Johnny Hooker - Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!

Johnny Hooker
Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!

Jdm Music

Lançamento: 22/02/15

A ambientação de cenários sem dúvidas passa pela escolha da trilha sonora correta. A busca pela faixa que se mescla ao ambiente de tal maneira que a dissociação entre lugar e som se torna impossível. Tendo esse campo em mente, a diversa em sonoridades Recife ganha mais um representante que se presta a rascunhar os personagens que habitam inferninhos e espaços que servem de abrigo para relações proibidas da capital nordestina: Johnny Hooker. Natural de Pernambuco e dono de um timbre de voz que traz à memória os timbres dos mais corajosos interpretes da MPB, Cazuza e Ney Matogrosso – claro; Johnny apresenta Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, quarto da carreira, mostrando-se tão passional quanto se faz imaginar pelo título.

Apesar de longe do que o adjetivo “conceitual” pode trazer em uma primeira análise, Johnny Hooker tem, sim, uma linha de composição que une faixa à faixa as canções que fazem parte de Eu Vou Fazer uma Macumba…, o reforço à arquétipos há muitos pintados por outros artistas e que frequentemente vêm à cabeça quando o assunto é a produção cultural nordestina, sendo eles o casamento entre a imagem apaixonada e impulsiva do homem que habita as regiões mais quentes do país e o ambiente que o cerca. Amparado não só por composições que isoladas já trariam conteúdo suficiente para criar a ideia de extremos que se nota ao longo do álbum, Hooker ainda utiliza de gêneros pouco usuais e que complementam perfeitamente a ideia da figura da noite que parece se formar no imaginário ao longo de sua audição. Brega, samba de gafieira, rock e fossa servem de pano de fundo para o desfile de personagens apresentados pelo cantor, não sendo eles partes de uma mesma história, mas com toda certeza, habitantes de um mesmo mundo, onde a ordem que os organiza é a impulsividade de suas ações.

Aproveitando-se de um espaço na música popular brasileira aberto por compositores atuais que fogem de discursos mais tenazes, e infelizmente marcado por um marasmo pouco instigante onde o padrão tornou-se o bom mocismo, Johnny usa suas letras para dar vida à personas que talvez possam ser interpretadas como extremas; mas que fazem parte de um discurso abandonado por uma significativa ala da música: a influência da latinidade na linguagem. Ao longo de dez faixas (mais uma segunda versão em espanhol de uma delas) as ações de seus tipos são drásticas, seus pensamentos dos mais exagerados: a suplica pelo amor de alguém que já o abandonou (“Volta”), o interesse por um parceiro de moral duvidosa (“Alma Sebosa”), o uso do sexo como instrumento de vingança (“Você Ainda Pensa?”), a insistência em um relacionamento fadado ao fracasso (“Amor Marginal” e “Segunda Chance”), entre outros.

Impressiona ainda o tino para o popular das faixas presentes no álbum. Seja pela observância de um cotidiano pouco retratado em letras, seja pela audácia de algumas de suas linhas, o produto criado por John Donovan (nome de batismo de Johnny) cria ao longo de suas canções expressões que facilmente ficam na memória de quem as ouve. De algumas das melhores, o mendicante refrão de “Volta” misturado ao ritmo de brega e o desdém de “Alma Sebosa” acabam por apresentar suas facetas mais involuntariamente populares, e que imediatamente lembram outras associações como os nomes de Thiago Pethit, o cabaré de Filipe Catto e o pop urbano de Adriano Cintra. Sua inserção nas rádios acaba que por depender unicamente do perfil dessas mídias, conhecidas por um alinhamento cada vez mais conservador em sua programação e que costuma, inclusive, esconder palavrões ou quaisquer linguagens que considere agressivas.

Em Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!, Johnny se conecta aos mais diversos artistas, donos de obras que tencionaram ilustrar quadros onde a paixão e violência nos atos de seus personagens fossem o ponto de partida e a ruína de seus fins. Da literatura de Jorge Amado e Marçal Aquino aos filmes da recente cena pernambucana, o compositor enfileira figuras que têm sumido das letras de música do cancioneiro popular e os embala à ritmos e letras de fácil lembrança, obtendo intencionalmente um produto pop com gosto pelo desafio da desobediência. Prostitutas, homens que amam à beira da própria humilhação e personagens movidos pelo impulso da bebedeira são atirados num ambiente vagamente familiar para se relacionarem: o mesmo fundo do poço onde se escondem os infelizes e comemoram a liberdade os finalmente independentes.

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