Especial 10 Anos de “Ventura” – Parte 5: o longo eco do terceiro ato do Los Hermanos

ventura - 10 anos

Arte: Priscila Barker

Texto: Victor Caputo

Desde o surgimento do Los Hermanos, ficou praticamente impossível encontrar resenhas de bandas brasileiras sem que de alguma forma eles também não fossem citados. Chega a ser engraçado como é difícil não tocar no nome de Marcelo Camelo ou Rodrigo Amarante em uma análise, mesmo que já tenha se passado mais de uma década desde que “Anna Julia” estourou. E isso não acontece por causa daquela música, mas principalmente pelo sucesso absoluto que foi o disco Ventura.

Não faço esse comentário apontando dedos aos que escrevem sobre música. Eu mesmo abusei das citações aos Los Hermanos em alguns textos. Cheguei a citar a banda para falar que um novo álbum não soava como os clássicos do Los Hermanos. Chega a ser cômico a forma como era complicado escapar da comparação.

Com este fato escancarado aos nossos olhos, fica a óbvia pergunta: por que isso acontece com tanta frequência? A explicação mais fácil é de que a influência deles é tão forte que muito do que foi produzido depois levava alguma marca loserhermanosíaca. A outra, que pode deixar alguns uns pouco chateados, é que o rock independente brasileiro ficou menos criativo desde então.

O leque se fechou. Começou um tal de falar de sambas nas letras e fazer ele soar nos ouvidos, por mais que aquilo não parecesse natural. Toda uma geração de roqueiros alternativos, barbudinhos e vestidos com camisas xadrez, passou a se atrever a falar sobre samba. Não se passava de um eco do desafio lançado pelo primeiro verso de “Samba a Dois”, a faixa de abertura de Ventura.

Por favor, não venham implicar comigo, dizendo que quero uma cópia da música que chega da Inglaterra ou dos Estados Unidos. De maneira nenhuma. Não nos falta bons exemplos de rock com elementos nacionais. O Los Hermanos chegou ao status que tem graças a uma sonoridade criativa, com a ousadia de arriscar algo novo depois de estourar com algo banal como “Anna Julia”. Ou seja, foram criativos.

Antes deles, temos outra penca de bons exemplos misturando elementos nacionais com música estrangeira. Podemos voltar até os tempos do Tropicalismo. Os Mutantes e sua aplicação prática do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Ali, o rock brasileiro obedecia bem às palavras do poeta modernista. Pegavam o que bem lhes entendia da música internacional e colocavam pitadas de brasilidade ali. Saltemos para 1991. Chico Science & Nação Zumbi saíram do mangue e estouraram mostrando a mesma mescla. Desta vez a linda combinação era um punk rock carregado com maracatu. E o Los Hermanos obedeceu à mesma regra. Misturou o samba brasileiro com o rock alternativo que vinha de outras partes.

De maneira nenhuma quero colocar a culpa de artistas sem gracinha nos caras do Los Hermanos. Eles fizeram sua parte. Criaram boas músicas e deixaram um legado, talvez pesado demais para alguns. Mas, de qualquer maneira, a culpa é da criatividade — ou da falta dela.

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  • nadaver

    alguém, please, me deixe ouvir o álbum Coitadinha Bem Feito! É um tributo à Angela RoRô; não acho em canto nenhum – chatiada!!!

  • Paulo Gallo

    Pô, não é nada difícil achar o disco: http://www.coitadinhabemfeito.com.br