Faixa a faixa: “Drones”, novo disco do Muse

Por Allan Francisco

Recheado de influências de grupos como Queen e U2, Drones, o sétimo álbum do Muse, segue na linha de evolução iniciada em 2009 com The Resistance, mostrando que ainda é a mesma banda que compôs tanto hits como “New Born” quanto “Uprising”. Durante o álbum, pode-se perceber a intenção de determinar significados diferentes para a palavra “drones” em um contexto particular para cada faixa. Por mais que morfologicamente sua estrutura seja a mesma, mesmo com a temática de guerra e destruição (“guerra” que ainda possui ambiguidade), seu significado muda.

Matt Mahurin, o diretor de arte e ilustrador responsável pelo disco, já trabalhou na criação de ilustrações para os encartes de No More Tears, de Ozzy, e Brain Drain, dos Ramones. Em ambos os casos, percebe-se o peso e as características sombrias de seu estilo exploradas de maneira impecável em Drones, casando com a fluidez das respectivas músicas. Em cada página do encarte está estampada uma arte diferente para todas as 12 composições (se desconsideradas as introduções “Drill Sergeant” e “[JFK]”), lembrando capas de singles, o que tornou mais agradável tanto na análise individual quanto na análise do álbum como um todo. As gravações “Dead Inside” (com o B-side “Psycho”) e “Mercy”, por exemplo, foram comercializadas em formato de single, que rendeu divulgação razoavelmente positiva por ser simultânea ao lançamento dos clipes no YouTube.

Mesmo sendo capaz de evoluir, um estilo frequente no álbum ainda é aquela influência eletrônica de The 2nd Law (2012), conseguindo se conectar com a transformação em um human drone de um forma impressionante.

 

Dead Inside

Um amor estomagado, “Dead Inside” é um grito desesperado definido por batidas marcadas e cruas. Faixa rica em quebradas frequentes com pulsos que reverberam da bateria, junto ao efeito de guitarra visceralmente eletrônico. O interlocutor é decretado com vazio e o acorde de órgão repentino ajuda a trazer um peso seriamente sombrio. Chris Wolstenholme e seu contrabaixo lembram o álbum de 2009. A ponte de introdução ao último quarto da melodia tem acordes melancólicos e atormentados, um contraste com o coro evidente e suave por trás da voz de Matthew Bellamy. Qualquer ouvinte que conhece (mesmo que parcialmente) os acontecimentos recentes na vida do vocalista é capaz de fazer uma conexão entre sua ex-mulher Kate Hudson e as letras compostas “Dead Inside”. A penúltima estrofe da música mostra bem a transição de “você” para “eu” literalmente ao dizer “now I’ve become just like you”, que chega a soar negativa dentro desse contexto. E foi muito bem expressada em ambos os clipes, tanto no lyric video quanto no clipe oficial.

Lyric video:

Clipe oficial:

 

Drill Sergeant/Psycho

Mais um riff característico do Muse. A composição consegue ser revoltante e intimidadora ao mesmo tempo, mantendo um clima thrash e uma vontade de sair batendo cabeça durante a melodia da guitarra. A faixa é repetitiva até chegar à ponte, quando deixa a guitarra mais em evidência ainda, como em “Dead Inside”, mas agora o sentimento é de crescimento em vez da inspiração para a tal “liberdade” da anterior. O riff pode soar familiar para os fãs atentos pois foi reciclado como resultado das improvisações durante alguns shows realizados pela banda. Foi feita até mesmo uma compilação com esses momentos, que vão de 1999 a 2013, com destaque para a apresentação no Wembley Stadium, em 2007, ao final de “Stockholm Syndrome”. De qualquer maneira, há altíssimas chances de você não se esquecer dessa batida tão cedo.

Riff de “Psycho” ao longo dos anos:

@ Wembley Stadium:

Lyric video:

 

Mercy

É uma das poucas que provavelmente só devem soar bem quando apresentadas ao vivo. O teclado atua como o instrumento principal e é o que fica claro ao decorrer da música, juntamente aos falsetes de Bellamy. A faixa é bastante melosa e não é uma das melhores do álbum. Porém, os dois clipes deram bom sentido à canção, servindo como boa trilha sonora para ambos.

Clipe oficial:

Lyric video:

 

Reapers

A partir desta, o clima começa a mudar, ficando mais vivo e expansivo – bem demonstrado por ser também a arte mais animada do encarte. Refrão com efeitos eletrônicos bons, rica em um som mais metálico, com direito a um final inesperado, um ponto forte da música por destoar do estilo das restantes, mas que poderia facilmente ser eliminado e poupado mais de um minuto e meio de interação. Por alguns instantes, o refrão lembra a voz robótica de “2nd Law”; a reverberação com efeito backwards unida às palhetadas com riffs rápidos, ricos de slides e de notas agudas durante o solo acompanha a bateria que dá o ritmo acelerado durante a música inteira. Está entre as melhores do álbum e é sem dúvidas a que mais remete ao Muse antigo.

Lyric video:

 

The Handler

O título é nítido, e o conceito fica claramente exibido nas técnicas artísticas sombrias do encarte (que, diga-se de passagem, dariam uma excelente capa para um futuro single). É intensamente dramática, levada com o contrabaixo pesado e mais uma vez pelos efeitos da voz robotizada. Há a eminente libertação da tal “manipulação” durante a segunda metade – um despertar sutil, tranquilo, ao invés de uma revolta descontrolada. Serve como uma apresentação interessante para a faixa seguinte.

Lyric video:

 

JFK + Defector

Tem como forte característica ideia de libertação mais explícita do que a música anterior. O coral que acompanha Matthew lembra o estilo Queen muito bem explorado em “United States of Eurasia” (2009). Intro e outro encaixam-se ao resto da melodia de maneira agradável ao longo do discurso de Kennedy.

Lyric video:

 

Revolt

É a estrita perda de uma luta, uma revolta vista de um terceiro. Sempre a ideia de “you can” mostra saber pelo o que o interlocutor passou. Uma revolução com dor, que na realidade soa como uma derrota. Ponto positivo por lembrar Queen e U2; e ponto negativo por ser uma composição apenas regular do Muse. Com certeza seria uma música dispensável.

Áudio:

 

Aftermath

Rica em instrumentos, abriga uma leveza consigo, sendo o “resultado” violento de um pós-guerra (referência ao título). Os acordes iniciais da guitarra junto aos outros instrumentos de corda são bem aproveitados na companhia da orquestra de fundo. Se a outra faixa foi a derrota em si, “Aftermath” é a cena pós-destruição total, sem dúvidas a mais triste e a mais bem composta (destaque para o trecho de “I’m coming home now”). A melodia sutil da guitarra traz conforto e o tom espacial lembra uma versão humanizada das músicas mais amorosas do penúltimo álbum.

Áudio

 

The Globalist

Excelente começo, com clima western, unido à marcha e à chuva que remetem a um funeral. É triste e o luto, evidente. O slide da guitarra chega a lembrar a floydiana “The Great Gig in the Sky”. O renascimento e o crescer inocente de um broto pequeno em meio ao imenso caos ocorrido, segue com a história do restante do álbum. Logo antes da metade, começa a mudar o ritmo e transforma-se em uma marcha violenta e crescente. Torna-se mais leve com a chegada tênue do piano, marca registrada do Muse ao final de álbuns – principalmente em “I Belong To You (Mon Cœur S’ouvre À Ta Voix)”, de The Resistance.

Áudio:

Relembrando “I Belong to You”:

 

Drones

Em sua totalidade, é formada por vozes de canto gregoriano. A sobreposição das várias vozes de Matthew deixa claro que foram gravadas diversas vezes em várias tracks e em tons diferentes. Um final surpreendente para um álbum magnífico.

Áudio

Disco completo no Spotify:

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