Entrevista: Sondre Lerche fala sobre carreira, relação com o Brasil e seus shows no país

Entrevista Sondre Lerche

Na tarde da última terça-feira, estivemos em uma mesa redonda em São Paulo para conversar com uma das atrações que mais esperamos no Popload Festival. Sondre Lerche – que é um dos nomes no dia 16 (sexta-feira), ao lado de Natalie Prass, Emicida, Todd Terje e Iggy Pop, que tocam no mesmo dia, e Spoon e Belle and Sebastian, que tocam no dia seguinte – comprovou a simpatia que expõe em suas bem humoradas postagens em redes sociais. Disposto e aberto a entrar em qualquer assunto, ele contou sobre processos de composição, amadurecimento, sua relação com a música brasileira e sobre as expectativas para o seu show em São Paulo. Leia o papo e entenda por que esse show é imperdível.

 

Aos 18 anos você já falava sobre assuntos com maturidade, porém foi só 10 anos depois que parece ter encontrado sua sonoridade própria, algo bem mais original. Ao longo do tempo, você sentiu algum tipo de auto-cobrança?

Provavelmente eu era mais maduro aos 18 anos do que agora, pelo menos eu achava, como todos que tem essa idade. Eu sabia quem eu era e me sentia muito confiante na música, ao contrário do que acontecia em todo resto da minha vida, apenas na música eu conseguia me expressar. Em Please e também no álbum Sondre Lerche, onde o mais difícil foi escolher um bom título (risos), eu já me senti mais seguro e mais consciente, contando minhas próprias histórias e soando realmente como Sondre Lerche de forma mais confortável, não tão preocupado com o que pareceria como acontecia antes.

 

Em todos os seus álbuns, mesmo nos mais recentes, é perceptível que, apesar de algumas experimentações, você tem um compromisso em ser acessível. Até mesmo quando você chegou a publicar vídeos ensinando a tocar suas músicas, sugeriu essa vontade. Qual sua relação com a música pop dentro do seu processo criativo?

Eu me vejo como duas pessoas. Um compositor introspectivo e sozinho, que escreve para o próprio prazer e pouco pensa no que acharão daquilo, e um performer que somente pensa no prazer do público, desesperado para entretê-lo. E essas duas personalidades brigam entre si, pois cada uma delas tem sua necessidade. Mas quando uma música está pronta, é o performer que fica encarregado de levá-la em frente, e ele precisa muito do público. E pra mim é sempre música pop o que faço, mesmo que minha definição de pop seja diferente. Quando estou no palco quero que minha impopular música pop se torne popular, e isso é complicado porque o lado compositor não está comprometido com a mesma coisa, então há muitos conflitos internos.

 

Você compôs o álbum Please durante um período de divórcio, porém ele não é um álbum triste ou de lamentos. Como foi que você transformou esse período confuso em canções tão positivas e enérgicas?

O resultado do álbum foi surpreendente também pra mim, pois eu comecei a gravá-lo ainda casado, e o terminei em um momento bem diferente. Queria produzir uma música que você pudesse dançá-la e vivê-la, e contei com muitas colaborações para isso. Enquanto isso na minha vida pessoal tudo mudava, e eu não conseguia finalizar algumas canções, esquecia parte delas ou do que elas falavam, e isso parecia estar antecipando o que acontecia – como se elas soubessem mais do que eu. Então, quando o divórcio aconteceu, eu vivia uma crise mas o estúdio era minha fuga, onde eu compartilhava e trabalhava em minhas músicas. Assim, acho que o álbum ficou como ficou pois eu não sou do tipo que gosta de reclamar. Sou uma pessoa construtiva e quis um álbum que falasse sobre o que eu vivia, então lá há desespero, há tristeza mas também há liberdade. Há muitos momentos em que tento entender os dois lados da situação, o que é importante principalmente em um casamento, e entender o lado da outra pessoa. Ao invés de somente perguntar “por que isso está acontecendo comigo?”, perguntar “por que isso está acontecendo?”, e não lamentar sobre o que eu passava, mas sim querer cantar sobre o que eu e a outra pessoa estamos sentindo e em como seguir em frente. E a realidade é implacável, algo de onde você não consegue fugir (a não ser que fique maluco), e eu tento sempre enxergar uma oportunidade com isso. E eu quero estar na realidade, vivê-la e achar novas oportunidades. Então há muita raiva e frustrações em Please, mas também há muito amor. Eu acredito que o presente não muda o passado, e o fato de algo ter acabado não significa que aquilo foi ruim. Por exemplo, em “Lucky Guy” é onde sou grato ao que foi bom. Please é sobre encontrar oportunidades em uma nova realidade. O mundo já está cheio de compositores que só se lamentam enquanto tocam dois acordes – eu me recuso a ser um desses.

 

Sabemos que sua relação com a música brasileira é muito forte. Conte um pouco sobre isso.

Eu amo música brasileira desde que tenho 10 anos, quando tentei desistir das aulas de violão por não me dar bem com a música clássica e meu professor, que era brasileiro, me disse: “Não vou te deixar desistir, vou te ensinar Tom Jobim”. E então eu fui procurar mais coisas brasileiras, além de Tom Jobim e Bossa Nova. As harmonias mexem comigo. Está no meu sistema, assim como alguns garotos gostam de algumas garotas e algumas garotas de alguns garotos, enfim, eu gosto de música brasileira. Acho que eu nasci com isso e é uma grande inspiração para mim. Descobri que coisas muito populares como Bruce Springsteen não eram minha música. Jobim era. Beatles são ótimos, mas não são para mim. Milton Nascimento sim, mais do que John Lennon, Paul McCartney ou qualquer um desses. Eu fui um garoto que aos 14 anos ia para a casa e ouvia Os Mutantes, era diferente de todos os outros. E é assim que eu funciono. E mesmo só estando no Brasil agora, eu sei que conheço mais a música brasileira do que os brasileiros me conhecem – mesmo assim ainda não falo português – mas estar aqui é um grande presente.

 

E em seu país natal? Como você é visto na Noruega onde, inclusive, é um dos jurados do programa The Voice?

A Noruega é um universo paralelo em comparação ao resto do mundo. Porque eu já vivo nos EUA há 10 anos e lá eu tenho uma pequena mas dedicada base de fãs, que se sentem especiais por me conhecerem – como quando eu tinha 16 anos e, por ser apenas esforçado no colégio, e nem ser bom em futebol ou com garotas, conhecer músicas diferentes era o que fazia me sentir especial ou superior – mas diferente disso acontece na Noruega, onde eu estou exposto no mainstream (como no programa The Voice). Eles sabem quem eu sou, conhecem meu rosto, mas muitas pessoas não dão importância à música que eu faço. Não é como se eles realmente não gostassem do que eu faço, mas em vários lugares do mundo há um público que divide esse segredo que sou eu e conhecem todas minhas músicas, mas por estar num programa de TV por lá a coisa é mais superficial, todos me conhecem mas não é como se eu fosse o Bruce Springsteen da Noruega. Penso que a música é algo universal e ela é minha energia, então eu posso ser um idiota na TV na Noruega e um cara super descolado num clube de Nova York. Não importa – eu faço as duas partes e gosto.

 

O que você espera do público brasileiro no show em São Paulo no Popload Festival?

Eu não sei, mas toquei em um pequeno clube no Recife no sábado e foi realmente intenso. Havia fãs que saibam todas as letras e cantavam junto. Era incrível. E em Fortaleza toquei em um lugar maior, onde também tinha muitos fãs mas também tinha alguns que só estavam lá para dançar e isso foi bem diferente. Era mais um público de uma festa, com garotas e garotos tomando seus drinques (diz imitando o comportamento de cada um deles) e foi também estranho mas divertido. Já no Popload serão fãs de música, alguns que me conhecem e outros que não, e eu amo tocar. Se há um palco e um público, eu estarei feliz, então eu me divertirei e espero que o público também se divirta.

 

E o que nós podemos esperar do seu show?

Você sente certa pressão ao estar vindo pela primeira vez a um país a essa altura da carreira, com tantos discos e músicas, e você tem que mostrar qual é a sua para pessoas que já te admiram ou nem te conhecem. Eu fiquei bem animado quando soube dos nomes do line-up, pois são artistas que eu gosto ou com o qual sinto que divido o mesmo público, como Spoon, Todd Terje e Belle & Sebastian. O meu show será em trio, diferente do que tem acontecido na Noruega e na Europa (e espero que isso sirva também para um convite para voltar com o show completo) onde conto com backing-vocals, dançarinas e luzes. Ainda asssim, é uma apresentação muito enérgica e dinâmica, que tende a surpreender as pessoas. Eu me acostumei a me apresentar sozinho e com isso você aprende a ter mais dinâmica. Há muita improvisação também, onde meu baterista poderá flertar com o público demonstrando todo seu conhecimento com a música brasileira. Tocarei coisas do meu trabalho atual, Please, mas será uma sequência ininterrupta de hits.

 

@sondrelerche mandando Bad Law pra quem tá ansiosamente esperando ele no @poploadgig Festival! #poploadfestival

Um vídeo publicado por Move That Jukebox (@movethatjukebox) em

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *