Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 4: entrevistas da época e a reação da crítica em 2003

ventura parte 2

Arte: Priscila Barker

Texto: Vinícius Felix

O ano de 2003 não parece distante até que você pensa no quanto as coisas mudaram. Pode ser bem assustador. Onde você estava em 2003? No meu caso, lembro que ainda estudava. Tava na sétima série e o mundo ainda parecia ser bem pequeno. Como não tinha internet em casa, minha fonte era a televisão – basicamente, horas de MTV. Ouvia Nirvana, Strokes, Hives. Manjava de Evanescence e Linkin Park. Tinha o disco do 50 Cent e curtia os clipes da Beyoncé. Alguém se lembra do t.A.T.u.? 2003! Tribalistas? 2003! Luka? 2003!

Na minha cabeça, os Los Hermanos eram uma banda pouco conhecida. Sabia de “Anna Júlia”, da recusa com o hit, mas não acompanhava o grupo. O Bloco do Eu Sozinho passou e eu nem sabia o que era. Em 2003, comecei a acompanhar pela televisão. Lembro do vazamento do terceiro disco sendo noticiado pela MTV e do Edgard entrevistando a banda quando o disco saiu de fato. No papo, Marcelo Camelo falava algo do tipo: “Foda-se o Chico Buarque”. Ainda assim, não virei fã. Fui gostar da banda anos depois.

Enquanto eu ignorava o grupo, ele criava um mar de fãs e ganhava os críticos da imprensa, que sempre tiveram uma relação curiosa com a banda. Entre um bom material e coisas bizarras, os Los Hermanos sempre foram uma das poucas bandas de rock que sabia falar, que fornecia gás para matérias. Barbas, “Anna Júlia” e a crítica ao resto do cenário nacional rendiam. Por isso, aqui faço um apanhando de diferentes textos, análises, entrevistas e resenhas do disco e de shows da turnê do Ventura. A coletânea não é completa pela extensão do material publicado. Os Los Hermanos na época não fizeram um circuito parecido com o que as bandas indies fazem hoje – em 2003 eles ainda tocavam no rádio e iam ao Faustão. Era outra história. A falta de muito material aqui se deve também a um problema da época: a inexistência digital de muita coisa. Quase tudo está fora do ar.

Na internet de 2003, os Los Hermanos tinham diversas páginas alimentadas por fãs. Muitas não existem mais. As que sobreviveram estão cheias de material bom, mas que muitas vezes não passam de um monte de links quebrados. Outro detalhe: esses recortes consideram apenas o período em que o disco foi lançado, o intervalo entre 2003 e 2004. Nada de antes e nem de depois. O material funciona como ponto de partida para quem se interessar em ir mais longe na história do disco. Aproveite os links:

– A definição da própria banda

Camelo e Amarante estudaram jornalismo, mas era Medina quem cuidava dos textos relacionados a banda. Na época do Ventura ele fez um bom resumo da história da banda até ali:

Ventura primeiro se chamou Bonança, e foi nessa época que gravações de um ensaio vazaram na internet, transformando nosso disco no primeiro nacional a cair na rede antes do lançamento. Na verdade era só um ensaio, mas isso de certa forma nos mostrou como havia expectativa, como o disco era aguardado ansiosamente pela imprensa e pelos fãs. Algumas semanas depois Ventura estava oficialmente nas lojas e mais uma vez caímos na estrada. Logo nas primeiras semanas o coro das músicas novas era alto e nos levou a acreditar que dessa vez tudo seria muito mais fácil, e foi. As 500 pessoas dos shows pequenos se transformaram em 700, em 1000, 1500, 2000 pessoas. Curitiba, Porto Alegre, Recife, Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e até o próprio Rio foram algumas das cidades que nos deixaram sem palavras tamanha a generosidade do público. Casas lotadas, shows inesquecíveis, essa felizmente tem sido a nossa rotina. “Cara Estranho” tem tocado bem em todo Brasil e gera novos shows.Pra quem não sabe, ventura significa sorte, boa ou má. É assumir que não se alcança satisfação que seja duradoura sem uma dose considerável de risco. Significa de acordo com o que se vê, e assim queremos nossa música. Um amigo sabiamente disse que um disco nada mais é do que uma fotografia de um determinado momento da carreira de uma banda. Na foto de Ventura, o que se vê é a mesma vontade que havia em nossos discos anteriores, de se fazer música de acordo com o que somos, mesmo que no momento seguinte sejamos uma outra coisa, mesmo que pareça fora de sintonia com nossos contemporâneos. É uma grande responsabilidade saber que cada passo que damos, que cada disco que lançamos, fará parte de nossa história.”

Os shows

Recife – Abri Pro Rock (Los Hermanos Blogger): “Realmente, não sei como começar. O show foi sensacional. Sem palavras para explicar. Tinha muita gente e todo mundo cantava as músicas da banda. Los Hermanos começou tocando “Fingi na Hora Rir”, como fez nos últimos dois shows. No total foram quinze músicas, sendo cinco do primeiro disco (“Tenha Dó”, “Descoberta”, “Pierrot”, “Quem Sabe”, “Vai Embora”), sete do Bloco (“Todo Carnaval tem seu Fim”, “A Flor”, “Retrato pra Iaiá”, “Cadê Teu Suin?”, “Sentimental”, “Fingi na Hora Rir” e “Adeus Você”) e três músicas de Ventura (“Cara Estranho”, “O Vencedor” e provavelmente “Último Romance”). O que eu posso dizer é que as músicas novas são muito boas, principalmente a música que o Amarante cantou que deve ter sido “Último Romance””

Rio de Janeiro – (Universo Musical): “A ousadia dos Hermanos foi grande: reservar dois dias do Canecão, tradicional casa de shows carioca, para o lançamento de um disco que, com dois meses nas lojas, ainda não é um estouro comercial. Mas, se os números de Ventura (BMG) – 20 mil cópias vendidas – ainda não são a garantia de bolso cheio para Marcelo Camelo (voz e guitarra), Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina (teclado) e Rodrigo Barba (bateria), o mesmo não se pode dizer dos shows. Pelo menos no Rio de Janeiro.”

São Paulo – (Estadão): “Se a intérprete da vez é a Maria Rita, o compositor da hora é Marcelo Camelo. O músico dos Los Hermanos teve três músicas suas incluídas no festejado disco de estréia da cantora: “Cara Valente”, “Santa Chuva” e “Veja Bem, Meu Bem””

O disco do ano?

Não é nada fácil encontrar listas dos melhores discos de 2003. Uma das mais interessantes é essa da Folhateen, onde quase 20 mil leitores votaram. Os Los Hermanos perderam só para Maria Rita e Sandy & Júnior – pelo menos ganharam do Charlie Brown Jr.

1) Maria Rita – Maria Rita (2.651)
2) Identidade – Sandy e Junior (1.753)
3) Ventura – Los Hermanos (1.729)
4) Admirável Chip Novo – Pitty (1.606)
5) Cosmotron – Skank (994)
6) Bocas Ordinárias – Charlie Brow Jr. (978)

A treta com o Chorão

Por falar em Charlie Brown… Foram nas entrevistas da época do Ventura que Camelo começou a soltar algumas provocações direcionadas ao Chorão. Em 2004, você sabe como essa história terminou, né? Não consegui encontrar a íntegra da entrevista à revista Oi, que fez Chorão explodir. Mas achei uma alfinetada em um papo no site Universo Musical:

UM: Vocês falaram tão mal do Charlie Brown Jr… Os Hermanos tocariam com eles?

Camelo: Acho um encontro pouco provável. É uma banda com a qual temos discordâncias estéticas. Não é juízo de valor pessoal. Eles são precursores desse estilo que combatemos.

– Grandes perguntas, pequenas respostas

Entrevista do Amarante para o site Whiplash:

Whiplash: No primeiro CD o tema básico e que chama mais atenção seria o amor não correspondido e suas frustrações. Já no Bloco Do Eu Sozinho o tema parece fugir um pouco dessas frustrações, como se essa fase já tivesse passado, e podemos destacar o sentimento amor em todas suas formas. Já em Ventura, o amor se amplia não só na relação homem-mulher, notamos um amadurecimento ainda maior nas letras, passando a tratar das relações interpessoais e intrapessoais. Como foi esse processo?

Amarante – É a vida.

– A barba

A questão sempre aparecia: “Sem padrinhos e ousados, Los Hermanos lançam novo CD

Terra: Afinal, por que vocês estão sempre de barba? Não dá trabalho cuidar dela? É uma estratégia visual proposital?

LH: É coincidência. Um é porque tem o queixo pequeno, o outro… Mas em alguns casos é só porque não queremos fazer a barba. Não forçamos nada para conquistar alguém. O Bruno, por exemplo, está de barba. É fácil, é só deixar e dar uma podadinha de vez em quando.

– As resenhas

Bruno Natal elogiou o disco na Zero:

“O novo disco, Ventura, agora pela BMG, é um vôo à meia altura. Após o sucesso de público no primeiro e o de crítica no segundo, pode ser que agora atinjam ambos. Não que esse tenha sido o objetivo, as músicas não refletem este tipo de preocupação e continuam com tanta personalidade quanto a banda. Ventura é o amadurecimento do formato que começou a surgir no segundo disco, como se desse o passo definitivo na direção apontada pelo Bloco. As músicas ganharam mais unidade entre si, sonora e esteticamente, o que acaba tornando o disco mais fácil de escutar. Sem perder a qualidade. Público e crítica, olha só.

Alexandre Matias lembra que o disco não era só bom, mas o registro de uma das poucas bandas brasileiras que se arriscavam:

“Músicas como “Samba a Dois”, “A Outra”, “O Vencedor” e “Cara Estranho” habitam o meio-termo entre a música pop e a MPB e mostram que o grupo segue firme e forte rumo a um futuro não apenas promissor, mas ousado e inventivo, qualidades raras na música brasileira da virada do século.”

A crítica do Jornal do Brasil escrita por Nelson Gobbi começava impactando:

“Se o Los Hermanos matou “Anna Júlia” em seu segundo disco, Bloco Do Eu Sozinho, desta vez seu corpo foi esquartejado, cremado e enterrado sob grossa camada de concreto.”

Hermano Viana também deu uma letra para a Trip:

“Lembra o que mais gosto no rock argentino. Ou Chico Buarque atacado pela ingenuidade poética do Renato Russo e acompanhado pelos Pixies. Ou nada disso… Música para cantar junto e ficar feliz da vida.”

Pedro Alexandre Sanches na Folha:

“Agora, Los Hermanos querem se reconciliar com os gregos da platéia e com os troianos da crítica. Ventura tenta ser o meio-termo entre o ímpeto infanto-juvenil do momento um e a ansiedade juvenil do momento dois. Aproxima-se de um tom ponderado, nem tanto cá, nem tanto acolá, carregando consigo os benefícios e desvantagens inerentes a tal meio-termo.”

Jonas Lopes no Scream & Yell:

“Ao contrário do que vem sendo dito por aí, Ventura não chega nem perto de ser uma continuação do Bloco do Eu Sozinho. Também não é um disco de samba ou MPB e de forma alguma consagra a dupla de compositores Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante como os novos Chico Buarque e Caetano Veloso.”

– A vergonha alheia

Isso já é um clássico do YouTube. Os momentos bizarros que os Los Hermanos passaram diante das câmeras mostram o quanto o jornalismo pode ser burro, despreparado e até desonesto. Do período do Ventura, temos essa entrevista para uma afiliada da Rede Globo em Brasilia. Na introdução, a jornalista lista parecerias da banda com Caetano Veloso (!) e Elis Regina (!!!), depois chama Camelo de Marcelo Campelo. A primeira pergunta é clássica: “Para fazer parte da banda tem que ter barba?”

Na televisão

Bem Brasil:

Tim Festival:

Jô Soares:

Faustão:

Doc. Fanático (exibido na MTV em 2003):

Fique ligado no Move That Jukebox nesta semana, durante a qual publicaremos, diariamente, textos especiais com curiosidades, informações, depoimentos e relatos em comemoração ao Ventura.

Leia também: Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 1: o impacto do terceiro disco do Los Hermanos

Leia também: Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 2: “O Vencedor”

Leia também: Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 3: da bonança à ventura, o processo criativo e de produção

Leia também: Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 5: o longo eco do terceiro ato do Los Hermanos

Leia também: Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 6: a história sobre o “vazamento” do disco