Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 3: da bonança à ventura, o processo criativo e de produção

ventura - 10 anos

Arte: Priscila Barker

Texto: Priscila Barker

É estranho pensar em uma banda que não deseje fama, e que se incomode tanto com isso que decida remar contra a maré. Mas foi exatamente esse o pensamento dos barbudos do Los Hermanos durante a concepção de Ventura, seu terceiro álbum de estúdio.

Uma sequência de fatores que decorrem do início da carreira do quarteto influenciou diretamente o processo criativo de Ventura, trabalho que podemos considerar como marco oficial da “nova fase” da banda.

Após a estreia triunfal, com direito a mais de 100 mil cópias vendidas do primeiro disco e o hit “Anna Júlia” embalando públicos das mais diversas idades e estilos, os Hermanos viram suas vidas tomando um rumo, até então, desconhecido. A pressão da mídia somada ao salto repentino de “banda cult underground” para “a banda mais queridinha do Brasil” foi um grande choque de realidade.

A consequência disso foi o experimental e complexo Bloco do Eu Sozinho, álbum que agradou a crítica, mas não sua gravadora – a Abril. Na ocasião, o baterista Rodrigo Barba contou que durante a fase de composição não houve pretensão alguma em repetir o sucesso alcançado anteriormente. Pediu, levou! As vendas do Bloco nem chegaram perto do esperado. Em contraponto, foi esse distanciamento do pop e o gosto por uma sonoridade atípica que começou a atrair olhares para a banda.

Dois anos depois, foi a vez de conceber Ventura. Álbum que, aliás, quase foi lançado com o nome Bonança. Da calmaria para a sorte grande!

Sem um método específico, as canções começaram a ser compostas durante a turnê do Bloco. Ora melancólicas – Alto aqui do sétimo andar / Longe, eu via você / E a luz desperdiçada de manhã” –, ora mais agressivas – “É simples desse jeito / Quando se encolhe o peito / E finge não haver competição” –, as letras são uma união, muito bem dosada, de razão e emoção. Passam um recado direto e retratam um grupo muito mais sério e sem medo de se mostrar como realmente é.

Para trabalhar na gravação e pré-produção do álbum, a banda preferiu o contato com a natureza e o sossego de um sítio/estúdio, em Petrópolis, onde se isolou durante dois meses. A distância da cidade proporcionou uma maior dedicação e atenção aos arranjos e detalhes técnicos.

Outro fato importantíssimo foi a troca de gravadora após a falência da Abril e o reforço de Kassin, da BMG, como novo produtor da banda. O cara atuou como o quinto Hermano e, além da produção, ficou responsável pelas linhas de baixo durante o período em estúdio.

Embora a sonoridade do álbum puxe mais pra MPB, é nítida a influência do ska, do samba e do rock – estes dois últimos, já presentes desde o início da carreira dos caras. Metais muito bem explorados e riffs marcantes reforçam a identidade única de Ventura, disco icônico e que completa uma década de vida agora, em maio de 2013.

Fique ligado no Move That Jukebox nesta semana, durante a qual publicaremos, diariamente, textos especiais com curiosidades, informações, depoimentos e relatos em comemoração ao Ventura.

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