Entrevista: Lutando pelo seu espaço, contra os haters e o racismo, Rael fala sobre sobre novo disco

Rael por Jorge Bispo. Foto: Divulgação

É neste sábado (11), que Rael apresenta seu disco solo, Coisas do Meu Imaginário (2016) pela primeira vez em São Paulo, lá na Audio. Saiba mais no Azoofa. O disco saiu ano passado, entrou para a nossa lista de Melhores do Ano (com louvor!) e saiu pelo projeto Natura Musical, o que possibilitou que Rael trabalhasse pela primeira vez com o tão requisitado produtor Daniel Ganjaman e chamasse para participar do álbum Black Ailen, Chico César, Rodrigo Ogi, Massao, Apolo, Daniel Yorubá. Outra forcinha para ter essa galera foi o fato de estar sob as asa de uma das gravadoras mais poderosa do meio independente e do rap, a Laboratório Fantasma.

Daí, a gente mandou umas perguntinhas por e e-mail e as respostas saíram bem honesta e sinceras, como o disco que lançou. Dá uma olhada!

Move That Jukebox: Muitas das suas músicas são bem cotidianas, parecem falar bem do seu dia a dia, conta como que nasce uma música para você.

Rael: É isso mesmo, de vivências. Não necessariamente as minhas, mas alguma coisa que um amigo me conta, algo que eu ouço, e por aí vai… eu hoje não moro mais na quebrada onde nasci, o Jd. Iporanga, na zona sul, mas estou sempre por lá, meus pais ainda vivem lá, meus amigos. E eu não quero nunca perder essa conexão, essa referência, porque ela me inspira demais nesse sentido.

Move That Jukebox: Aproveitando suas letras também falam muito do empoderamento do negro e a gente tem tido uma grande chegada de negros na música e mexendo com o mercado e com as instuições. Você é um deles. O mais bacana é que eles não estão apenas nos segmentos de antes, como samba/pagode, funk e rap. Você acha que o “lugar” do negro tem mudado na sociedade? O racismo está sendo combatido?

Rael: Aos poucos a gente vai vendo alguns avanços, né? Mas eu ainda fico de cara com o fato de chegar pra buscar meu filho na escola e de negro só ter eu e o porteiro, ir num restaurante e de preto ser só eu e o garçom, numa casa de shows só eu e o segurança. E olha que loucura: recentemente fui tocar numa casa no Sul e os únicos pretos eram eu e o segurança, fui entrar na casa e ele me barrou porque eu tava sem pulseira, não acreditou quando eu disse que ia fazer o show, falou foda-se pra mim e tal. No começo do ano fiz uma viagem de férias com a minha família pela África do Sul, uma viagem de 15 dias praticamente cruzando o país. Tem lugares em que essa situação se reproduz. Chega no restaurante, os pretos trabalhando e você olha em volta só brancos. Isso deu um nó na minha cabeça. Como que lá pode ser assim? Respondendo à sua pergunta, tem mudado, mas nossa, é um longo caminho o que a gente tem pela frente. O Emicida diz uma coisa que é verdade, a gente precisa falar mais sobre assunto, não fingir que ele não existe, que no Brasil não tem racismo porque somos um país miscigenado. Eu penso que não vou estar vivo pra ver essa situação mudar do jeito que tem que ser. Talvez nem o meu filho veja, infelizmente.

Move That Jukebox: No seu videoclipe “Minha Lei”, você tem a participação de vários MCs a grande maioria homens. E no seu disco, pelo menos do que eu vi, não há participação de nenhuma mulher. Você acha que o rap ainda é muito machista?

Rael: Eu não acho que o rap seja mais ou menos machista do que a sociedade em geral, não somos um movimento que está à parte, a gente está inserido e isso se reflete dentro do nosso movimento, claro, mas assim como no rock, no pagode, etc. Não é uma questão do estilo musical, eu quero dizer. Quanto ao clipe, no dia a gente chamou várias mulheres que curte e admira, DJs e MCs, mas infelizmente nenhuma podia estar presente. Mas estão ali mulheres muito representativas no movimento, como a Lu Bauer e a Welida Queen, dançarinas fodas que estão inseridas nessa cultura, nos bailes, dançando com artistas e tals. A Welida também trança o cabelo de muita gente no rap e cuida dos meus dreads inclusive. Nesse novo disco realmente as participaçõe acabaram sendo de homens. Eu acho na verdade que fui econômico nas participações, foram muito pontuais e estavam ligadas a serem especificamente cada uma daquelas pessoas por questões afetivas e pessoais mesmo, sabe? Não era vamos chamar alguém para participar de tal faixa. Era “essa música eu imagino com o Chico Cesar, essa com o Black Alien, etc”. Mas o disco anterior, por exemplo, tinha a Mariana Aydar. Tenho parcerias com a Flora Matos, com a Jesuton, a Izzy Gordon. Eu fiz – se não me engano em junho do ano passado – um show convidando só mulheres, com a Mariana, a Anelis Assumpção, a Jesuton e a Drik, que aliás vai abrir meu show no sábado!

Move That Jukebox: Falando em participação, você teve o Ganjman como produtor, como foi trabalhar com ele? E ainda Black Alien fazendo “Papo Reto”, numa música que diz muito sobre a vida dele. Que honra, não?

Rael: Nossa, nem me fale! Desde o tempo em que eu tinha o grupo Pentagono eu tinha essa vontade de trabalhar com o Ganja. E depois que me tornei um artista solo, em 2010, nunca desisti na verdade, rs! Eu fazia um som e ficava mandando pra ele, que sempre me retornava e tal, mas a agenda nunca permitia. Felizmente dessa vez deu certo, o edital da Natura ajudou a somar nisso também, e eu não poderia estar mais feliz. Sempre imaginei que pro tipo de som que eu faço estar ao lado dele acrescentaria muito à minha música, e eu estava certo. Foi um grande aprendizado, além de o resultado final ter me agradado muito. Quanto ao Black Alien, eu sou um fã dele, mas muito fã mesmo, há tempos. Você pode imaginar então a alegria que é poder dividir um som com ele, uma faixa tão especial né? Eu achei que ele arregaçou na rima, as pessoas vêm me falar que se emocionam muito com a faixa, ela toca de uma maneira especial quem vive ou conhece alguém que vive esse problema, tenho sentido isso.

Move That Jukebox: Outra coisa que me chamou atenção é que você fala de Deus, mas também de orixás. Você é religioso? Como funciona isso para você?

Rael: Olha, minha mãe cantava no coral da igreja, eu fui batizado, mas aquilo que eu canto em “Quem tem fé” é minha vida, sobre as minhas avós. Então às vezes eu vou ao terreiro ali quando sinto que tô precisando. Eu tenho fé, não uma religião, sabe, mas gosto de ler sobre todas elas, o budismo tem ensinamentos que eu acho muito valiosos. Respeito todas elas, acho que de cada uma posso extrair algo que alimenta o meu espírito.

Move That Jukebox: Além de rap, seu som também um pouco de reggae. Como é essa junção para você? Como esses sons se misturaram?

Rael: Muito naturalmente. Quando eu comecei a tocar violão, foi meu irmão quem me ensinou, com músicas do Bob Marley. Como te disse, minha mãe cantava no coral da igreja, e além disso ela gostava de Agepê, Alcione. Meu pai é de Pernambuco, toca sanfona e bandolim, me ensinou a ouvir Jackson do Pandeiro, Luis Gonzaga, que são aliás minhas primeiras memórias musicais. Quando eu me vi músico, veio tudo à tona com naturalidade, e o reggae junto (risos).

Move That Jukebox: No disco, seguida temos “Livros de Faces” e depois “Falacioso”. As duas falam de duas coisas não muito legais na internet. Temos na menina que só fica na internet e termina pelo Whats e na segunda música, os haters. Você sofreu com isso? Um dos versos de “Falacioso”, você fala de “Preocupado com a cor da pele da minha mulher” e recentemente, o Emicida, seu parceiro de gravadora sofreu críticas duras sobre isso. Como conviver com essas coisas tranquilamente?

Rael: Eu sofri também, postei uma foto da minha mulher e fomos alvo de vários comentários pesadíssimos. Não sei como conviver tranquilamente, estou descobrindo ainda, eu acho (risos). É injusto em muitos níveis, mas quando passam a questionar e se sentir no direito de opinar sobre a família que eu formei, se eu poderia ou não, eu não sei, virou doença, né? Tem que resetar o game, não sei o que dizer. Meu pai diz que quem dá ideia pra doido é doido e meio, eu tenho tentado acho que conduzir por aí. A verdade é que no fim, por mais que seja difícil em muitos momentos lidar com esse tipo de situação e ver a nossa família sofrer com isso, é vida que segue, a gente tá com saúde, tá fazendo nosso som, vivendo sem atrasar o lado de ninguém, fazendo churrasco com os amigos, viajando e aproveitando o máximo que pode.