Entrevista: Circo Motel

circo motel

O Circo Motel saiu de “Desculpe o auê”, rock de Rita Lee, para “É um auê, ê, encontrar você”, o ritmo dançante do Cheiro de Amor. Mas calma, não tem nada de axé music ali no disco, auê (2016) segundo álbum do grupo, que está oficialmente para streaming nas plataformas digitais e será lançado nesta sexta (22) de abril, no Sesc Pompeia, pelo projeto Plataforma. (Escute ao final da entrevista).

A banda investiu em muito funk e soul no álbum, que foi gravado no estúdio Traquitana, comandado por Cris Scabello e Maurício Fleury, ambos do Bixiga 70. O primeiro, Cris, ficou responsável pela produção do álbum e segundo Rafael Gregorio, vocalista da banda, foi responsável por ajudá-los a chegar a sonoridade que a banda almejava neste segundo álbum. Na banda ainda temos  Felipe Seabra (baixo), Rafael Charnet (guitarra), Rodrigo Machado (guitarra) e Thiago Coiote (bateria). No show, participações especiais de Irina (Garotas Suecas) e Saulo Duarte.

Eles apresentaram o disco para imprensa na última segunda-feira (11), – as fotos estão lá no nosso Instagram –  no próprio estúdio e nós aproveitamos para bater um papo com o Rafael e o Rodrigo Machado (guitarra) nas escadas do estúdio. Falamos sobre o processo de criação, as dificuldades de ser uma banda independente, sobre política e até sobre um próximo disco. Confira:

Move That Jukebox: Quando vocês foram apresentar o disco, você especificamente [Rafael Gregorio], falou de perrengues de ser uma banda independente. O que aconteceu nesse meio tempo?

Rafael Gregorio: Ah, a gente produziu todo o disco sozinho e a gente tá gravando numa estrutura diferente de uma  banda de rock, de onde a gente veio, assim… A gente tem metais, a gente tem percussão e isso tudo aumentou muito em finanças e muito em trabalho de produção. A gente também fez o disco praticamente com dinheiro privado. Agente até pensou em edital, mas a gente falou: “Não, vamos fazer com a nossa grana” e tivemos que fazer um Catarse [Nota do editor: site especializado em crowndfunding] para conseguir metade da grana, que foi essencial, senão a gente não teria conseguido prensar os CDs e os discos em vinil. E foi um ano bem intenso emocionalmente também na vida de cada um. As coisas continuaram meio cabulosas e meio intensas.

2015, o que aconteceu? Plutão tá ali ó…

Rafael Gregorio: 2015. Um ano e tanto, né? Parece um grande ano desde 2013. Enfim…

Depois conversamos sobre isso, ok? [Risos] Sei bem do que você está falando. E eu vi que muitas bandas estão pensando em lançar os discos em vinil e também tem bandas lançando em K7. Era uma vontade de vocês mesmo lançar em vinil?

Rafael Gregório: Tinha essa vontade muito grande e era um dos pressupostos do disco.

Rodrigo Machado: É porque assim, as coisas que a gente queria atingir com a música, pensando na música era… É que as nossas referências eram da época do vinil e a gente pensou o álbum como um vinil mesmo, assim. Não sei se você teve essa percepção, mas tem um lado A e um lado B claramente assim. A gente produziu aqui, a gente gravou ao vivo a cozinha da banda, como se gravava…

Rafael Gregório: É esses foram os pressupostos. Desde o começo a gente queria algo que fosse ao vivo, que fosse orgânico. Se você ouvir com fone, você vai ver que tem erro, eu desafino… Tá acontecendo ali. Seres humanos. E a gente queria algo que dentro do vinil, lembrasse aquelas coisas que a gente ouvia em vinil.

Rodrigo: E tem outro ponto também. A música virou música ambiente 100% do tempo e aí, com o vinil, com parar para ouvir uma coisa assim… A gente queria fazer um álbum mesmo. Com a intenção da pessoa parar um momento e ouvir. Eu, pelo menos, tenho essa coisa comigo, de parar e ouvir um álbum, porque quando você começa só a dar pílulas assim sai um pouco da coisa pensada como um todo, sabe? E a gente começou a amarrar as coisas, com as referências, com o formato que a gente queria fazer, como o que a gente queria fazer para a arte do disco, que é uma tela pintada. Tudo foi nesse conceito de ser verdade mesmo.

cico motel - auê - capa

E vocês acabaram mudando um pouco o som de vocês, antes era mais rock e agora vocês estão trabalhando com o Cris [Scabello, do Bixiga 70, que produziu o álbum], então ficou um pouco mais dançante, tem bastante Jorge Ben. Então, porque resolveram fazer essa virada?

Rafael: Eu acho que a gente já tinha feito essa virada antes do primeiro disco, Sobre Coiotes e Pássaros (2011), só que tem um delay entre a influência e a criação. E foi até um delay meio doído, porque foi o tempo que a gente escreveu muita coisa, que a gente simplesmente jogou fora e ficou puto consigo mesmo assim, porque demora pra… A gente vem do rock, Rua Augusta, Outs, tal, só que a gente já ouvia essas coisas. Desde 2011, 2012, já estávamos ouvindo muito James Brown, Jorge Ben, foi legal você falar dele, Otis Redding…

Rodrigo: A gente foi crescendo musicalmente, porque a gente é aberto a ouvir várias coisas e naturalmente a gente começou a não refletir mais aquilo que a gente tava ouvindo e daí para você colocar isso para fora é um tempo e pra ser natural. Na verdade, a gente pirou na coisa do natural, do orgânico.

Rafael: A gente costuma brincar que o disco é uma foto em movimento. A gente tava indo pra aquele lugar, mas tava no meio do caminho. Coisas de antes e tinham coisas apontando para depois. E agora com a participação do Cris, ele entendeu perfeitamente onde a gente queria chegar emocionalmente e musicalmente, e ensinou alguns caminhos, coisas que a gente não sabia.

E essa demora para lançar o segundo disco? Porque só em 2016 veio esse?

Rafael: Então, desde 2013 está esquisito, mas assim, pra gente tá esquisito desde 2011. A gente teve um período muito difícil depois que a gente lançou o Sobre Coiotes (…). A gente lançou o disco em 2011 e no final de 2012 a gente fez o Prata da Casa [Nota do editor: projeto do Sesc Pompeia, que apresenta novas bandas em apresentações gratuitas todas às terças na Choperia] e a gente teve muitas tretas de vida, mortes, doenças, vícios, sei lá! Cada um teve seu inferno e separações e o disco acabou sendo a nossa âncora até. Tipo, na época que a gente tava mais na merda, que muitas bandas talvez tivessem se separado, a gente fez o contrário e falou: “Meu, vamos fazer as músicas então  e salvar, porque tá foda”. E isso tomou um tempo. Foi isso.

Rodrigo: Era a única coisa que a gente tinha para fazer na época para banda, falando da banda, na época, quando a gente perdeu o baterista, que é o Coiote, que acabou gravando esse disco, o auê. A gente ficou: “Puta e agora? Tava tudo tão lindo”. A gente já estava traçando um caminho e aí teve uma baixada. Enfim, tinha uma coisa que era as músicas que a gente tinha para fazer, as ideias que a gente tinha. Mesmo sem o baterista a gente foi compondo.

Rafael: E isso foi interessante, porque a gente teve que aprender a compor de novo. Então, isso fez aflorar composições deles, porque antes tinham muitas coisas minhas e isso foi muito enriquecedor.

Rodrigo: É a gente começou a trabalhar em um quarto, então, acabamos nos voltando mais para as composições mesmo. E uma hora a gente viu que já tinha um disco e quando vimos que tinha quase um disco na mão, foi a hora de levantar, juntar forças e fazer.

Rafael: Quando a gente resolveu fazer o disco, a gente fez 17 shows no Puxadinho em 2014, que foi boa parte da grana que a gente juntou pra começar a gravar o disco. Teve essa também.

E como vocês chegaram nessas onze canções?

Rodrigo: A gente queria nesse disco, que tivesse mais influência do trabalho do produtor, então algumas composições a gente deixou um pouco aberta mesmo, inclusive “Feijoada”, que foi a última e acabou virando a música que a gente tá trabalhando mais. [Rafael do lado repete: “Sim. Sim”.] E no final das contas, a gente acabou tendo umas ideias que sobraram, mas no final ficou muito claro que a gente queria. A gente trabalhou doze músicas, mas no final optou por colocar onze.

Rafael: É verdade. Mas tem algumas coisas que trabalhamos que em algum momento vão aparecer, mas também já são ideias para um próximo disco, que com certeza vai ser diferente. Eu acho que talvez alguns fãs, que são admiradores da banda achem isso um saco, porque a gente não consegue ficar muito quieto mesmo. Já tem ideias para um próximo, que vão ser meio esquisitas.

Esquisitas como?

Rafael: Ah, diferentes. Tem uma ideia folk, bem interessante, bem legal. Tem uma música ali meio Pará, até meio Saulo Duarte se for ver.

Rodrigo: A gente foi ouvindo as coisas e colocando para fora, mas enfim… Acho que ainda vai ter um pouco do auê. É sempre uma coisa em movimento, né?

Vocês não têm medo de mudar o som? Porque do primeiro para o segundo há uma grande diferença e daí, alguém que gostou do primeiro, pode escutar este e deixar para lá.

Rafael: Já teve gente que já não curtiu, assim, tipo… Na verdade, as bandas que a gente gosta, desde moleque quando ouvia Guns N’ Roses e Rolling Stones, a gente gosta de bandas que mudavam muito o som.

Rodrigo: Led Zeppelin!

Rafael: No meu caso, eu gosto muito do Stone Temple Pilots e cada disco é uma história. O próprio Jorge Ben se a gente for ver. O Samba Esquema Novo (1963) é quase um banquinho e um violão. Já o África Brasil é tipo: “ddaaaaaaannn!” [imita um som mais pesado com o voz]. Carnavalzão assim. Tim Maia também mudou muito, então, não sei, isso não é muito pensado assim.

Rodrigo: O próprio James Brown, ele vai nomeando as fases dele. Então, é natural. É a mudança do ser humano. A gente passa por fases da vida. E se você for fazer uma coisa de verdade mesmo… Talvez a sua verdade seja fazer a mesma coisa pro resto da sua vida e tudo bem.

Se você for o AC/CD, né?

[Risos]

Rodrigo: Exatamente. Ainda bem que existe o AC/CD! [Olha para Rafael] Aquele show no Morumbi foi sensacional!

Rafael: Pô, foi demais! Bom, eu lamento que talvez algumas pessoas fiquem pelo caminho, mas a gente precisa tá feliz com o que a gente faz também.

E o que aconteceu com o baterista de vocês?

Rafael: Ele toca com a gente, mas… Vamos dizer que alguns de nós somos sócios investidores da banda e ele não tava nessa pegada. De novo o modelo banda de rock. Aquela coisa meio adolescente. Mas você tem que aprender a se adaptar. Cada um tem sua vida, sua circunstância. Agora tá tudo perfeito. Chegou um grande amigo. A gente gosta muito dele, ele é muito importante foi muito importante para gente.

Rodrigo: E contribui musicalmente.

Rafael: Esse disco não teria funcionado se ele não tivesse sacado a importância da diânimica. Ás vezes baixa, às vezes sobe. Nada disso é efeitinho, nada disso é mágica. É tudo na mão. O disco é meio baixo se for ver. E ele super fez parte.

Rodrigo: Mas a parte essencial de ter gravado disco como Coiote é que… Poxa, imagina que você tem que começar um relacionamento com alguém e… Com o Coiote era fácil, já tava no meio do caminho, entendeu? E ele é um dos nossos. Dessas coisas que aconteceram, uma delas foi que ele resolveu sair, a gente entendeu. Até que a gente conseguiu ele de novo, né? [Fala com certo alívio] Se reunir e fazer algo que a gente ia fazer de coração mesmo.

Você comentou sobre os shows no Puxadinho e o Puxadinho é um dos lugares que fechou em São Paulo. E ao mesmo tempo, a gente teve várias casas que fecharam, que eram dedicadas a shows. Como que vocês veem o circuito para banda alternativa em São Paulo?

Rafael: Primeiro, a gente lamenta muito o fechamento do Puxadinho, acho uma sacanagem.

Rodrigo: Ou de qualquer outro espaço cultural.

Rafael: Porque  quem nunca foi acordado ou é acordado por uma incorporadora batendo estaca às sete da manhã, saca? Qual é a diferença entre isso e a música de noite? E o nem havia barulho, é bem questionável. Eu vejo um “quê” de dois pesos, duas medidas, que é bem lamentável. Em se tratando de um prefeito, que, sei lá, a gente tem simpatia e gostaria que ele não vacilasse neste sentido. Em relação a cena, acho que tem muita gente fazendo coisa legal e o Puxadinho é um grande exemplo, o Mundo Pensante…

[Marcelo Quaz, jornalista colega, interrompe: “É entrevista? Caraca! É a Braz! Fazendo entrevista com o Circo Motel”. Eles se despedem e na saída, ele ainda grita: “É tudo mentira!”]

Rafael: É tudo mentira, mas cai bem! Bom, tem lugares fazendo um trabalho sério, que eu admiro, Serralheria, mas ao mesmo tempo há um dependência muito grande do Sesc. Acho o Sesc maravilhoso, a gente ama o Sesc, sem o Sesc, sei lá o que seria da gente, porque realmente é o tratamento que devia ser. Gostaria que tivesse mais lugares, com certeza. Gostaria que tivesse mais público. Acho que até uma falha das bandas não ter tanto público, mas as bandas estão trabalhando, estão tentando, estou fazendo. Tem muita coisa boa autoral. E essas bandas não atingem mais o mesmo patamar ou nunca vão atingir. É o momento de encaixar novos modelos de negócio. Enfim, acho que tem muita coisa boa na cena e pessoas bem lutadoras, assim. Batalham tanto quanto as bandas.

Meninos e uma pergunta um pouco polêmica, pois estamos neste processo de impeachment e neste período politicamente meio tenebroso. Teve uma ocupação no Largo da Batata, muitos artistas estão se posicionando contra ou a favor e eu queria saber se vocês podem falar do posicionamento de vocês.

Rodrigo: Eu tenho certeza que tá acontecendo um golpe no Brasil e que tem um institucionalismo acontecendo e que poxa… Como artista eu tenho o dever de me posicionar. Não defendendo o PT, até porque a gente vê muitos defeitos e acho que este é o fato que mais deixa indignado, é as pessoas não estarem olhando com o devido cuidado para essa questão. Acho que falta um cuidado e uma ignorância, no sentido verdadeiro da palavra mesmo, de não saber como se informar, porque é um projeto de desinformação que vem acontecendo há anos, né? Não tem um pensamento crítico nas pessoas, então, a indignação é legítima, mas a forma como isso tá acontecendo… Não pode acontecer de novo. Porque na verdade é isso, é um filme se repetindo e se acontecer o impeachment da Dilma, eu penso que vão acabar com a Lava Jato. E em um mês “acabou a corrupção”, “achamos uma bruxa pra queimar” e acabou e não é isso.

Rafael: Concordo plenamente. A gente nunca conversou isso na visão da banda, mas como amigos, a gente conversa bastante e é basicamente isso. Não tenho muito o que acrescentar, mas eu queria que o governo terminasse regularmente, como deve ser.

Rodrigo: E tivesse novas eleições…

[Interrompe] Rafael: Em 2018!

Rodrigo: Em 2018 e que as pessoas tenham neste processo um aprendizado, porque é ótimo, que está se olhando para a política. Tinha aquele ditado, que felizmente a gente não está ouvindo mais: “Política e religião não se discute”, mas poxa, tudo se discute. É basicamente isso.

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