Entrevista: Francisco, el Hombre contra o capitalismo, a favor do feminismo e pela América Latina!

15.11.25 FEH 2015 651

Francisco El Hombre lança disco e fala com o Move. Foto: Rodrigo Gianesi/ Divulgação

A Franscisco, el Hombre é uma daquelas bandas novíssimas no cenário musical independente que vem quebrando barreiras e trazendo a discussão para a música. Afinal, como eu sempre digo, não adianta só estar ali no palco, nada contra, mas é muito mais interessante quando alguém tem mais o que dizer do que apenas falar de amor. Nem que seja fora dos palcos.  a Francisco abraçou a causa e fala de feminismo, canta em espanhol, abraça os ritmos latinos e ainda critica o sistema tudo com muita animação, afinal não precisa ser “chato” para ser interessante.

O grupo formado por  dois mexicanos: os irmãos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte e três brasileiros: Andrei Kozyreff, Juliana Strassacapa e Rafael Gomes, acaba de lançar o ótimo SOLTASBRUXA, que foi separado em lado A e B para o “tão sonhado” vinil ganhar corpo e tem participação de Liniker, Apanhador Só e das artistas  Salma Jô, Helena Macedo, Larissa Baq e Renata Éssis, estas estão na música que já ganhou videoclipe e foi lançado em alto estilo no cinema (!!!), do Itaú Cultural. Fino! Põe fino nisso!

Dia 22 de outubro o grupo faz o lançamento oficial na Audio Club aqui em São Paulo – saiba mais lá no Azoofa – e conversamos com Sebastián Piracés-Ugarte, que é baterista da banda para saber um pouco mais sobre tudo isso. Dá uma olhada:

Move That Jukebox:  O que me impressionou muito é que este é o primeiro disco de vocês e estão lançado oficialmente com uma super festa na Audio! O que vocês acham que tocou tanto as pessoas no som de vocês? Qual vocês consideram que é este diferencial da banda?
Sebastián Piracés-Ugarte: Confesso que estamos igualmente impressionados com a oportunidade que estamos tendo – nunca imaginamos que seria possível. Não sou muito de fazer autopromoção, não sei o qual seria o diferencial, aí é com quem acompanha a gente (rs!), mas talvez seja porque decidimos encarar esta fase da banda com a maior entrega pessoal possível. Somos 100% o que cantamos e cantamos o que somos, e acho que tem sido perceptível nos shows e no disco. Pelo menos espero que tenha sido perceptível.

Move That Jukebox:  Vocês também estão trazendo neste disco uma tônica política forte, mas antes de falar disso, queria falar da parte mulher. Vocês já tinham falado da violência contra a mulher. Agora chegam com a sensível “Triste, louca e má”, que ainda tem participações da Salma Jô e da Larissa Baq. Vocês claramente são sensíveis a causa, mas pergunto, como os homens da banda se sentem em relação ao feminismo? Como ele virou um tema?
Sebastián Piracés-Ugarte: Ele virou tema porque precisa virar tema. É uma das maiores lições que a sociedade está aprendendo e não tocar neste assunto (e em tudo que estamos aprendendo) seria não estar conectado com a sociedade no agora. Seria incoerente da nossa parte. Claro, seria ingênuo da nossa parte acreditar cegamente que somos isentos de possíveis contradições, mas queremos andar para frente e não para trás. E nossa conclusão é de que queremos expor que temos pensado, refletido e nos questionado muito a respeito.

Move That Jukebox:  Queria fazer uma pergunta direta para a Juliana. Você é a única mulher no grupo e está rodeada de homens. Você sente diferença de tratamento, por exemplo, quando está sozinha e quando está com os caras da banda? Na vida e nos shows da vida, por exemplo.
Juliana Strassacapa: Principalmente no que tange os shows (produção/equipe técnica), sinto ser tratada diferente sim, geralmente por caras, às vezes parece que eles se sentem intimidados por lidar com uma mina em posição de destaque e às vezes só passam a me tratar igual ao resto da banda depois de me ouvir cantar/tocar, como se eu tivesse que “ganhar” seu respeito. Eu simplesmente ignoro esse comportamento, ajo normalmente com pitadas de acidez. Quanto ao resto da vida, pós shows e dias normais, sinto cada vez menos esse “reconhecimento” estar atrelado aos caras, acho que muito pela posição que tenho tomado no show novo, e pelos pontos em que tenho tocado nas músicas e falas. Mas eu estou na música para comunicar e não me atinge mais a preferência pelo falo.

Move That Jukebox:  Agora, indo para a política, a música “Bolso Nada”, o que não fez pensar em outra pessoa senão no seu Jair Bolsonaro (deputado federal pelo PP/RJ) e seu clã de fascistas, que estão aí vangloriando o golpe militar de 64 e tantas outras barbaridades. Por isso, pergunto, há alguns anos, vimos a direita mais ultranacionalista e conservadora ganhando voz e pior, vez, no mundo todo. Por que vocês acham que isso aconteceu? E onde essas pessoas estavam escondidas? Por que agora conseguiram ter este espaço na mídia, nas redes sociais e na vida das pessoas?
Sebastián Piracés-Ugarte: Que pergunta difícil de responder com poucas palavras. Acho que as pessoas nunca estiveram escondidas e que a manifestação ampla da direita seja a reação de alguma ação, que ainda estou procurando entender. Sinceramente não consigo entender o que faz uma pessoa apoiar aqueles que apoiam abertamente a tortura e barbaridades do tipo. É tão longe da minha opinião que realmente não consigo entender. Mas cabe a nós estudarmos isso e lidarmos com isso. Entender o “inimigo” é fundamental para qualquer transformação.

Move That Jukebox:  Ainda sobre as canções, a outra música que me chamou atenção foi a que “Tá com dólar, tá com deus”, que, acho, é quase um hino deste ano de 2016. Pelo menos, a maioria das pessoas passou por pelo menos uma dessas situações descritas na música. Foi complicado para vocês também? A produção do disco tem a ver com isso? Eu vejo com uma crítica também ao nosso sistema capitalista. Certo ou errado?
Sebastián Piracés-Ugarte: Certo. Certo. Certo. Tudo certo. A gente tem batalhado para conseguir viver (d)a música, em termos financeiros. Sendo uma banda independente, viver apenas da banda é praticamente impossível. Então temos batalhado com dívidas, suando todos os dias. E, frente às movimentações econômicas que vimos nos últimos tempos, vendo nossas contas eternamente no vermelho e em meio a tanto trabalho decidimos tirar uma onda com a nossa situação nos ensaios do começo do ano. Ficou tão divertido tocar o refrão que decidimos fazer a letra inteira. E a música nasceu em 30 minutos, acho. Sem exagero. Talvez até menos. É muito forte ver que a música que dedicamos a nós mesmos também representa tantas outras pessoas. Esse sistema nos tem presos pelo rabo e pelo pescoço, é aquela situação de rir para não chorar.

Move That Jukebox:  Ali no Souncloud, o disco de vocês está divido em Lado A e Lado B. É claro que as músicas conversam entre si, mas o que essas músicas têm para terem sido organizadas desta forma?
Sebastián Piracés-Ugarte: Há! Foi feito pensando no nosso tão sonhado vinil, que vai sair em breve! De certa maneira é como contar duas histórias em uma só, conectando o disco ao que temos vivido, ao que fazemos no show. Um começo tenso, pesado, denso, que vai se transformando em algo mais leve à medida que naturalizamos o aprendizado, mas que tem um final forte para nos lembrar de que temos muito que aprender pela frente. Faz sentido? Sei lá, a gente brisa em muitos detalhes que geralmente ninguém mais fica pensando (rs).

Move That Jukebox:  Vocês estão com o disco nos serviços de streaming, mas ainda vão fazer o disco físico? Isso ainda hoje é necessário? O que acham?

Sebastián Piracés-Ugarte: Lógico! Disco, vinil, DVD, tudo. É necessário? Não. É completamente ultrapassado para os moldes atuais da música. Mas para a gente, que é completamente viciado em música, não há prazer maior que segurar em mãos o fruto de tanto trabalho. A gente AMA ganhar disco dos amigos. É um fetiche para quem é consumidor ávido de música. Então com certeza vamos fazer. E vamos tentar fazer o mais bonito possível.

Move That Jukebox: Descobri que “Francisco el Hombre” é também um festival colombiano, vocês sabiam disso? Foi daí que tiraram o nome de vocês?
Sebastián Piracés-Ugarte: Descobrimos depois de dar o nome à banda! O nosso nome nasceu do meu livro favorito, de um autor latino-americano incrível que trata desse realismo mágico que é nosso cotidiano. Fica o mistério. Mas procurem e sejam felizes.

Move That Jukebox: Vocês têm uma ligação muito forte com os ritmos latinos, como isso se deu? E nós até fizemos um diário de bordo com vocês sobre a viagem para Cuba. Vocês fizeram uma turnê que também passou pelo Uruguai. Como foi a receptividade do público? Outra coisa, para uma banda que canta em português é difícil sair do país para excursionar pela América Latina?
Sebastián Piracés-Ugarte: A banda começou para tentar resgatar e aprender com nossas raízes, viajando pela América Latina, passando o chapéu, de praça em praça, hostel em hostel, bar em bar… Procurando entender o que é a América Latina. Passamos 2 anos nisso. Só vida louca! Foi só no ano passado que decidimos encarar a banda como nosso trabalho mesmo e focar no Brasil. A recepção do público fora do Brasil sempre foi maravilhosa, do mesmo jeito que é aqui. Todo mundo ama ser latino – seja cantando em espanhol seja em português. Muito pelo contrário, as músicas em português encantam o público que fala mais espanhol. Dica para todas as bandas brasileiras: vão explorar as Américas e bora quebrar o eixo EUA/Europa.

Move That Jukebox: Tenho a impressão que o brasileiro tem muito preconceito com a língua espanhola ainda e principalmente com os compatriotas latinos, vocês acham que esse preconceito ainda existe mesmo?
Sebastián Piracés-Ugarte: É inevitável que exista. Décadas de imperialismo cultural unilateral dá nisso – um apreço cego pela língua inglesa e tudo que de lá vem. Mas ao mesmo tempo todo brasileiro sabe que no fundo é latino. Então ainda que role esse preconceito quase síndrome do vira-lata, no fundo muitas pessoas desejam essa conexão com os países hermanos. Bandas parceiras de outros países têm nos procurado justamente por isso – precisamos derrubar essas fronteiras já e promover a integração latino-americana. Nosso papel é tentar fazer isso com a música.

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