Especial: Um passeio pela Beatlemania Experience, exposição sobre Fab Four em SP

Todos os detalhes da mostra que segue em cartaz até dia 8 de novembro

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Um dos cenários da exposição BeatleExperience. Foto: UOL

por Pedro Tavares

Não por acaso o fã de Beatles é conhecido como beatlemaníaco. O mais comedido deles terá, com certeza, todos os discos e pelo menos uma camiseta e uma caneca com a estampa dos rapazes. Nos casos mais graves, o sujeito coleciona roupas, utensílios de cozinha, chaveiros, imãs de geladeira, pôsteres, gravações caríssimas e raríssimas, e tudo quanto é cacareco sem utilidade. Além disso, sabe tudo sobre a banda, das informações mais importantes até a cor da meia do trompetista na gravação de uma música desconhecida em um disco não muito famoso.

Lidar com esse tipo de público, portanto, é algo arriscado. Agradar o fã que conhece tudo sobre uma banda não é tarefa fácil, ao contrário, pode ser um tiro no pé. Quanto mais informações e memorabilia sobre a banda disponíveis, maior a chance de uma exposição trazer mais do mesmo. Nesse cenário, o fã poderia muito bem ter a sensação de que não se surpreendeu com nada e de que aquela exposição poderia ter sido organizada por ele mesmo, com seu conhecimento e seus objetos pessoais.

A BeatleMania Experience decidiu se arriscar nesse terreno. Abriu as portas no dia 24 de agosto, no Shopping Eldorado em São Paulo, com a promessa de ser “a maior exposição Beatles já vista”. O beatlemaníaco, é claro, foi lá conferir. Me incluo nessa.

O site diz que a exposição funciona com hora marcada, mas consegui entrar no momento que cheguei. Talvez por ser um dia de semana, não havia fila na bilheteria, que fica ao lado da porta principal. Os ingressos custam R$ 50 (inteira). Enquanto a simpática moça do caixa imprimia meu bilhete, perguntei se passado um mês da abertura o público ainda era bom. “Lota todos os dias”, ela respondeu, me passando o tíquete.

A exposição funciona como uma linha do tempo, que vai da pré-formação dos Beatles até o término da banda, com uma passagem pela carreira solo e cada integrante. São diversos ambientes com algumas coisas em comum entre eles, como tablets que o visitante pode usar para ouvir música, manequins com a evolução de vestuário do grupo e instrumentos usados por eles ao longo dos anos. Também estão espalhadas por toda a parte placas com pequenos textos contando sobre figuras importantes na história dos Beatles, como Brian Epstein, George Martin, Neil Aspinall, entre outros.

A visita começa em uma sala com um telão. Uma guia (em todos os ambientes da exposição há guias) passa as informações básicas, do tipo “fotos são permitidas, mas não com máquina profissional”, ou “não é permitido voltar aos ambientes já visitados”. Após essa fala, é exibido um vídeo de um minuto e meio, com áudio em português e legendas em inglês, sobre o contexto histórico da época do nascimento de cada um dos integrantes.


Nesse momento já se ouve a melodia de “In spite of all the danger”, que toma conta da sala seguinte, dedicada aos momentos pré-Beatles. Um caminhão no meio do lugar recria o set dos Quarrymen, banda de Lennon na juventude. As paredes mostram os nomes de todos os integrantes das antigas bandas dos rapazes, até a formação final com John, Paul, George e Ringo. Do outro lado, algumas fotos de lugares eternizados pela banda, como seus colégios, suas casas, as ruas de Liverpool, etc. Um item que chamou minha atenção – e que, pelo que notei, passa despercebido por muitos visitantes, é uma fotocópia de um boletim escolar de John Lennon, guardado em um pequeno aquário colocado perto da porta de entrada, com a seguinte avaliação da professora de geografia: “Too content to be mediocre”, algo como “conformado demais em ser medíocre”.

Seguimos por uma plastificada Mathew Street, rua de Liverpool famosa pelo Cavern Club, bar que recebia os Beatles no começo da carreira e é reproduzido no ambiente seguinte da exposição. O palco imita o original, com os quadradinhos coloridos no fundo. Em cima, um set dos Beatles com a bateria customizada, um baixo Hofner 500/1, uma guitarra Rickenbacker 325 e uma Gretsch Duo Jet. Manequins trazem o visual roqueiro, de jaqueta jeans, e o comportado, de terninhos com gravatas finas. Agora o som ambiente é “Long tall Sally”.

Após atravessar outra sala com informações sobre os shows na Alemanha, de 1960 a 62, o visitante encontra uma reprodução de uma cabine de trem, que dá a ideia de locomoção. São os Beatles indo à América. E nós indo junto.

“Love me do” dá o tom do ambiente sobre a beatlemania, uma sala circular cheia de TVs com imagens da banda. Nas paredes, dezenas de objetos, como bonecos, jogos de tabuleiro, lancheiras, baralhos, camisetas, quebra-cabeças, e tudo o que possa ser estampado com o rosto dos quatro jovens ingleses. Um manequim com o terno cinza sem gola, marca registrada dessa época, está posicionado perto de uma sessão destinada ao impacto dos Fab Four no Brasil, que conta com vídeos, revistas e um pôster do filme “Os reis do ié, ié,ié”, com a calorosa chamada: “Deixe-se de complexos! Junte-se aos brotos e divirta-se com uma comédia gozadíssima e alucinante!”.

O passeio segue com os Beatles conquistando o mundo. Uma vitrine com guitarras está posicionada na frente de uma espécie de varal com discos de vários lugares ao redor do globo, como Brasil, Itália, Espanha, EUA. Os discos do Japão são os mais curiosos. Um deles conta com a inusitada canção “Hey Jade” (?). Outro mostra John, Paul, George e Ringo com o tom de pele um pouco alaranjado e com os olhos ligeiramente puxados, como se fossem orientais.

No fim dessa parte, há uma sala cheia de óculos de realidade virtual. A tecnologia leva o visitante ao famoso concerto do Shea Stadium, um dos mais barulhentos da história. Quando coloquei o aparato, me vi na primeira fila do show, ao lado de meninas histéricas e de frente para os Beatles vestindo os icônicos trajes de xerife. São imagens recriadas daquele show. De repente eles atacam com “Twist and shout” e a plateia vai à loucura. Virando a cabeça para os lados, é possível ver as arquibancadas do estádio e o resto do público dançando perto de você. Não sei se é culpa da minha miopia ou da minha total inexperiência com esse tipo de tecnologia, mas mesmo usando lentes eu senti a imagem ligeiramente desfocada.

Quando sai da sala, duas mulheres na casa dos 65 anos estavam balançando os quadris e cantarolando, “well, shake it up baby now/ Twist and shout!/ Come on, come on, come on baby now”. Quase entrei na onda, mas decidi me conter e apenas fazer anotações em meu bloquinho.

Após as ensandecidas turnês, vamos parar nos anos em que os Beatles deixaram de tocar ao vivo e se dedicaram ao estúdio. A fachada do famoso estúdio EMI, em Abbey Road, é reproduzida no ambiente seguinte, que conta com fotos da época, algumas memorabilias em vitrines e os famosos figurinos do Sgt. Peppers e do Magical Mistery Tour. O que chama a atenção é uma Fender Stratocaster toda colorida em um canto. O cartão de informação diz que George Harrison decorou a guitarra com os esmaltes da esposa. É possível ver no instrumento algumas frases como “Go Cat Go!” e “Be Bop a Lula”, e um desenho do símbolo indiano OM.

A exposição faz mais uma viagem, mas dessa vez não é de trem. Uma sala imita o famoso submarino amarelo, lugar em que os visitantes não cansam de tirar fotos. O som ambiente era, por mera questão de timing, “Yellow Submarine”, já que quando saí estava tocando a lúdica “All togheter now”.

Chegamos ao cenário do famoso telhado do estúdio de Abbey Road, onde os Beatles tocaram pela última vez. Usar uma projeção com atores tocando “Don´t let me down” para ilustrar esse momento é no mínimo entranho, já que existem várias gravações da banda tocando naquele dia (aliás, o primeiro vídeo que aparece no Youtube se colocarmos no campo de busca a palavra “Beatles”, é “Don´t let me down” no telhado). Perguntei para a guia da sala se aquela era uma banda cover. “Acho que não. São atores, olha o baterista, ele nem sabe tocar”. Olhei o baterista. Realmente, ele apenas movia as baquetas para lá e para cá.

Em um canto, ao lado de algumas fotos dos últimos anos dos Beatles juntos, há uma carta da Apple Records para a brasileira Lizzie Bravo, que fez backing vocal na música “Across the universe”. No bilhete, datado de 27 de janeiro de 1969, a assistente de Peter Asher se desculpa pela demora em lançar a música, que havia sido gravada em fevereiro de 1968, dizendo que ela não estará no álbum “Yellow Submarine” e em nenhum single. Ao final, ela diz não ter certeza, mas imagina que os Beatles pretendem lançá-la em breve.

Enquanto eu lia essas cartas na vitrine, a guia claramente curtia a canção, que já devia estar repetindo pela quarta vez. “As outras salas mudam a música, mas aqui é só uma, né?”, comentei. “Estou aqui há uma hora”, ela riu. “Deve ser difícil”, sorri. “Eu gosto de Beatles”, ela disse. “Eu também”.

Em uma das últimas salas da exposição é possível tirar uma foto na frente de um display, como se estivéssemos atravessando a Abbey Road, antes de seguir para os quatro ambientes finais, dedicados a cada um dos Beatles, separadamente. A parte de Paul mostra um cavaquinho e um exemplar do disco “Tug of war” assinados, além das setlists de todos os shows que ele fez no Brasil. No espaço de George Harrison há uma cítara, instrumento indiano que ele aprendeu a tocar e usou em algumas gravações. Para Ringo, peles de bateria com diversos logos dos Beatles.

A última sala é dedicada a John Lennon. Um piano branco com uma rosa, os icônicos óculos redondos e uma foto dele ocupam grande parte da sala, que tem na parede o famoso pôster “War is Over: If you want it. Merry Christmas from John and Yoko”; e uma guitarra Gibson Les Paul Junior, seu xodó entre 1971 e 74.

Ao final da exposição não poderia faltar a tradicional loja com alguns produtos acima do preço (que nós beatlemaníacos, obviamente, compramos). Na saída, perguntei para alguns visitantes o que acharam da exposição. Lucas, um garoto de 17 anos com espinhas no rosto e uma camiseta do filme Taxi Driver, disse que gostou muito da parte com a realidade virtual, que “apesar de um pouco malfeita, era bacana”. Um casal de Limeira, Marcos (56) e Roberta (57), veio com a filha Luana (20). Eles compraram os ingressos pela internet, antes de vir à São Paulo. “Dá uma nostalgia. A gente viveu isso, sabe?”, disse Roberto teatralmente olhando o nada. “Mas éramos crianças!”, Roberta se opôs rapidamente, fazendo gozação. “E você? Alguma coisa especial?”, perguntei para Luana. “Fiquei emocionada na parte do John Lennon, aquele piano branco, tocando “Imagine”… achei superbonito”.

O fato é: além de ser arriscado fazer uma exposição para um público tão exigente, vendê-la como “a maior exposição Beatles já vista” é, no mínimo, aumentar essa pressão. A exibição, que é muito bem feita, carrega essa carga desnecessária antes mesmo de o visitante ir prestigiá-la.

De qualquer forma, o saldo é positivo. Com as músicas na cabeça, caminhei até a Rebouças e embarquei em um Terminal Parque Dom Pedro II, mas com a sensação de estar em Liverpool, na Penny Lane, embarcando no ônibus do Magical Mistery Tour. E isso, para o beatlemaníaco, vale ouro.

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