Entrevista: A política eclipsal do Aláfia

Aláfia. Foto: Divulgação

A big and Aláfia está preparando as malas para fazer uma pequena turnê na Europa (phynos!), o grupo começa a sua viagem no dia 20 de maio no Chilli Out Festival, em Istambul (!!!) e depois segue Paris, Dinamarca, Finlândia e Portugual. Eles lançaram no começo deste ano o ótimo SP Não é Sopa (2017), que tem a cidade de São Paulo como tema central. O que está na cara, né? Duh! O disco traz uma série de músicas com críticas e também com os prazeres de morar em São Paulo. Mas foi nas críticas que o grupo acabou provocando a ira de um certo governador.

Em apresentação no programa Cultura Livre, apresentado pela jornalista Roberta Martinelli, a canção “Liga nas de Cem” foi censurada, porque trouxe os seguintes versos (a versão original da música não fala sobre confira abaixo): ““Liga nas de cem que trinca/Nas pedra que brilha/Na noite que finca as garra/SP é fio de navalha/O pior do ruim/Dória, Alckmin/Não encosta em mim playboy/Eu sei que tu quer o meu fim”. Para quem não sabe, a TV Cultura é uma rede de Tv Pública (logo não devia ter rabo preso com ninguém!), mantida pela Fundação Anchieta, e que se mantém basicamente com recursos vindo do Estado de São Paulo. Os versos que citavam o nome do governador de São Paulo e do prefeito eleito da cidade, foi cortado quando foi ao ar, o vídeo foi retirado do Youtube, mas a TV voltou atrás dia depois. Você pode assistir ao vídeo completo aqui. A música em questão está a partir dos 44 minutos e 7 segundos, se quiser ir direto.

Já aqui você confere a versão gravada pelo grupo no disco, ao vivo no estúdio da Red Bull:

Bom, acontece, que resolvemos fazer uma entrevista com a banda por e-mail e quem nos respondeu foi o Eduardo Brechó, vocalista da banda e também o principal compositor. Dá um olhada!

Move That Jukebox: “SP não é Sopa” é um dos discos mais legais desse ano. A cidade de São Paulo ocupa uma posição central nas letras do disco, e as letras me pareceram ser ao mesmo tempo uma homenagem e um escracho à cidade. Como é essa relação de vocês com São Paulo?
Eduardo Brechó: Obrigado pelas palavras! A relação é bem ambígua mesmo. São Paulo nos acolheu à sua maneira. Metade do nosso bando é imigrante. Escolhemos estar nesta cidade e nós a construímos. A sociedade é opressora e aqui não é diferente, mas não devemos chamar de selva a floresta que nos acolhe.

Move That Jukebox: Nesse último álbum, vocês parecem ter deixado de lado alguns dos temas mitológicos/religiosos que apareceram no “Corpura” e criado letras mais abertamente políticas. Vocês podem comentar essa mudança?
Eduardo Brechó: O Aláfia se pauta nas narrativas míticas presentes na cosmovisão das tradições de matriz africana para lidar com os assuntos que se nos apresentam. Sempre foi assim, deixando os símbolos mais ou menos evidentes nas letras, a raiz do nosso pensamento parte desta fonte. Os orixás estão presentes nos inspirando quando falamos de luta também.

Move That Jukebox: Acho muito louvável a postura de enfrentamento que a banda assume ao chamar Alckmin e Doria pelo nome em “Liga nas de Cem”. Me parece uma atitude sobretudo corajosa no momento político atual. Isso chegou a dar algum problema para vocês?

Eduardo Brechó: O problema que os maus políticos nos dão estão no cotidiano. É a violência policial, a péssima qualidade da educação, o serviço de saúde pública, o racismo estrutural, a corrupção.

Move That Jukebox: Como foi aquele caso de censura na TV Cultura? O que aconteceu, e como vocês se posicionam diante do ocorrido?
Eduardo Brechó: Eles tentaram editar nossa canção a partir da linha ideológica que hoje a TV propaga. Nós contamos o ocorrido para o nosso público afim de alertar sobre o caso de censura e a indignação com o desrespeito à nossa obra. No entanto, não é por ser com a gente, simplesmente. É a inconstitucionalidade do gesto que choca e nos posicionamos contra esta medida. No Brasil, a maior censura é o anonimato do dia a dia que a grande extrema maioria dos brasileiros sofrem. Ter seu nome em listas pode ser até um privilégio. Há centenas de anos, o estado censura família, sobrenome, recursos e oportunidades.

Move That Jukebox: Desde o primeiro álbum do Aláfia, fica claro que a banda tem um vocabulário musical imenso. Vocês pulam de um estilo para o outro com uma facilidade incrível, e unem todos eles com maestria. Juntar esse monte de coisa diferente é resultado de um esforço consciente da banda, ou é algo que simplesmente “acaba saindo”?
Eduardo Brechó: Acaba saindo com o máximo de espontaneidade possível. Naturalmente, também, há um direcionamento estético que amálgama estes diferentes vocábulos. O funk pode ser este recurso que junta tudo.

Move That Jukebox: Mesmo no começo, vocês já mostravam um potencial imenso, mas eu sinto que a cada álbum vocês foram ficando mais confiantes e tendo acesso a mais recursos para realizar sua visão musical. Foi isso mesmo? Como foi esse processo de mudança ao longo dos anos?
Eduardo Brechó: Acho que é isso mesmo. Tocando juntos, aprendemos mais música e a tocar juntos.

Eduardo Brechó, principal compositor e um dos vocalistas do Aláfia. Foto: Divulgação

Move That Jukebox: Essa mistura de sonoridades, junto com a importância que as letras têm na música de vocês, me dá uma vontade muito grande de saber como é o processo de composição da banda. Ele é mais focado em um (ou alguns) membros, ou todo mundo contribui igualmente? As músicas costumam começar pelas letras ou pelas melodias/acordes?
Eduardo Brechó: Temos vários compositores no bando mas o processo de composição é independente da banda. Muito de vez em quando, rola parceria entre os membros. Eu costumo fazer música e letra juntos.

Move That Jukebox: Parabéns pela turnê na Europa! É muito legal ver vocês levando o show incrível de vocês para mais países! Como foi que surgiu essa oportunidade?
Eduardo Brechó: É muito legal expandir esta onda! Estamos nos planejando para esta turnê desde o ano passado a partir dos convites dos festivais. A programação das datas na Europa acontece com muita antecedência.

Move That Jukebox: O som de vocês é recheado de influências profundamente brasileiras, dos ritmos às harmonias até as letras. Dá algum medo de causar algum estranhamento nos shows por lá?
Eduardo Brechó: Não mesmo. Não por isso. A maioria dos contextos que nos apresentaremos são globais.

Move That Jukebox: Os shows que eu vi de vocês foram experiência muito doidas e incríveis, com música, poesia, dança e até uns aspectos místicos e políticos no meio! Vocês vão tentar traduzir isso para as plateias estrangeiras, ou esses encontros vão ser mais focados só na música mesmo?
Eduardo Brechó: Esta é uma questão que depende muito da plateia e da sua receptividade. Tudo é troca. O script do contrato é a nossa poesia e a nossa música e esperamos que ela dê conta de todos estes recados mas adoramos conversar com o público e nos arriscar em outras línguas em conversas informais que podem informar também.

Move That Jukebox: Como vocês conseguem marcar horário para ensaiar todo mundo junto????
Eduardo Brechó: Nas noites de eclipse…Risos!

Para finalizar, dá uma olhada na banda ao vivo lá no Showlivre: