Franz Ferdinand no Marina Hall, em Brasília – 21.03.10

A expectativa para quem vai assistir a um show do Franz Ferdinand é sempre alta. Argumentos para defender a tese de que “O Franz é a melhor banda de indie rock ao vivo” nunca faltaram – e uma turnê como essa, pós Tonight Franz Ferdinand, só realimentou todo esse saudosismo.

O Marina Hall, espaço que sediou o show do Franz em Brasília, não estava lotado. Centenas de fãs se amontoaram à frente do palco, mas os interessados em dançar ou apreciar o espetáculo de longe contavam com um vão espaçoso no fundo do salão.

Era essa a situação do Marina Hall desde a rápida e carismática apresentação do The Pro, a banda de abertura. Não tinha como não se deixar contagiar pela empolgação dos brasilienses no palco, que conduziram um show repleto de referências e saudações ao Franz, conquistando, sem dúvida, visibilidade e público certo para futuras apresentações pelo país.

O show da noite começa com toleráveis 20 minutos de atraso e logo de início desenterra “Auf Achse”, canção histórica do primeiro disco dos escoceses. Aliás, tendo em vista o propósito da turnê de promoção do Tonight, foi curioso perceber que, das 20 músicas que integraram o setlist, 9 vinham do álbum de estréia da banda (Franz Ferdinand, lançado em 2004) – dele, só “Cheating On You” e “Come On Home” ficaram de fora.

Um Kapranos radiante conduz a apresentação quase sem pausas. “No You Girls” foi a segunda da noite. A resposta dos fãs vinha de duas formas: se não era o coro dos mais obcecados na parte de frente da platéia, eram as dancinhas empolgadas dos que se acomodaram ao redor do salão que lançavam estímulos à banda no palco. Em sequência, “What She Came For” e “Take Me Out”, para muitos o combo da noite, foram entoadas como hinos – tanto pelo Franz quanto pelos fãs. “Ulysses” e “Turn It On”, que também vieram juntas no set, finalizaram a primeira parte da apresentação, hora ou outra interrompidas por um caloroso e improvisado “Vamos fazer barulho, Brasil”, de Kapranos. Aquele era o Franz demonstrando o seu poder avassalador de transformar shows em festas intimistas – a de Brasília acompanhada de uma histeria coletiva que, por um momento, parecia não ter fim.

Mas é imediatamente antes do encore que o show chega ao seu ápice. Antes de sair, todos os integrantes deixam seus instrumentos e posicionam tambores de bateria na frente do palco. Eis que uma rápida melodia de percussão, com sons tímidos de sintetizadores ao fundo, começa a tomar conta do salão.

Entregues aos tambores como se aquele fosse o último movimento da noite, o Franz Ferdinand se mostra uma banda tão potente quanto sinérgica. A sintonia musical e a forma como os quatro conduzem as baquetas, numa pegada visceral e constante, também motivou uma resposta dupla da platéia: parte dos presentes não encontraram reação e permaneceram boquiabertos; a outra parte pulava e dançava como se não houvesse amanhã. Nada de microfones, mas os mais atentos conseguiram ouvir os gritos naturais de Kapranos, que após uns sete minutos incansáveis de bateria, joga as baquetas para o ar, declama um cansado “Obrigado” e sai de palco com seus parceiros.

O retorno é rápido. A primeira música pós-encore é “Jacqueline”, momento em que não era preciso olhar muito longe para ver fãs imersos em lágrimas. “Michael”, “Darts of Pleasure” e “40 Feet” dão o tom de festa para o fim que se aproxima com os mais de sete minutos de “Lucid Dreams” – que, ao vivo, são memoráveis. A música passa por todas as suas nuances de forma primorosa e é executada com cuidado, numa perfeição técnica que chega a incomodar de tão improvável (para o fim de uma apresentação).

E demonstrando ainda mais apreço a percussão, a noite de fato termina com Paul Thomson disparando o seu solo retumbante de bateria. É o típico momento que ecoa na cabeça horas depois do show e faz lembrar do que te apontaram quando você pensava em comprar o ingresso: ok, o Franz Ferdinand talvez seja o responsável pela melhor performance ao vivo da história deste novo rock.

Hick Duarte é fotógrafo e estudante de Jornalismo em Uberlândia, Minas Gerais. Por lá integra o núcleo de comunicação do Coletivo Goma – Cultura em Movimento e mantém o website Fiesta Intruders. Viaja pelo país cobrindo os principais festivais de música independente e é responsável por um blog totalmente dedicado ao indie nacional no Portal MTV, o Indiescópio.

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  • Hugo Paceli

    Pô, eu fui no show e hei de discordar que, apesar de ter todo o salão para ficar, a grande graça de qualquer show é ver a banda de perto.
    Nesse quesito o Marina Hell (como alguns apelidaram) deixou a desejar. A estrutura de um salão de festas está muito aquém de um show com o peso do Franz.
    O calor do lugar foi mais evidente depois do show, quando o chão estava encharcado de suor. Eu mesmo não aguentei o calor, e saí do “gargalo” bem na hora que eles improvisaram na bateria =P
    Tirando esses deslizes (bem graves, já que houve desmaios lá na frente) o show foi muito bom.

  • bebe disco

    lucid dreams naum eh a ultima musica de tonight, fikdik.

  • já corrigimos, bebe! valeu a dica 🙂

  • Lô Colares

    Estive nesse show e repito, foi memorável.

  • Nubzk

    HAHAHA, engraçado que foi desse modo como eu descrevi a cena dos tambores. Sério, não tive melhor show na minha vida do que este, e provavelmente não terei tão cedo…