Entrevista: Zémaria

Pode-se dizer que, hoje, o Zémaria é uma das maiores bandas do Espírito Santo, senão a maior. Com cerca de meia década de carreira, NegoLéo, Sanny Lys, Marcel Dadalto e Michel Spon já têm um baita histórico: Além dos dois CDs e vários EPs lançados até agora, o grupo arquivou quatro turnês na Europa nesses últimos anos. Em Julho, inclusive, a banda embarcou em sua quinta visita aos palcos do continente, que se extende até o final do ano. A viagem ainda leva o quarteto ao Neutronix Stage do festival Electric Picnic, um dos maiores eventos culturais da Irlanda que, nesse ano, vai contar com um line-up maravilhoso.

Mas, claro, não é só isso que forma o Zémaria – e, por isso, fui atrás dos caras para descobrir mais.

zemaria

Onde vocês estão nesse exato momento?

Marcel: Estamos em Dublin, ótima cidade! Fizemos alguns shows na Irlanda, também fomos pra Cork, tocamos lá e o povo tava muito animado, cara! Não acredito em como eles se agitam. Tocamos aqui em Dublin muitas vezes, também, e depois vamos tocar em Berlim, aí vamos pra Londres e voltamos pra Dublin.

Quem compõe na banda?

Sanny: Eu e Marcel. A gente faz muita coisa junto. Não temos regras!

Marcel: É, a gente costumava tocar com uns amigos também, a Sanny trouxe muita coisa dos amigos dela, eu trouxe muita coisa dos meus. Compor pra gente é tipo uma festa.

Mas vocês são um quarteto, na verdade.

Marcel: Sim, temos o baterista, NegoLéo, que também compõe e já escreveu bastante coisa pro Zémaria e o Michel, que é o baixista.

Mais cedo você me falou que foi o dia de lavar a roupa do Zémaria. Não deveria ser um dia pra aproveitar, conhecer a cidade e tudo o mais?

Marcel: A gente gosta de conhecer os locais em que a gente toca, falar com as pessoas. Fazer turnê não é só tocar em clubes com luzes e flashes. A gente tem essas festas, também amamos tudo isso, mas…

Sanny: É sempre bom ver os castelos. Amo castelos. Acho incrível poder ver prédios tão velhos, as igrejas…

Marcel: Verdade! A gente não tem muitos castelos no Brasil… tipo, eu olho e penso: “nossa, esses castelos são mais velhos do que o meu país!”

*Nego Léo entra na sala*

Há quanto tempo vocês estão na Europa, nessa turnê?

Sanny: A gente ta completando a terceira semana hoje!

Mas não é a primeira vez do Zémaria aí, né?

Sanny: Não, já é a quinta vez!

E como é o esquema? Vocês pagam tudo por aí ou existe alguém pra dar uma força na parte financeira?

NegoLéo: A gente recebe um apoio cultural do governo do Espírito Santo, mas só para as passagens de avião. O esquema aqui é bem parecido com o do Brasil.

Marcel: Fazemos tudo como uma banda independente. Temos ajuda também de uns amigos por aqui, de umas casas de shows, mas é tudo bem indie, como sempre fizemos, e funciona muito bem!

Como anda o feedback do público europeu? Vocês vêem muita diferença do brasileiro?

Sanny: Na verdade, não. A gente já tem muita história no Brasil, então acompanhamos o crescimento do público. No início, a gente sentia que tinha um povo meio no “what the hell, isso é música eletrônica ou não? Não sei se eu gosto”. Aí, de repente, o electro ficou muito popular, e agora todo mundo acaba dançando nos shows. Aqui é um pouco diferente, as pessoas são mais rápidas.

Marcel: Aqui acho que ta todo mundo mais acostumado com isso tudo. Quando terminamos o show, sempre tem um pessoal que procura a gente pra bater um papo e eles aparecem com uma lista enorme de artistas pra compararem com a gente – e eles acertam! Eles realmente sabem do que estão falando! No Brasil temos uma resposta completamente diferente, nosso gênero não é muito popular.

Bem, vocês provavelmente ouvem muito electro. O que vocês têm pra recomendar pra gente?

Marcel: Eu tenho ouvido muita coisa antiga… Pixies, Fugazi, um dia desses eu tava ouvindo Metallica, as coisas antigas deles.

Sanny: Golden Filter, que ta com coisa nova…

E produto nacional?

Marcel: É difícil dizer, cara. Adoro todos os meus amigos de Vitória, todo o pessoal do Smoke Island. Controle Technique, F.U.E.L., Trepax, Joe.Zee, Mickey Gang. Recomendo todos eles!

Fala mais pra gente do Smoke Island.

Smoke Island é um grupo de caras malucos de Vitória que produzem música todos os dias. Esses caras só querem um jeito de espalhar suas canções pelo mundo. No site a gente tem um blog, notícias sobre a cena local, sobre a cena do Brasil… É nossa casa, é onde começamos, e de repente o negócio ficou muito grande.

E é tudo lançado por lá virtualmente, né?

Pois é, tudo online. Só fazemos alguns CDs fisicamente quando o Zémaria entra em turnê, por exemplo, pra vende-los nos shows e tal. Não acredito em venda de álbuns em lojas, não acredito nessa merda. Só queremos espalhar nossa música para podermos tocar mais

A gente não costuma ler muito sobre o Zémaria por aqui, tanto em blogs quanto na “grande mídia”. Porque vocês acham que isso acontece?

Sanny: Acho que a gente tem um pouco de culpa nisso. Temos trabalhado muito na Europa e tal. Quando a gente ta em Vitória, nos preocupamos em nos divertir lá, tocar e etc., aí acho que ficamos meio preguiçosos! Agora que o CD novo ficou pronto vamos tocar no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, enfim, lugares que adoraremos tocar, já que estamos fora por algum tempo.

Quais artistas vocês acham que influenciaram e influenciam o som do Zémaria?

Sanny: Eu não sei… ouço muita coisa, adoro mulheres cantando. Ouço desde New Young Pony Club até Nina Simone, então eu meio que não sei dizer o que acaba influenciando.

NegoLéo: Acho que somos muito influenciados por nós mesmos. Passamos muito tempo produzindo, então acho que ficamos sem tempo pra pegar influência de outras bandas.

Vocês mudaram bastante do 11 Trax (2007) pro The Space Ahead, que saiu no mês passado. O que causou isso?

Marcel: Eu não sei… a gente é diferente. Coisas acontecem porque têm que acontecer e acreditamos nisso. Não tentamos forçar nada. Acho que a gente sofre influência das cidades, também. O 11 Trax foi feito em São Paulo, então a cidade levou bastante dessa vida 24 horas, de segunda-a-segunda, de boates e de música para dançar até o disco. Enquanto fazíamos o novo álbum estávamos tocando pela Europa, queríamos fazer boas canções e só.

Mas ele também se encaixa bem quando se quer dançar…

Marcel: É, o dancefloor ta no nosso sangue, eu acho. Não sei o que acontece. Eu, NegoLéo e Michel viemos da escola do rock, tocávamos em bandas de rock. Essas coisas acontecem naturalmente.