Entrevista: Em novo disco,Cícero aparece político, mas sem ser panfletário. Quer ver?

Cícero. Foto: Eduardo Magalhães/Divulgação

No final do ano passado, Cícero Lins lançou seu quarto disco, Cícero & Albatroz, o primeiro disco em que usou de um trabalho conjunto com uma banda de verdade. Sim, ela trabalhou as melodias e arranjos em um processo coletivo, o que é uma novidade para o artista. Por conta disso, fizemos uma entrevista pelo telefone em que ele comenta esta novidade, o retorno para o Rio de Janeiro, depois de dois anos em São Paulo, a fase ruim que a Cidade Maravilhosa vive neste momento, política, música e mais!

Move That Jukebox:  Oi, Cícero! Bom, vamos lá! Esse disco com o Albatroz, é um disco com uma banda, né? Pelo menos, no disco anterior, ficava claro que você estava fazendo um trabalho solo. Como que foi esse processo para você, que sempre trabalhou sozinho?

Cícero: É que na verdade essa banda ela foi se transformando numa banda com a estrada, né? A gente já toca junto com a banda desde 2011. Mas eu ainda estava no processo de compor muito de casa, com os meus computadores e os instrumentos em casa. Com a estrada a gente foi criando um prazer em dividir as ideias, os arranjos. E eu percebi que as próprias músicas ficavam diferentes de testar com a banda e tocar. E eles já têm uma personalidade musical, que é você juntar aquelas pessoas . Então, a ideia [dessa vez] era fazer isso desde o começo, desde os arranjos. Então, a gente se juntou no estúdio e fez todas as músicas juntos.

Move That Jukebox: E você está morando em São Paulo? Está indo e vido do Rio?

Cícero: Cara, eu estou morando no Rio agora. Morei dois anos em São Paulo, voltei no final do ano passado e agora estou morando aqui de novo.

Move That Jukebox: Então, eu assisti o clipe de “A Cidade” e eu queria saber se ela é uma música mais para São Paulo ou para o Rio?

Cícero: Na verdade ela é uma música do que eu vejo como um denominador comum nas duas cidades, sabe? Porque quando eu gravei “A Praia” eu tinha acabado de ir para São Paulo, então eu estava com uma memória muito forte do Rio de Janeiro. E agora eu voltei para o Rio, depois de dois anos em São Paulo, muito com São Paulo ocupando a minha cabeça. Quando eu voltei pro Rio, eu voltei com um olhar mais paulistanos das coisas. Vendo a parte urbana da cidade como um aspecto comum mesmo de todas as cidades que eu já morei. E eu já morei fora e essas cidades grandes elas são muito parecidas entre si. Esse caos.

Move That Jukebox: E o Rio está passando por uma fase super complicada. Semanada passada eu estava na SIM São Paulo e a Fabiane Pereira, que você deve conhecer, do programa Faro MBP, comentou que vocês estão agora com três ex-governadores presos, a cidade está com um sério problema de budget.  Queria que você comentasse como que você está vendo isso e como que a gente consegue mudar isso no Rio?

Cícero: Cara, a Rio de Janeiro tá bem caótico, sim. Mas eu acho que ele sempre foi. O Rio de Janeiro é exatamente isso. Não acho que pirou nem melhorou nada. O que eu sinto é que uma cidade grande ela tende a inflar os problemas mais rápido do que as soluções. As soluções demoram muito numa cidade [grande], porque é muita gente em um espaço geográfico muito pequeno. Eu acho que um dos maiores problemas hoje em dia é a nossa visão noção de cidade mesmo. De centro urbano. E isso implica no capitalismo, implica na saúde, na educação, implica em tudo. Porque tá todo mundo montado num espaço que gera guerra de classe, guerra de grupos, guerra ideológica, guerra pela convivência forçada numa situação que é desconfortável. Agora a questão política do Rio de Janeiro sempre foi isso assim.

Move That Jukebox: E qual que você acha que é o caminho para se conseguir colocar as coisas no eixo?

Cícero: Cara, que acho que o primeiro de tudo é entender e lidar com a indiferença. Há uma indiferença urbana muito grande, assim. De todo tipo, sabe? De uma religião para outra, de um partido para o outro, de um grupo social para o outro, de uma cor para a outra, de uma cidade para outra. Existe uma indiferença entre diferente muito grande. E isso se reflete em tudo, até na política, o político só está pensando no grupo dele. Que no caso é dos outros políticos. Todas as questões são tratadas muito alienando o próximo. Eu acho que a solução partiria de todos nós pensarmos que estamos no mesmo espaço geográfico e precisarmos fazer isso dar certo. Como que a gente faz isso daqui ficar bom para todo mundo. Para você que é branco, para você que é negro, [inaudível], para você que é bandido, para você que é pobre, para você que é rico… A gente tá aqui, todo mundo junto na mesma cidade e aí como é que resolve? As soluções pontuais vão se pondo. Mas, enquanto as pessoas ficarem pensando na sua galera, no seu interesse, não consegue se achar nenhuma solução. É mais um problema a mais para que se resolva. Eu acho assim.

Move That Jukebox: E estamos no mesmo lugar, no mesmo mundo também, né?

Cícero: Ah é, quanto mais você aumentar a lente, você vai ver que é mais gente ainda. Mas eu acho que numa escala global, eu até entendo, você perder a comunicação, porque você talvez nunca foi naquele lugar, nunca teve uma relaçao com aquilo. Então, realmente, talvez te comova menos uma guerra na Coreia do Norte, do que uma guerra no seu bairro. [Inaudível] Você tem uma rua onde o padrão de vida é de Londres e no final da rua você tem a Síria, sabe? No mesmo quarteirão você tem pessoas vivendo uma qualidade de vida super desumana e no final da rua você tem uma galera vivendo num castelo . Isso é uma força de indiferença, sabe? Que só vai dar problema. Solucionar este problema você não soluciona… resolvendo com paliativos.

Move That Jukebox: E sobre música? Eu vejo o pessoal reclamando bastante sobre os espaços para tocar no Rio de Janeiro.  Você está em outro patamar, não deve sofrer certas complicações, mas você ainda é um artista meio que independente, você cuida muito da sua carreira. Como está o Rio agora para tocar?

Cícero: O Rio está em crise em tudo, né? Então, a crise afetou tudo, o show, o teatro, a padaria, o supermercado. Tudo isso, sabe? E uma das primeiras coisas, que as pessoas cortam quando estão com um pouco de medo realmente é o gasto com lazer. No caso, de show é lazer. Ao invés de comer ou pagar o plano de saúde. Então, não é um grande momento para tocar mesmo não. E o Rio de Janeiro tem esse problema que as outras cidades não se comunicam, porque como é muito perigoso e o transporte também é ruim, as pessoas de outras zonas da cidade não vão até um show no centro, entendeu? Pessoal da Zona Norte, Zona Sul, da Baixada Fluminense, é tudo muito segregado. Então, diminui a quantidade de público. É uma cidade difícil mesmo.

Move That Jukebox: E voltando para o disco. Eu achei este disco mais festivo, mais para cima. Eu vi até uma pessoa no Youtube reclamando que sentiu falta da melancolia dos discos anteriores. Me fala então, como que foi esse processo. Você também trabalhou com o Victor Rice, de procurar mais assim, mais “animadinhas”, assim?

Cícero: [Pausa]. Então, o Victor Rice eu conheci mixando “A Praia”, que é disco anterior e a gente ficou amigo. E ele acabou me mandando duas músicas quando acabamos o disco e falou: “Olha cara, vê aí o que você pensa. Se você faz alguma coisa com isso”. E uma delas era um ska. E eu peguei e pensei: Vou pegar esse trabalho aqui e fazer alguma coisa e daí virou “A Cidade”, que é em ritmo de samba. E o projeto de gravação do disco foi justamente isso. Juntar um grupo de músicos que já tinham uma intimidade, já tinham uma sonoridade, entrar no estúdio e ensaiar as músicas que eu tinha feito no princípio básico, sabe? Melodia, harmonia e criando junto. E acabamos chegando num resultado coletivo feito sei lá, a dez mãos.

Move That Jukebox: Pelo visto rolou uma grande celebração para fazer esse disco.

Cícero: Ah! Foi ótimo! Foi o processo mais legal de todos. De todos os discos que eu fiz. É um disco com o processo mais agradável. Com conversa, bate-papo, você toca, tem uma opinião ali na hora. É uma dinâmica de banda, é o que toda banda faz, mas como eu sempre fiz discos solos, eu tinha esquecido. Porque antes dos discos solo eu também tive uma banda e foi até a faculdade acabar. Então, eu tava com saudades desse processo. Foi muito agradável.

Move That Jukebox: Eu também achei um disco curto. Ele tem dez músicas, mas tem menos de 30 minutos. E é mais ou menos o tempo que tem os seus outros discos. Você acha que essa é uma tendência de fazer discos um pouco menores?

Cícero: Não sei. Para mim, na verdade é um toque mesmo. Faz um disco com dez faixas , que tenha entre 30 e 35 minutos. Mas tem a ver com o eu processo criativo. Eu faço música o tempo inteiro e aí quando eu vou gravar um disco, que eu acho que já tem uma quantidade sificiente e que eu acho que eu já toquei bastante aquele disco e que já dá para fazer um show diferente e tal, eu vou e vejo o que eu tô produzindo. Nem tudo é o que eu gosto ou tem uma ideia clara. Então, eu prefiro empacotar isso de alguma forma. E eu ainda não tenho a intenção de fazer single, ou fazer uma música só, ou um EP. A minha forma de fazer é sempre reduzindo ao mínimo essencial, sabe? O mínimo importante de cada coisa. Eu prefiro então tirar do que fazer músicas falando sobre a mesma coisa. Por isso, os meus discos também são diferentes. Nenhum é uma continuação do anterior.

Move That Jukebox:  Uma tendência diferente do que você está fazendo. O pessoal tá fazendo muito single, muito videoclipe, música solta.

Cícero: Era isso que eu tava tentando de explicar. Existem vários outros tamanhos de ideias. E tem o cara que faz uma música e é só aquela música ali. E tem um cara que pensa o álbum duplo. Então, a forma que eu penso é só uma forma de organizar a ideia, sabe?

Move That Jukebox: E já eu u falei do clipe. Queria saber onde é que ele foi gravado como é que foi gravar? Por que ele tem um aparato, embora ele seja bem simples.

Cícero: A ideia básica era ilustrar a letra da música de alguma forma e ideia que eu tive era de virar um carro no Ministério do Trabalho aqui no Rio de Janeiro, deitar do lado e cantar. Mas que isso não fosse panfletário, que não fosse a grande coisa do clipe. Que o clipe tive a cena e que cada um interpretasse de um jeito. E o operacional foi esse. A gente deitou o carro no Ministério, não na frente, porque senão ia dar problema. Daí, eu deitei na rua, chamamos uns fãs, arrumou uma ambulância e fez um plano sequência. Então foi mais a ideia de um recorte de realidade e não de um filme.

Move That Jukebox: E por que na frente do Ministério do Trabalho?

Cícero: Por causa de todas as coisas que estavam permeando o ar quando eu estava fazendo o disco e essa música. Essa questão trabalhista estava sendo muito agredida em vários aspectos. Reforma da previdência, questão trabalhista que mudava a relação patrão-empregado, a coisa da legislação do trabalho escravo… E toda essa questão do empregado-empregador estava passando por uma turbulência bem negativa nesse governo.  E aí, eu tava pensando em fazer uma coisa, que tenham a ver como que a letra fala e para quem usa a cidade. Então, para quem trabalha essa questão é relevante. Então, eu tive essa ideia de fazer essa ficção científica/protesto. E eu fiz isso, deitei do lado do carro, sem estar machucado, mas muita gente ainda pensa que tem alguma coisa a ver com o carro. E aí, cada um pensa alguma coisa. E isso é que o legal. O que a pessoa pensa do clipe mostra a opinião que a pessoa tem sobre as coisas, né? Então, é muito revelador.

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