Entrevista: Fabiana Bastistela fala sobre música e sobre a semana de música criada por ela

Fabiana Batistela - crédito Marcos Hermes

“Eu acredito que a música que está mais bombada, se é que podemos falar assim, é a música que o povo quer ouvir.”, Fabiana Batistela. Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Fabiana Batistela criou a Inker Agência há 14 anos, a agência já trabalhou com produção, além de assessoria de imprensa, hoje trabalha apenas com a segunda citada. No casting, artistas como Liniker, Chico Salem, Francisco, el Hombre, Scalene, Rashid e muito mais. Faz apenas quatro anos que ela comanda a SIM  São Paulo – Semana Internacional de Música, que este ano será entre os dias 7 e 11 de dezembro, e traz a possibilidade de speed meetings com vários produtores do país e de fora, meses de debates e claro, muitos e muitos e muitos shows. Este ano, o “bunker” será no Centro Cultural São Paulo, mas a SIM irá se desmebrar a várias casas da cidade. Melhor dar uma esquedrinhada na programação completa, que já está disponível no site oficial.

Sendo assim, conversamos com ela sobre o mercado, sobre a nova fase da música e claro, sobre a SIM. Dá uma olhada no que se deu:

Move That Jukebox: Fabbie, quatro anos de SIM. O que já deu para tirar de aprendizado? O que não deu certo, que você teve que mudar, por exemplo?

Todo ano, eu aprendo alguma coisa. O formato da SIM São Paulo é novo no Brasil. Existem outras feiras pelo país, mas elas são mais focadas em programação musical, enquanto a gente quer desenvolver o mercado e não ser um festival de música. A SIM São Paulo foi inspirada no MaMA, que é a feira de música de Paris. Com o passar dos anos, fomos ajustando a maneira de conduzir o evento. A programação noturna é um bom exemplo disso. Na primeira edição da SIM, produzimos todas as noites. Mas percebemos que representantes do mercado nacional e internacional têm vontade de produzir eventos dentro da nossa programação, então hoje 80% da programação noturna é feita pelo próprio mercado. Em 2016, por exemplo, temos uma noite do Google, uma da Difusa Fronteira, duas da Slap e por aí vai… A conferência também mudou ano após ano. Da primeira edição para a atual, o conteúdo foi aprofundado, deixou de ser genérico.

Move That Jukebox: Este ano, uma novidade: você colocou como na sua produção 50% de mulheres trabalhando no evento. Por que isso? 

Desde a primeira edição, a SIM São Paulo teve 80% de mulheres trabalhando na produção. Nesse ano, temos a regra de que 50% da programação deve ser composta por mulheres. Isso surgiu porque percebemos que, mesmo conhecendo um monte de mulheres inspiradoras que trabalham no mercado da música, a programação do ano anterior foi majoritariamente masculina. A gente parou para prestar atenção nisso. A ideia é criar um equilíbrio mesmo… O olhar está viciado em alguns nomes e, geralmente, são masculinos.

Move That Jukebox: Você já está há 14 anos no mercado musical, trabalhando como produtora e como assessora de imprensa à frente da Inker. O que você pode falar desse novo mercado? Tem muita música por aí, mas ao mesmo tempo falta ter no mainstream bandas que, vamos dizer, tem algo mais a dizer além de “Eu quero tchu, eu quero tcha”. Por que não conseguimos mais colocar essas bandas lá?  

Eu acredito que a música que está mais bombada, se é que podemos falar assim, é a música que o povo quer ouvir. Como profissional de comunicação, eu percebi que não adianta pegar uma música e querer forçar ela no povo. Se ela não for boa, ela não vai rolar. Você pode investir milhões em jabá e ela não vai pegar. Eu não gosto desse discurso de diminuir o que é popular. O que é popular também tem o seu valor. Para cada tipo de música, tem o seu público. O que faz sucesso na música popular é bom, independente de gostar ou não. Independente das letras, do conteúdo, é entretenimento e alcança muita gente.

Move That Jukebox: Além disso, a música independente tem trazido vários artistas que estão não só fazendo música, mas também trazendo transformação, discutindo o modo de ver as coisas. Liniker e os Caramelows, MC Linn da Quebrada, Karol Conká, Rico Dalasam são alguns nomes que podemos citar. Para fazer música hoje é preciso transformar? 

Música é transformação, entretenimento, cultura… Não existe música que não mexe com você. Música transforma o dia a dia das pessoas. Talvez, a transformação fique mais latente nos artistas citados, mas música nunca foi e nem será uma ferramenta passiva. Ela mexe com as pessoas.

Move That Jukebox: Vivemos também a era do online. Com serviços de streaming ganhando força, o Spotify é a grande empresa do momento, mas, ainda sim, os artistas estão gravando discos, lançando físico, alguns até foram fazer versões em cassete e vinil. Não há uma contradição nisso? 

Acho que é super coerente e não contraditório. O mercado está cada vez mais diverso. As pessoas estão cada vez mais experimentando novos formatos, tudo é possível dentro do mercado. Inclusive, vamos ter uma mesa sobre vinil e outro sobre o futuro da indústria fonográfica. O mais legal é poder ter opção. Pessoas são diferentes, querem coisas diferentes, formatos diferentes.

Move That Jukebox: Como surgiu a ideia da fazer a Semana Internacional de Música de São Paulo? 

Eu sempre frequentei eventos e feiras de música pelo mundo. Não entendia o porquê não ter uma em São Paulo, que é um hub cultural da América do Sul. Ter um ponto de conexão é uma necessidade do mercado. Em 2011, eu fui no MaMA, que é a feira de Paris. Daí, veio a inspiração para fazer algo no mesmo formado em São Paulo, algo mais conectado com o que vivemos hoje. A cada edição da SIM, acrescentamos novas ideias, tiramos ações que não funcionaram direito, adaptados ao nosso cenário, fazendo com que a SIM São Paulo ganhe o seu próprio formato e identidade.

Move That Jukebox: A escolha dos artistas que vão tocar no evento é feita com uma série de curadores. Como esses curadores são escolhidos e como as bandas são escolhidas? O que é levado em consideração? 

Para participar dos showcases diurnos no Centro Cultural São Paulo, a gente abre um período de inscrições. Nessa ano, recebemos 1023 inscrições. Foram 976 nomes nacionais de várias partes do Brasil e 47 internacionais, de 15 países. O conselho consultivo da SIM São Paulo escolheu os 27 nomes que iriam participar. Esse conselho surgiu no ano passado, porque  – a medida que o evento foi crescendo – eu senti necessidade de ouvir pessoas de outros setores do mercado para decidir a programação. O conselho reúne jornalistas, produtor de festival, empresário de artista, produtor de show nacional, tem gente que está relacionado à pesquisa e política pública… São pessoas que trazem outras visões do mercado e que circulam muito e conhecem muita gente. Os critérios na escolha das bandas são vários. Um deles é a qualidade artística, outro é a estrutura profissional. Não precisa ter uma equipe formada, mas tem que estar lá não apenas para fazer um show, mas também para fazer negócios, parcerias.

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