Festival Natura Nós: a água e o Air

Deve existir alguma regra kármica no manual de São Pedro determinando que, toda vez que houver show na Chácara do Jóckey, deve chover em São Paulo. É claro que o Festival Natura Nós não ia escapar dessa sina: lá pelas 18h do sábado, uma chuva densa caía sob a Vila Sônia e anunciava a tormenta de lama que haveria por vir.

Eu, que fui de carona, desci na Av. Francisco Morato, imediatamente comprei uma capa de chuva e fui para o local do show. A chuva passou uns três minutos depois que eu desci do carro, diminuindo gradativamente até parar. De vez. São Pedro resolveu ser legal com a galera, afinal (já sofremos demais no SWU mesmo =P).

Comprei meu ingresso, entrei e fiquei surpreso com a pouca quantidade de pessoas no local. Céu se apresentava para um público até que grande no Palco Azul, enquanto a pista comum do Palco Verde (o das atrações internacionais) estava praticamente esvaziada. Andando calmamente, consegui chegar à segunda fileira, logo atrás da grade (onde fãs do Snow Patrol estavam postados vai saber desde que horas) e por ali fiquei.

Vale ressaltar que um motivo bem óbvio para o esvaziamento da pista eram as enormes poças de lama que se formavam em alguns pontos. Bem no meio da pista, quase encostada à grade, havia uma tão gigantesca que, mesmo sendo um ótimo lugar para ver os shows, permaneceu desabitada até a hora do Jamiroquai.

O Air entrou no palco quase com pontualidade britânica. Vestidos de branco, Jean-Benoît Dunckel  e Nicolas Godin eram acompanhados pelo enérgico baterista americano Joey Waronker, que ajudava a dar vida às pérolas eletrônicas da dupla francesa. Aliás, uma grande bola dentro do Air é tocar ao vivo, embora boa parte dos sons venha de samplers e sintetizadores.

O show abre com a boa “Do The Joy” do último disco, Love 2. “Love” vem a seguir e também é bem recebida. Mas é “Remember”, do segundo e mais famoso disco, Moon Safari, a faixa que faz o Air ganhar a platéia da Chácara do Jóckey. Numa versão menos meiga e mais eletrônica, a música ganha um certo ar de hit de pista e levanta o público. Seguem-se o hit “Venus” e outra das novas, a instrumental “Tropical Disease”, temperada com um instrumental roqueiro não presente na versão de estúdio que fez pular até os não-fãs.

Depois, teve “Don’t Be Light” e, daí para frente, foi só hit. “Cherry Blossom Girl”, cantada com ternura por Nicolas, mostrou o lado romântico do Air, enquanto “Be a Bee”, uma das melhores faixas do último disco, ganhou uma versão alongada e com capricho no instrumental, que voltou a dar um ar roqueiro à apresentação. “How Does It Make You Feel?” acalmou um pouco as coisas e aí veio a pedrada de “Alpha Beta Gaga”, clássico do álbum Talkie Walkie, que trouxe o incrível detalhe de ser inteiramente assobiada ao vivo por Jean-Benoît.

“Kelly Watch The Stars” foi outro clássico cantável do Moon Safari. Em seguida, Nicolas anunciou: “we have to be sexy tonight”. Não deu outra: “Sexy Boy” na cabeça! O maior hit do Air foi justamente o que me decepcionou um pouco: o peso da versão de estúdio foi trocado por um lado mais eletrônico de pista que não me agradou muito. Mas a música foi legal mesmo assim.

E aí, para terminar tudo, uma versão enorme e pesadíssima de “La Femme D’Argent”, música de abertura do Moon Safari que traz um dos riffs de baixo mais deliciosos dos últimos tempos. Ao vivo, a canção começa lisérgica e vai acelerando até virar um rock de arena no final. No telão, um vórtex colorido era projetado, sugando os espectadores para a viagem do Air. Delirante e lindo.

Sem bis, o show terminou aplaudidíssimo por uma platéia que, em sua maioria, achou injusta uma apresentação tão curta para uma banda com tanta história e tanta música boa para tocar. Entre os acertos, estiveram a boa dose de hits e a decisão de ignorar totalmente Pocket Symphony, o penúltimo e chatíssimo álbum da banda. Ausências sentidas, só “Surfing On A Rocket”, faixa mais essencial do Talkie Walkie, e talvez alguma música da trilha de As Virgens Suicidas. “Eat My Beat”, do último disco, merecia ser tocada. E os caras tiveram a ousadia de ignorar “Sing Sang Sung”, primeiro single do Love 2.

Mas, no geral, apresentação nota 10. Com destaque para o som do evento, que não falhou e estava com um volume e uma qualidade bons de ouvir.

6 Comentários para "Festival Natura Nós: a água e o Air"

  1. Pqp, que show animal!
    O telão foi um dos detalhes mais legais, complementava muito bem as músicas!

    outro detalhe bobo, mas legal, foram eles falando “obrigado” com aquelas vozinhas bizarras!

    os caras são foda mesmo!

  2. Hereges! Dizer que o Pocket Symphony é chato e foi bem acertado ignorá-lo é besteira demais, Mer Du Japon, Lost Message ou Space Maker fariam do setlist pequeno mas completo e lindíssimo!

  3. Imagina só o Jarvis entrando só pra cantar “One Hell Of A Party”? (sonhar não custa nada)

    E na verdade o show contou com música do Pocket Symphony (“Space Maker”), mas acho que o pessoal não percebeu, né? 😛

  4. sinto que a sua enorme poça e a minha enorme poça são a mesma enorme poça… consegui ver os shows livre de cabeças dançantes graças a ela!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *