Figurino é ou não é importante para um show?

Chico Buarque, Johnny Hooker, Siba, Scalene, Karol Conká e BNegão. Cada um com seu estilo, mas pensando em figurno. Foto: Montagem/Google Images

Chico Buarque, Johnny Hooker, Siba, Scalene, Karol Conká e BNegão. Cada um com seu estilo, mas pensando em figurno. Foto: Montagem/Google Images

O legal de ter um blog/site é você poder escrever um pouco sem muitas amarras e por isso vou contar como essa pauta nasceu.

Fui taxada de machista* em uma crítica que escrevi sobre um show que ocorreu no Sesc Pinheiros em homenagem ao Jorge Ben Jor. Vocês podem ler a crítica aqui no Move That Jukebox. Acontece que acabei falando dos figurinos apenas das mulheres que se apresentaram, mas dos homens não. O problema disso tudo, é que uma das moças não fez uma boa apresentação e a outra sim. E a roupa da primeira acabou me chamando atenção negativamente e da segunda não. Já fiz a minha mea culpa e vi que na verdade escrevi o texto mal e por isso, fui mal interpretada. Acontece, né?

Isso me deixou extremamente chateada. Quem acompanha o Move sabe que desde que entrei como editora tenho tratado do feminismo aqui, seja com colunas ou entrevistas. Mas isso abriu um questionamento. Será que falo de figurino apenas quando faço críticas de apresentações de mulheres? E na verdade não.

Por exemplo, quando tratei do lançamento do DVD da Céu, falei do figurino. Quando falei do lançamento do novo disco, Tropix, também. Mas quando falei do show na Sexta Básica, não. Falei do figurino da Tiê, da Karina Bur, mas não disse nada sobre o da Azealia Banks. Comentei apenas o figurino da Mallu Magalhães no show da Banda do Mar, mas tratei do figurino de todo o Pato Fu. Comentei o figurino do Sonics, do Emicida, de todos os figurinos dos últimos shows que escrevi do Otto, mas nada falei sobre o figurino do Arnaldo Antunes ou do Russo Passapusso.

Ou seja, não tem muita fórmula. Apenas trato do figurino quando ele chama atenção e gosto do tema moda, por isso também presto atenção, mas vale salientar que sim, há uma tendência a comentar figurinos femininos. Talvez por que elas pensam nisso mais do que eles e caprichem mais também. Ou talvez por eu ser mulher, amar moda, ter estudado o tema e acabar prestando mais atenção nelas, do que neles.

Dito isso, a questão que fica é: “Figurino é ou não é importante?”.

“Acho que o figurino ajuda a construir o conceito de uma banda/cantor(a). Tudo pra mim é uma teia: performance, letras, iluminação, maquiagem, figurino, além do som. Às vezes dependendo da proposta musical pode ser mais “caricato”, às vezes mais discreto. Mas o cuidado sempre mostra um diferencial, um profissionalismo a mais. E pra mim tem que ter um porquê da escolha, um estudo de cores no mínimo. Porque a maioria das bandas de rock usam preto? Também gosto de ir na contramão, “pensar ao contrário” usar a criatividade em todos os setores dessa construção de imagem”, explica a produtora e marketing para bandas, Taciana Enes.

Ou seja, é bacana sim, quando você subir ao palco procurar um figurino, uma roupa que te ajude a comunicar a sua mensagem na música. Pode parecer bobagem para uma série de artistas, mas moda é também comunicação. Quando você se veste, você não está apenas colocando uns panos em cima do seu corpo para você sair por aí sem cometer um atentado ao pudor. Mas você está comunicando ao mundo quem você é. Você está expressando a sua personalidade. Se você é desleixado, se você é mais do esporte, se é aficionado por novidades, se gosta de cultura geek, se gosta de cultura retrô, se é mais do rap, se você é mauricinho…

Vestir-se é também um ato político. Quando você vai a uma passeata de veste verde e amarelo, para gritar: “Fora Dilma!”, você está comunicando algo. Quando você veste uma roupa vermelha e grita: “Fica Dilma!”, você também está dentro de um movimento através da sua roupa. Ou mais, você mulher que veste roupas masculinas e questiona essa coisa de gênero, ou você homem, que veste um vestido ou uma saia e não deixa de ser homem cisgênero (hétero), por fazer isso.

Um dos artistas que mais gosto e não está na música, mas que está justamente ajudando e muito nesta crítica é o Jaden Smith, protagonista da série The Get Down na Netflix. Ele vestiu um vestido em sua festa de formatura e depois ainda disse: “Não são roupas de menina”. E ainda teve mais, quando ele resolveu usar uma fantasia de Batman no casamento da Kim Kardashian com Kanye West e perguntaram, mas por que você usou isto e ele respondeu: “Eu achei que as pessoas precisavam de proteção”. O menino de 18 anos ainda é divertido.

Karol-Conká

Karol tem escolhido roupas bafônicas em suas apresentações. Esta foi no Lollapalooza deste ano. Foto: Divulgação/Google Images

Uma vez vi uma entrevista em que Chico Buarque dizia que ele não ligava muito para isso antes. Saía do bar e ia tocar. Depois de um tempo, viu que era importante fazer este distanciamento do artista com a pessoa e começou a pensar em figurino. Ele mesmo usa roupas simples. Olha roupa que ele usou no DVD “Carioca” (2006). Já tem gente que prefere ousar, como a Karol Conká e o Johnny Hooker, o que tem absolutamente tudo a ver com a música com que eles fazendo. O Scalene vai numa onda mais rock de preto bem vestido. O Siba geralmente se apresenta com chapéu, usa alpargatas, calças mais folgadas e camisa. O BNegão quase sempre (não me lembro de tê-lo visto de outra cor), vai de camisa preta, calça jeans e um tênis. E sempre com os óculos, que viraram marca registrada.

Mais uma vez esta frase. Não tem fórmula. É o artista quem vai decidir o que usar no palco e vai encontrar aquilo que o faz confortável para apresentar o seu trabalho. E sim, isso faz parte da crítica musical de um show.

*Optei por não dizer quem foi a pessoa que disse isso, por que não acho legal expô-la, embora ela tenha me marcado no Facebook, o que possibilitou a outras pessoas viessem também me criticar. Não sei até que ponto é legal alguém vir no seu perfil pessoal do Facebook e dizer coisas não muito agradáveis sobre a sua pessoa. A área de comentários do site está aí para isso e ela é aberta para todos os olhares. 

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