Entrevista: MIX HELL

Pare para pensar em como o Brasil já contribuiu para a música eletrônica mundial. Entre os nomes que você conseguir pescar (The Twelves? Gui Boratto? Edu K?), certamente estará o MIX HELL, projeto eletrônico formado pelo ex-Sepultura Iggor Cavalera e sua esposa, Laima Leyton. Amigos de longa data e parceiros criativos de gente como Justice, Crookers2manyDJs, o duo acaba de concluir uma incrível turnê de Natal pela Europa (o Soulwaxmas), começa 2011 vivendo uma fase de pura efervescência produtiva e, antes de tocar na festa uberlandense Invasão do Fiesta Intruders, trocou algumas idéias com o Move. Sente só.

Em entrevista ao Creators Project, vocês disseram que, quando o MIX HELL surgiu, ninguém estava entendendo o que estavam fazendo. Explica melhor esse contexto pra gente.

Foi um lance orgânico que rolou, a música estava muito chata, o rock repetitivo. Aí começamos a frequentar clubes e era na música eletrônica que conseguíamos ouvir lances diferentes… Hoje em dia percebemos que, na nossa cena, teve um monte de gente que veio do rock como o Simian Mobile Disco, o LCD SoundSystem, o Soulwax e o Justice, que fazia o crossover entre os mundos musicais. Naquele momento nos identificamos imediatamente com todos eles, pois todos buscávamos um som legal cuja finalidade era a de divertir as pessoas… Lá fora o público incorporou o Mixhell nesta cena e tudo rolou. Aqui ainda tinha o resquício de que o Iggor tinha que ser metaleiro e não podia virar DJ…

Muita gente ainda torce o nariz para o MIX HELL por causa dos seus outros projetos, Iggor? Ou você acha que as pessoas estão entendendo a proximidade estética entre tudo o que você fez e faz?

Acho que sim, sempre fiz música que eu amo e não para agradar certos tipos de pessoas. Também sempre busquei e continuo buscando ritmos diferentes em toda a minha carreira. Muitos dos meus ídolos hoje na música eletrônica tem uma trajetória que vem do rock (James Murphy, Soulwax, Simian Mobile Disco), então acredito que não estou sozinho.

Como foi gravar “We Love Animals” – hoje um dos novos grandes hits do eletrônico em todo o mundo – com o Soulwax e o Crookers?

“We Love Animals” aconteceu como tudo com o Mixhell, de forma orgânica e juntando as pessoas que amamos. O Crookers estava fazendo o álbum com as colaborações e, como fomos nós que apresentamos o Crookers para o Soulwax, os italianos acharam que seria legal trampar em três. Dividimos o trampo em beat, Mixhell; bassline, Crookers; e synthline, Soulwax. Os vocais ficaram por conta do Phra, a Laima e nossos filhos.

Pois é, dá pra ver que vocês são bem próximos de muita gente grande nesse meio. Como rola o diálogo com todo mundo? Vocês discutem música com frequência? Tem muita produção colaborativa rolando?

No começo, muita gente do meio – principalmente da Europa, Soulwax e o pesssoal da Ed Banger – conhecia o Iggor pois eram fãs dele. O fato de ficarmos mais fora do Brasil do que aqui nos aproximou muito de todos eles. É claro que o apadrinhamento dos 2ManyDJs deu uma super força, eles foram os primeiros a acreditarem na gente… Discutimos música assim como discutimos a vida, somos amigos de verdade. O Bot dos Crookers e o Steph do Soulwax acabaram de ir embora do Brasil, vieram passar férias com a gente (tocaram juntos dia 7/1 no Bar Secreto, em São Paulo). As colaborações vêm dessa convivência. Tem muuuita música sendo produzida com eles e com outros artistas, só falta tempo para acabarmos tudo!

Iggor, todo mundo ficou surpreso com a sua participação como baterista do JAMAICA no clipe de “Short & Entertaining”. Como rolou a oportunidade? Você tem acompanhado o trabalho dos caras?

Já conhecíamos o Jamaica quando ainda eram Pony Pony, os conhecemos em 2007. O legal desse vídeo é que foi, novamente, uma junção de amigos. O Xavier Rosnay (Justice) como produtor da track e o Jeremie Rozan (Surface to Air) como diretor do clipe. Dois de nossos melhores amigos fizeram a proposta, não pudemos recusar.

Como foi a experiência de tocar no Soulwaxmas? Acompanhei o vídeo-diário no blog de vocês e o espetáculo de Natal pareceu maravilhoso.

Hahaha! O Soulwaxmas é a reunião anual da família! Sempre dizemos que, como bons pais, temos que ver toda nossa família no Natal, então vamos à Europa encontrar nossa família de lá e corremos de volta para encontrar nossos pequenos aqui. O primeiro Soulwaxmas foi como um sonho realizado, os irmãos belgas reuniram em uma única data todos os amigos. Amigos que normalmente estão mega ocupados, com agendas cheias e que raramente se encontram para tocar juntos a não ser em festivais de verão… Foi super bacana e os promoters da Europa ficaram de olho, no ano seguinte mais algumas datas e no seguinte mais… Virou uma tradição, não existe melhor tour para nós.

Pela agenda de shows do MIX HELL é fácil concluir que já se apresentaram nos quatro cantos do mundo. Qual foi o lugar mais bizarro/curioso em que vocês já tocaram?

Ásia é sempre curioso. Jakarta, Singapura e Hong Kong são incríveis e diferentes culturalmente. Mas o mais bizarro foi quando nos chamaram para tocar em Dudigen, na Suíça. Era um bar no meio da neve e ao lado da estação de trem. Não havia mais nada na cidade, só o bar e a estação.

E sobre São Paulo, cidade onde vocês também têm tocado bastante recentemente? Como enxergam a noite da cidade hoje?

Amamos São Paulo e vamos fazer o nosso melhor para continuar tocando aqui sempre! É a nossa cidade do coração, apesar de às vezes nos sentirmos um tanto perdidos sobre o que está acontecendo. Achamos que tem muita gente tocando hits pop e um público sedento por tracks que já conhecem… Às vezes acho que o público fora de São Paulo dá mais atenção às novidades que trazemos…

Entre as novas bandas e DJs que estão surgindo, quem vocês apontariam como promessa para a música eletrônica em 2011?

Tem o Mumbai Science da Bélgica que fez um remix para nós e está sendo tocado por Erol Alkan e Boys Noize.

Quais os planos do MIX HELL para 2011?

Trabalhar, trabalhar e trabalhar! Assinamos com o selo de mais um grande amigo, o Boys Noize. Temos no plano 2 singles e um álbum e, é claro, muita tour!