Entrevista: SILVA

Quem diria: um músico brasileiro acaba de ter o seu EP de estreia masterizado pelo mesmo produtor que finalizou os discos do James Blake. Descobrimos há vinte dias que o convite a Matt Colton foi feito por Lúcio SILVA Souza, um capixaba inspirado de 23 anos, de quem você deve ouvir falar bastante nos próximos meses.

Se já não está ouvindo. Desde que SILVA disponibilizou seu EP homônimo para download, comentários tão empolgados quanto consistentes não páram de aparecer por aí. Seja via blogs, grande mídia, fãs (acredite, já rola) ou via gente descrente com a música nacional. O Globo chamou de “música contemplativa para espreguiçar”, o Party Busters falou em “meio chillwave, meio brazuca”, o Miojo Indie comemorou como “um dos mais cuidadosos trabalhos que surgiram ao longo do ano em solo tupiniquim” e a gente, pra entender melhor o fenômeno (experimental? sinestésico? submerso? indie-regionalista?), preferiu conversar diretamente com o rapaz e debulhar o contexto estético que pariu SILVA. O papo rendeu:

Move That Jukebox: Lúcio, de onde você é e o que faz? De onde vem a sua relação com a música?

SILVA: Sou de Vitória e sou um estudante de música, acho que tenho feito isso a maior parte do meu tempo. Minha família, por parte de mãe, tem uma certa tradição musical e acabei tendendo para isso. Fui musicalizado cedo e tive a sorte de ter um tio pianista, irmão mais novo da minha mãe, que me colocava para escutar música o dia todo, quando ele mesmo não estava estudando. Eu e meus irmãos quase que não tivemos escolha.

MTJ: Vitória? Você é conterrâneo do André Paste, certo? Já pensaram em produzir juntos?

SILVA: Sou sim. O André foi o cara que me fez acreditar que eu deveria mostrar meu trabalho para as pessoas. Pensamos em produzir juntos sim e já fizemos alguns esboços. Uma hora vai rolar.

MTJ: Como surgiu a ideia de criar o SILVA? Quais foram as suas principais referências?

SILVA: Eu queria lançar minhas músicas como um projeto, banda, mesmo tendo trabalhado sozinho a maior parte do tempo. Silva é meu nome do meio e o nome que herdei do meu avô materno, que sempre incentivou os músicos da família a acreditarem no que fazem. Inclusive, o violino que eu uso há alguns anos foi ele que me deu. O nome não deixa de ser uma homenagem.

Sobre as referências, tenho um número grande e variado. Embora violinista de formação, eu aprendi a gostar mais das obras pra piano. Schumann é um dos que mais gosto. Adoro Ernesto Nazareth. Por ter sido criado num meio erudito, fica difícil não citar aqueles compositores todos, mas sempre gosto de saber o que meus amigos costumam ouvir, penso que é por isso que eu consegui me desprender um pouco do quadrado acadêmico. Ouço de tudo, quase tudo.

MTJ: O seu EP de estreia é incrível. Inventivo, minimalista em alguns momentos, cheio de detalhes grandiosos em outros. Uma salada de instrumentos clássicos e de elementos eletrônicos que soa incrivelmente harmônica o tempo todo. Pode falar um pouco do processo de produção? Quem trabalhou com você nesse processo?

SILVA: Eu escolhi as músicas que mais gostava e deixei os arranjos todos prontos, com exceção de “Acidental”, que foi feita em parceria com meu amigo Lucas de Paiva, que co-produziu e mixou o trabalho. Gravei duas faixas no Visom, “Imergir” e “A visita”. “12 de Maio” e “Cansei” foram gravadas na minha casa em Vitória e “Acidental” na casa do Paiva aqui no Rio.

MTJ: Foi você quem escreveu todas as letras?

SILVA: Não todas. Tenho um irmão bem talentoso para as letras, o Lucas. Ele é meu parceiro de composição. Quando ouviu “Imergir”, já produzida, pela primeira vez, sentou ao meu lado e escreveu a letra em 30 minutos.

MTJ: É sério que o seu EP foi masterizado pelo Matt Colton, o mesmo produtor que trabalhou nos discos do Jame Blake? Como você chegou até esse cara e o quão importante foi a participação dele no produto final?

SILVA: Eu queria masterizar o trabalho com alguém que entendesse o som. O Paiva me ajudou e escolhemos o Matt Colton, que tem feito trabalhos interessantes com o Sandwell District, James Blake e outros artistas, geralmente da música eletrônica. O trabalho do Matt deu uma refinada na sonoridade final do EP.

MTJ: A encorpada base sonora das suas músicas poderia facilmente vir como plano de fundo para uma letra em inglês (consigo inclusive imaginar um coro em francês sob “A Visita”), mas você preferiu cantar em português. Isso é louvável, mas por que a escolha?

SILVA: Que bom que pensa assim. Eu escolhi o português porque tenho mais facilidade para compor e também porque gosto de cantar na língua, acho que soa bem pro meu timbre vocal.

MTJ: Além da letra em português, identificamos com frequência alguns elementos regionalistas nas suas músicas. Quais foram as suas influências nesse sentido?

SILVA: Isso veio de um professor da faculdade que me apresentou alguns trabalhos do meu estado que até então eu nunca tinha ouvido falar. Uns discos com cantos de lavadeira, ritmos locais e acho que foi isso que me inspirou para criar o clima de “12 de Maio”. Tentei equilibrar e contextualizar as idéias pra que o som fizesse sentido em outros lugares.

MTJ: Há dois meses, viajando com o Paste, ele me mostrou um experimento no laptop dele. Achei muito legal e descobri há pouco que era a demo de “Imergir”. Estávamos comentando sobre essa questão de você vir da música erudita, mas estar produzindo um som tão autêntico e fresco. Você se liga nas novidades musicais do nosso tempo? Costuma se manter atualizado sobre bandas, tendências artísticas, eventos? Como é o seu dia-a-dia de informação sobre música?

SILVA: Não me considero tão ligado e faço um certo esforço pra ficar por dentro do que acontece nesse mundo musical que não pára. Já meus amigos mais próximos são muito ligados e sempre aparecem com alguma coisa interessante para mostrar. Gosto muito de ouvir trabalhos novos, principalmente quando os timbres são autênticos e trabalhados. Quando estou livre, gosto de ler algumas críticas pra ver se descubro coisas boas.

MTJ: Quais artistas/bandas novas mais te chamam a atenção hoje? Se puder, mencione nomes internacionais e brasileiros.

SILVA: Do Brasil, eu diria que o som de hoje que mais gosto é o da Céu, ela tem bom gosto e a banda dela é uma das melhores. Dos gringos, eu gosto demais do Kanye West, Chilly Gonzales, Andrew Bird, El Guincho, The XX, Mark Ronson… ah, tem muita coisa boa acontecendo por aí. Telebossa é um dos melhores trabalhos que eu ouvi ultimamente, um brasileiro e um alemão fazendo mpb do futuro.

MTJ: O SILVA já tem algum show agendado? Algum clipe? Algum remix para produzir? Quais são seus próximos planos de carreira?

SILVA: Já apareceram convites, mas ainda estou terminando de fechar a banda que vai tocar comigo. Não é fácil fazer aqueles arranjos todos com poucos músicos no palco. Já me falaram sobre clipe, mas ainda não apareceu uma proposta firme. Remixar não é uma tarefa das mais fáceis, mas quero fazer. Sobre os planos, agora é terminar logo a faculdade e depois tenho vontade de estudar áudio em algum outro país, aprender de outras fontes. Só não sei se vou fazer isso antes ou depois de gravar o disco.

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Ouça “SILVA”:

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  • Asdrubal Andrade

    São pessoas talentosas como ele que nos faz acreditar que ainda tem coisas muito boas para acontencer nesse país. Parabéns mlk!!! Orgulho capixaba!

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  • Daniela Campos

    Adorei!

  • Pingback: O Silva do Ano | Factóide!()

  • river

    Adorei o som dele desde a primeira vez que ouvi. Realmente é um diferencial nesse mar de coisas sem graça. Sorte, sucesso e vida longa pro Silva!

  • Zezé

    Ele parece o Zezé di Camargo mais novo na 1a foto. Hahahaha =)

    Comentários babacas à parte, o maluco é fera! Merece o sucesso que vem colhendo /o/