Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 1: o impacto do terceiro disco do Los Hermanos

ventura - 10 anos

Arte: Priscila Barker

Texto: Iberê Borges

Era 2001/2002 e eu me apegava cada vez mais àquele disco que me fizera conhecer realmente o Los Hermanos, O Bloco do Eu Sozinho. Ele me mostrava uma banda que não era só aquele hit da rádio, a grande “Anna Júlia”. Um Los Hermanos novo que eu iria entendendo aos poucos e me apegando mais. Eu estava conhecendo músicas através de mim mesmo, pela internet. Desamarrava-me das rádios e dos CDs dos primos para poder começar a procurar minhas próprias coisas. Era algo novo. Precisava de coisas novas e já tinha algumas, a maior parte delas vinha do exterior. Algumas nacionais faziam minha cabeça – muitas, aliás – mas acabava de chegar uma que mudaria totalmente meu conceito sobre música de forma geral. Eu me apaixonava pelos Los Hermanos.

Então, em 2003, era lançado Ventura, o terceiro disco daquela que já era minha banda favorita.

E o Ventura mudou tudo, menos o fato de manter o Los Hermanos lá, como minha banda favorita. Mas ainda mudou a mim. Mudou a carreira do grupo. Mudou a atitude da maior parte das bandas nacionais que existiam e mudou aquelas que ainda iriam surgir. Mudou o mercado de música nacional. Mudou a o conceito de fãs no século XXI no Brasil.

Ventura trouxe tudo ao Los Hermanos de uma só vez. O posicionamento indie, com toda atitude blasé e a síndrome de underground que isso permite, trouxe a crise de um lançamento por uma grande gravadora, trouxe confusões com outras bandas, trouxe milhares de fãs que fariam dela uma banda com os fãs mais xiitas e insuportáveis que existiriam, trouxe algumas das melhores músicas já lançadas no nosso rock nacional. Aliás, parecia que, enfim, nosso rock tinha algo que era só nosso. As influências do grupo soavam assim, como influências, não como cópia, como geralmente acontece. Você já não conseguia distinguir até onde foi algo do Radiohead ou do Chico Buarque que moldou o pensamento de Amarante ou Camelo. Onde acabava o Weezer e começava o Acabou La Tequila. Cake ou Belchior? Tínhamos algo nosso. A porta estava aberta para centenas de bandas tentarem também – o cenário indie rock nacional parecia ter seu líder e ele afetaria tudo.

Parecia fácil seguir o Los Hermanos, mas não era possível entender se eles queriam isso. O público pedia e vinha uma chuva de novos nomes que soavam como os cariocas. Essa fase já passou (ou está passando), e nenhum deles apresentou nada que se assemelhasse ao poder dessas 15 canções que compõem o Ventura. E esse poder não passou e nem está perto de passar.

Pois já faz 10 anos desde então e esse é o momento perfeito para você colocar pra tocar, por um pouco mais de 50 minutos, o Ventura. Sinta de novo, ou pela primeira vez, nunca se sabe, todas essas emoções. Aproveite o momento mais inventivo e inspirado da banda que não se decide se acabou ou não, mas que com certeza já fez o suficiente para se tornar uma das maiores do Brasil, com esse que é o melhor álbum brasileiro lançado na primeira década do século.

Fique ligado no Move That Jukebox nesta semana, durante a qual publicaremos, diariamente, textos especiais com curiosidades, informações, depoimentos e relatos em comemoração ao Ventura.

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  • Foi o Ventura que me fez apaixonar pelo Los Hermanos. Melhor cd pra mim também.