Entrevista: Dani Nega e Craca Beat. Racismo, machismo e poder feminino são pautas da dupla

Dani Nega e Craca Beat. Foto: Divulgação

Dani Nega se juntou ao produtor Craca Beat para lançarem juntos o ótimo projeto Craca, Dani Nega e o Dispositivo Tralha, que virou um disco e está disponível para download no site oficial aqui. O grupo tem se apresentado demais por aí, no dia 15 de abril mesmo estarão no Sesc Santana (de grátis!) e no dia 21 de abril, tocam na festa dos nossos parcerios da XXXBórnia, na Trackers.

A junção de uma MC com um músico para fazer som, não é nenhuma novidade, então, muito do que chama atenção aqui são as letras fortes e empoderadas. Dani rima sobre o racismo, feminismo, machismo, tudo com muita propriedade e suingue. Sim, porque não é porque é uma MC que leva você pelas canções que temos uma banda de rap. A música brasileira, africana e as eletronices de Craca marcam o que se ouve no álbum.

O primeiro single lançado por Dani e Craca foi “Sou Preto Mesmo“, que antes mesmo de toda aquela confusão de apropriação cultural – lembram da moça que usava turbante e tinha cancêr, mas era branca? – já problematizava a questão.

Outro destaque é “Papo Reto”, em que Dani joga a real sobre ser mulher e canta: “Nos fazem pensar que o prazer é uma fraqueza feminina, então acreditamos que devemos suprimi-lo para sermos realmente mais fortes (…) Imaginem só quando uma mulher fortalecida resolve reagir contra toda a opressão. Gozar na vida me faz uma preta muito perigosa”. Abaixo a música ao vivo no programa “Manos e Minas”, da TV Cultura.

A entrevista foi feita por e-mail em março de 2017. Confira:

Move That Jukebox: O disco é uma provocação sem fim. Tudo começou com o single “Sou Preto Mesmo”. Na letra a Dani provoca: “Diz que a polícia não para”, mesmo a pessoa dizendo que é preto. O que isso quer dizer? Que grito é esse?

Dani Nega: A música surge como uma provocação para a discussão sobre apropriação cultural. Tem muito discurso por aí que diz que nós somos todos iguais e que temos os mesmos direitos. No nosso dia a dia sabemos que a coisa não funciona assim. Pessoas são munidas de privilégios enquanto outras não. E o que define quem são essas pessoas privilegiadas, na maioria das vezes, é a cor de sua pele. Para a polícia a cor suspeita para padrão é a pele preta. Ou seja, dificilmente uma pessoa branca é parada pela polícia com tanta frequência quanto uma pessoa negra. Será que somos todos iguais mesmo então? Será que somos todos pretos?

Move That Jukebox: A gente teve uma grande polêmica há pouco tempo de uma moça que usava um turbante e foi acusada de apropriação cultural por uma ativista negra. O porém é que a moça tinha câncer e usava o turbante para não mostrar a falta de cabelos. Queria saber a sua opinião. Até que ponto uma pessoa usando turbante sendo de outra etnia é apropriação cultural?

Dani: Difícil responder essa pergunta porque parece que essa história não foi real. Mas pensemos historicamente. Durante muitos e muitos anos, mulheres negras que usavam turbantes eram motivo de muita piada, como por exemplo: “Olha lá a nega macumbeira, não chega perto que ela vai te jogar uma macumba (sempre num tom pejorativo)”! Com a força dos levantes negros, do empoderamento dessas mulheres, dos movimentos negros de resistências e etc… Alguns elementos da cultura negra, elementos de resistência, símbolo religioso (como o turbante), viraram mercadoria. Esses elementos que até então só eram usados por pessoas negras e sempre visto como motivo de piada e chacota pelos brancos, agora são usados também pelos brancos. Só que aí esse elemento perde a sua força histórica, ancestral, religiosa e passa a ser um capital da indústria da moda. E que sendo usados por pessoas brancas passam a ter uma aceitação maior na sociedade. Essa apropriação cultural que a indústria faz, ao meu ver é o grande problema. O racismo institucional que faz com que nós não sejamos protagonistas das nossas próprias histórias.

É obvio que cada um pode e deve usar o que quer, mas é importante que as pessoas saibam do valor ancestral que esses elementos tem, o que significam. É importante que as pessoas saibam que é um elemento de resistência da população negra. Sabendo disso e por respeito, eu duvido que muitas dessas pessoas usariam esses elementos. Agora se essa história toda dessa garota for mesmo mentira, é um desrespeito muito grande com essas frentes de resistência que lutam contra o racismo todos os dias. Nunca se deve deslegitimar a luta daqueles que brigam por uma sociedade mais igual e mais justa.

Move That Jukebox: O disco também é um grito feminista. Por que a mulher ainda sofre tanto com a repressão sexual? Como você conheceu o feminismo?

Dani Nega: A mulher ainda sofre com a repressão sexual porque o machismo está incrustado no inconsciente coletivo, é cultural. Isso faz com que mulheres sejam reprimidas frequentemente, por homens e mulheres, simplesmente pela roupa que escolheram usar, por exemplo. Isso quando não são violentadas e até assassinadas. Mesmo no sexo, já avançamos bastante mas o orgasmo ainda é um problema pra muitas de nós, porque sentir prazer na cama é a expressão mais livre da não submissão e ainda muito condenável na nossa sociedade. Reprimir sexualmente uma mulher é uma das formas do machismo de podar nossa potência mais bruta e genuína.

Move That Jukebox: Uma coisa me pegou na sua música, “Papo Reto”, você fala que as mulheres foram separadas e feitas a acreditar que estão competindo. Mesmo com o feminismo “tomando conta da cidade”, você acha que ainda existe uma rixa entre as mulheres? Onde o machismo entra nisso?

Dani Nega: Uma vez eu estava na praia com a minha companheira, uma amiga e o seu namorado. De repente, um grupo de homens desconhecidos estavam jogando futebol e naturalmente se aproximaram de nós, então o namorado da minha amiga, amante de futebol que é, sem pensar duas vezes, se levantou e simplesmente entrou no jogo, com total aval dos outros caras. Esse foi um exemplo de como os homens se tratam numa sociedade como a nossa, como verdadeiros irmãos. Fiquei imaginando uma mulher numa situação como essa, posso estar enganada, mas ela provavelmente pensaria algumas vezes antes de se aproximar de um grupo de mulheres desconhecidas, porque fomos criadas, midiaticamente principalmente, a nos ver como inimigas, como competidoras. Graças ao feminismo, estamos nos dando conta de que isso tudo é construção do machismo pra nos enfraquecer e estamos nos unindo cada vez mais, aos pouquinhos, no mundo todo. É isso, uma sobe e puxa a outra.

Move That Jukebox: Dani, e quais são as pautas da mulher negra, que é diferente da mulher branca? O que há de tão diferente nos dois movimentos? Não somos todas mulheres?

Dani Nega: Embora o gênero nos una, a mulher negra sofre uma dupla opressão. Uma pelo fato de ser mulher e outra pelo fato de ser negra. Só por ter uma dupla opressão nós estamos em lugares bem diferentes das mulheres brancas que possuem alguns privilégios que nós não. Isso não quer dizer que a luta da mulher negra é mais importante que a luta da mulher branca. Isso quer dizer que temos outros assuntos a tratar que não atingem a mulher branca. Isso faz com que a gente discuta e entenda o feminino e o machismo também pensando nas questões raciais. Sim, somos todas mulheres, porém de classes e raças diferentes, o que nos faz discutir muitas outras coisas que vão para além do gênero. Sim, sigamos juntas e lutando contra o mesmo “inimigo”.

Move That Jukebox: No disco, vocês optaram por músicas instrumentais e com vocal. Por que essa divisão?

Craca Beat: O disco acabou tendo um formato um pouco incomum: meio hip-hop e meio instrumental. Isso se deve ao processo de criação do disco que iniciou-se antes da parceria acontecer. A medida que fomos criando juntos, a Dani foi ganhando importância no disco a tal ponto que passou a ser naturalmente lógico que assinássemos o trabalho juntos. Este formato na verdade também propõe um percurso narrativo e sensorial na fruição do álbum, diferente daqueles mais comuns no mercado hoje. A aparição da voz da Dani tarda duas musicas para acontecer e quando acontece encaminha nossa atenção para outra direção. Dá um sobressalto e revela a imprevisibilidade do que ainda está por vir. Uma nova direção que adiciona dados novos ao que se ouve e, por outro lado, mantém a atenção sobre essa textura musical peculiar onde ergo as bases das composições. Então, esse constante oscilar entre voz e timbres instrumentais, sejam eletrônicos ou não, pode acabar produzindo uma escuta mais atenta do todo. O resultado foi fruto de prevalecermos nossos desejos artísticos, ao invés de conveniências de mercado. Estou certo de que este formato possa ser inadequado para as plataformas atuais de distribuição, mas não poderíamos fazer de outra forma.

Escute o álbum Craca, Dani Nega e o Dispositivo Tralha no Spotify: 

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