois, que esse nome nos representasse de alguma forma. Como somos todos cinéfilos e alguns de nós até trabalham com produção de audiovisual, esse nome caiu como uma luva.
Vocês têm apenas dois EPs e já conseguiram uma repercussão legal. Vi que estavam planejando um LP ainda para 2012. Como está o processo? Estão gravando? Deve rolar para este ano?
No momento estamos começando a compor o que será nosso novo disco. Desta vez, um disco cheio. A ideia é lançá-lo no segundo semestre de 2013. Estamos a todo vapor no estúdio, experimentando, gravando e testando novas possibilidades. Queremos compor o máximo de músicas possíveis para que no próximo ano possamos escolher quais estarão à altura para estar no novo disco. Em paralelo, continuaremos a tocar os dois EPs anteriores e sempre experimentando algumas músicas novas ao vivo. Já é possível ver duas delas nos shows, “Till Life Do Us A Part” e “Feel Good Lost”.
Como a sonoridade da banda se formou? E quais são as influências atuais? Imagino que isso varie de integrante para integrante.
Com certeza nossas influências são diversas e variam sim de integrante para integrante. De qualquer maneira, elas não foram determinantes na formação da banda, na escolha dos integrantes. A gente escuta muito rock alternativo dos 90. Bandas como Sonic Youth, Dinosaur Jr, Radiohead, Pavement, mas também escutamos muito folk, jazz e música brasileira. Muitas pessoas acham que por cantarmos em inglês renegamos a produção musical nacional, o que é uma grande mentira. A música é livre e cada um faz o que quer, no ritmo e no idioma que bem entender.
A banda é influenciada por outras coisas que não música? Pergunto isso pelo nome da banda, até. A imagem tem uma influência forte para vocês, além de sons na hora de compor?
Sim. A coisa do cinema é muito presente. Sempre que podemos colocamos projeções nos nossos shows. Gostamos de pensar que toda música é um lugar. Que, ao fechar os olhos e escutar, você será transportado. Além da influência incontestável das relações humanas pelas quais passamos ao longo da nossa vida. Isso sim é uma baita influência para nós.
Não, todos nós trabalhamos em paralelo. O Faleiro é jornalista, o Matheus é formado em artes plásticas e trabalha na área, eu sou designer free lancer, o Henrique trabalha na administração de uma fábrica de sorvetes e o Gustavo, além de fabricar cervejas artesanais, dá aula de bateria e trabalha com audiovisual.
O que você acha que é preciso para que a banda seja autossustentável? Qual é a chance de uma banda alternativa nacional poder se sustentar?
Primeiramente, você tem que acreditar no seu trabalho e se esforçar para trabalhar da maneira mais profissional possível. Isso vai abrir muitas portas que vão te dar condições de manter a banda sem precisar tirar dinheiro do seu bolso. Entretanto, isso não significa que vá pagar suas contas ou garantir o padrão de vida que você sempre sonhou. É complicado, não existe uma fórmula. Nós músicos nos esforçamos muito para fazer algo legítimo e interessante, mas vemos que as pessoas dão muito mais valor pra um tipo de som descartável, bandas covers, etc. É preciso ter um pouco de sorte e boas conexões. Mas, acima de tudo, muita força de vontade. Agora existem muitos artistas que vivem às custas de leis de incentivo e dessa forma garantem seu sustento. Sustentamos a opinião de que uma vez contemplado com os benefícios da lei, esse mesmo artista deveria somente estar apto a inscrever um novo projeto depois de dois anos.



