Entrevista: João Brasil

João Brasil é um dos maiores presentes que o Rio de Janeiro deu para a cena musical brasileira nos últimos anos. Fazendo os mashups mais loucos e inusitados ever, João espalhou sua genialidade aos sete ventos – sempre sem medo de ser brega demais – quando lançou Big Forbidden Dance, que trazia misturas como “Sensual Roll” (Snoop Dogg, Roberto Carlos e Madonna na mesma música) e “This Is How We Dance” (um mix com Sepultura, Digitalism e Britney Spears).

O talento do rapaz foi ganhando cada vez mais destaque com o passar dos anos, e a evolução foi clara: João Brasil já até ganhou aprendizes e “filhos ideológicos” como o capixaba André Paste, que se apaixonou pela arte dos mashups. O lord das pickups também já conquistou a Europa – Londres, inclusive, é a atual casa do músico. Mas, mesmo morando no exterior, João não esconde sua paixão pelo Brasil: Na terra da rainha, suas apresentações são regadas à funk music e a bandeira do nosso país sempre aparece no palco.

O mais novo projeto de João Brasil, 365 mashups, conquistou o público logo no seu primeiro mês. A idéia é publicar um mashup diferente a cada dia no espaço destinado ao trabalho: Um simples blog no wordpress. Pelo twitter (@joaobrasil), quem aprova o conceito ainda tem a liberdade de enviar dicas e sugestões de remixes, que são atendidos na maioria das vezes.

Em entrevista ao Move That Jukebox, João Brasil falou sobre a atual situação de sua carreira, sobre o 365 mashups e, claro, o que pretende fazer no 366º dia. Com a palavra, o rei nos mashups:

Não me lembro de ter visto a assinatura de um artista corresponder tanto à música feita por ele: João Brasil representa boa parte da atmosfera dos seus trabalhos – e isso é incrível. Isso foi premeditado, de alguma forma?

Muito obrigado, Alex. Sempre lutei por isso, mas achava que essa assinatura ainda estava meio nebulosa (risos). Você deixou meu dia mais feliz.

O 365 mashups, seu novo projeto, tem um conceito ótimo, mas parece trabalhoso. O que te levou até esse conceito e como você se motiva para não deixar um dia passar sem um mashup?

O projeto aconteceu de uma maneira muito espontânea. Queria fazer um disco de mashups em 2010 e estava pensando no que misturar, estava fritando. Três dias antes do ano novo minha mulher me sugeriu brincando a idéia de fazer um mashup por dia. Levei a brincadeira a sério. A minha maior motivação agora é o feedback das pessoas, acho que se as pessoas não tivessem se envolvido tanto com o projeto eu poderia até já ter parado. Muita gente me manda mensagens dando idéias, quando eu posto o mashup de noite eu recebo mensagens de: “UFA! Pensei que você não ia conseguir! ” (risos). Estou me divertindo com tudo isso.

O projeto começou soltando mashups que não tinham relação entre si, mas isso logo mudou. Algumas das músicas se juntaram e montaram o The Black Album Brasil, uma versão brazuca do disco do Jay-Z. Recentemente, também tivemos o Let It Baile, adaptação dos Beatles. Qual é o próximo alvo de João Brasil?

Agora estou fazendo o Ventura do Los Hermanos com o rapper De Leve. [O download já pode ser feito aqui]

Há algum tempo vemos você trabalhando apenas com a idéia de nacionalizar músicas gringas (Phoenix com Portinho, Radiohead com Olodum e etc.), mas foi um conceito diferente, com cara de Girl Talk, que te deu fama. O que te fez entrar nessa nova fase?

Primeiro porque estou morando em Londres, estou com uma necessidade enorme de trazer cada vez mais o Brasil para meu som. O formato Girl Talk de mashup é muito legal, mas ficaria muito exaustivo fazer com aquela forma todos os dias, acho que tanto para mim, quanto para o público. Se você amarra bem duas informações acho que fica mais digerível para todo mundo. Misturar Brasil com mundo é a minha grande diferença por aqui, mas não tenho muita regra não, agora estou misturando Brasil com Brasil. Vamos ver o que vai acontecer pela frente. (risos)

Existe a pretensão de voltar a produzir hits nos moldes do Big Forbidden Dance?

Sim, estou pensando em no último mês do ano fazer um Big Forbidden com meus 365 mashups.

Você parece ouvir e misturar artistas de absolutamente todos os gêneros, um cara eclético de verdade. Não há nada que você ouça e pense: “nossa, essa música é realmente uma merda”?

Eu sinto que todas as músicas podem ser aproveitadas para meu trabalho, por isso não consigo achar a música 100% uma merda. Mesmo que não goste do som, posso aproveitá-lo exatamente por não gostar e aí eu acabo gostando do resultado final.

Seu trabalho também é acompanhado nos Estados Unidos e na Europa – a página do 365 mashups, inclusive, é escrita em inglês. O que o João Brasil tem que os gringos gostam tanto?

Acho que é essa mistura de universos tão diferentes. Sou bicho exótico por aqui, tenho que aproveitar isso. (risos)

Qual é seu plano para o 366º dia?

Fazer um disco de voz e violão. Sério! Pensei nisso ontem vendo uma banda de folk na televisão, que paz. (risos)

Qual a combinação mais bizarra de mash-up que você já pensou em fazer, mas nunca teve coragem?

Se eu penso, eu faço.