[Especial mês do Rock] Uma pequena história sobre “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith

A série de postagens em homenagem ao Mês do Rock está chegando ao final, e eu não poderia deixar de citar o disco que mudou a minha vida, simplesmente repassando um trecho do livro escrita pela própria: Patti Smith, falando um pouco sobre a gravação de Horses, seu álbum de estreia e, principalmente, sobre a fotografia da capa, feita por Robert Mapplethorpe. O livro em questão se chama “Só Garotos”, recomendadíssimo por aqui. Boa leitura:

No dia 2 de setembro de 1975, abri as portas do Estúdio Electric Lady. Ao descer a escada, foi inevitável me lembrar de quando Jimi Hendrix parou por um momento para conversar com uma menina tímida. Entrei no estúdio A. John Cale, nosso produtor, estava na mesa de controle, e Lenny, Richard, Ivan e Jay Dee estavam lá dentro na sala de gravação, ajustando os equipamentos.
Nas cinco semanas seguintes gravamos e mixamos meu primeiro álbum, Horses. Jimi Hendrix nunca mais voltou para criar sua nova linguagem musical, mas deixou para trás um estúdio que ressoava todas as esperanças do futuro da nossa voz cultural. Essas coisas estavam na minha cabeça desde o momento em que entrei na cabine para gravar a voz. A gratidão que eu sentia pelo rock and roll por ter me ajudado a atravessar a adolescência difícil. A alegria que sentia ao dançar. A força moral que eu reunia ao me responsabilizar pelas atitudes de alguém.
Essas coisas estão todas entranhadas em Horses assim como uma saudação àqueles que pavimentaram o caminho antes de nós. Em “Birdland”, embarcamos com o jovem Peter Reich enquanto ele esperava que seu pai, Wilhelm Reich, descesse do céu e o fizesse nascer. Em “Break it up”, Tom Verlaine e eu escrevemos um sonho em que Jim Morrison, amarrado feito Prometeu, de repente se liberta. Em “Land”, imagens de meninos gays mesclados com cenários da morte de Hendrix. Em “Elegie”, lembrando de tudo, passado, presente, futuro, daqueles que perdemos, estávamos perdendo e acabaríamos perdendo.

Nunca houve dúvida de que Robert (Mapplethorpe) faria meu retrato para a capa de Horses, minha espada sonora embainhada por uma imagem de Robert. Eu não fazia idéia do de como ficaria, apenas que deveria ser verdadeira. A única coisa que prometi a Robert foi que eu usaria uma camisa branca sem nenhuma mancha.
Fui até a loja do Exército da Salvação na Bowery e comprei uma pilha de camisas brancas. Algumas eram grandes demais para mim, mas a que eu realmente gostei estava bem passada e tinha um monograma abaixo do bolso da frente. Lembrou-me uma foto que Brassaï fez de Jean Genet usando camisa branca com monograma e mangas arregaçadas. Havia um RV bordado na minha camisa. Imaginei que pudesse ter sido de Roger Vadim, o diretor de “Barbarella”. Cortei os punhos das mangas para usar por baixo do meu paletó preto enfeitado com o broche de cavalo que Allen Lanier me dera.
Robert queria fotografar no espaço de Sam Wagstaff, porque a cobertura no número 1 da Fifth Avenue era banhada de luz natural. A janela do canto fazia uma sombra que criava um triângulo de luz, e Robert queria usá-la na fotografia.
Saí da cama e percebi que estava tarde. Corri com meu ritual matutino, fui até a padaria marroquina da esquina, peguei um pão de casca grossa, um ramo de hortelã fresca e um pouco de anchova. Voltei, fervi água com a hortelã dentro. Derramei azeite no pão aberto, nas anchovas, e coloquei-as dentro do pão, jogando um pouco de pimenta vermelha. Servi-me de uma xícara de chá e achei melhor ir vestir minha camisa, sabendo que acabaria deixando cair azeite na frente.
Robert veio me buscar. Ele estava preocupado porque o céu estava muito fechado. Terminei de me vestir: calça preta de pregas, meia branca de linho, sapatilhas pretas. Acrescentei minha fita favorita, e Robert limpou os farelos do meu paletó preto.
Fomos para a rua. Ele estava com fome, mas se recusara a comer meu sanduíche de anchova, então acabamos parando para um mingau com ovos no Pink Tea Cup. De alguma forma, o dia estava passando bem depressa. Estava nublado, e Robert ficava o tempo todo vendo se o sol saía. Até que, no fim da tarde, o céu começou a abrir. Atravessamos a Washington Square com o céu ameaçando fechar de novo. Robert estava preocupado que fôssemos perder a luz, e fomos correndo o resto do caminho até o número 1 da Fifth Avenue.
A luz já estava esmaecendo. Ele estava sem assistente. Nunca conversávamos sobre o que faríamos, ou como ficaria. Ele faria a foto. Eu seria fotografada.
Eu tinha a imagem na cabeça. Ele tinha a luz na cabeça. Simplesmente.
O apartamento de Sam era espartano, todo branco e quase vazio, com um abacateiro alto junto à janela que dava para a Fifth Avenue. Havia um imenso prisma que refratava a luz, quebrando-a em uma cascata iridescente na parede defronte ao aquecedor branco. Robert posicionou dentro do triângulo. Suas mãos estavam um pouco trêmulas enquanto se aprontava para a foto. Fiquei parada.
As nuvens continuavam indo e vindo. Aconteceu alguma coisa com seu fotômetro, e ele ficou um pouco agitado. Fez algumas fotos.
Largou o fotômetro. Uma nuvem passou e o triângulo desaparesceu. Falou: “Sabe, eu realmente gosto da brancura da camisa. Você pode tirar o paletó?”.
Joguei o paletó no ombro, tipo Frank Sinatra. Eu era cheia de referências. Ele era cheio de luzes e sombras.
“Voltou”, ele disse.
Fez mais algumas fotos.
“Consegui.”
“Como você sabe?”
“Eu simplesmente sei.”
Ele fez doze fotos naquele dia.
Em poucos dias me mostrou um contato. “Essa aqui tem a mágica”, ele disse.

Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois.

  • alexandre paula

    Patti Smith, gente. Eu preciso ouví-la mas vezes.
    Grande abraço. =DD

  • alexandre paula

    Dica de disco. Dica de leitura.
    Vou procurar o livro.

  • Antenada

    Mas o J.Rotten disse na época que akela jovem cantando “Horses” nem nunca foi punk, ué!!!

  • Mário NET

    O Johnny Rotten disse que ela nunca foi punk porque ela já era new wave antes dos Sex Pistols existirem. Ela já nasceu “depois” do punk inglês, mesmo tendo chegado antes.

  • Guilherme

    Livro fantástico. Melhor livro que li esse ano, no mínimo. Uma aula sobre o que é ser artista.